Homem filma a si mesmo gritando contra exposição no Palácio das Artes

Cidadão pedia providências contra mostra de Pedro Moraleida citando acusações feitas à exposição 'Queermuseu', suspensa em Porto Alegre; mulher também exibiu cartaz contra obras nesta quinta, 5/10

por Leise Costa* 05/10/2017 20:30

Jair Amaral/EM/D.A.Press
Obra de Pedro Moraleida em exposição no Palácio das Artes (foto: Jair Amaral/EM/D.A.Press)

Na tarde desta quinta-feira, 5, um homem e uma mulher – ele portando um celular; ela, um cartaz – circularam pelo saguão do Palácio das Artes gritando contra a exposição Faça você mesmo Sua Capela Sistina, de Pedro Moraleida, que integra a coletiva Arteminas: não quis o que estava no ar, em cartaz desde 1º de setembro.

Aparentemente filmando a si mesmo, o homem andou em círculos em frente à Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, repetindo: “Faça a lei valer como foi feito no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Juízes da Vara da Infância e da Adolescência, Ministério Público nós os convocamos. Isso é um absurdo. Pedofilia, zoofilia e cenas de sexo”.

Em Porto Alegre, o Santander Cultural decidiu, no mês passado, suspender a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na arte brasileira depois que protestos capitaneados por setores identificados com o MBL (Movimento Brasil Livre) ganharam amplitude nas redes sociais. As acusações eram que obras retratavam "pedofilia, zoofilia e cenas de sexo” e que visitas de crianças não estavam sendo impedidas.

Em seu discurso, o cidadão que protestava chamou a imprensa de "comparsa" da exposição. No mesmo momento, uma mulher também circulou pelo saguão, portando um cartaz de protesto à exposição. Alguns frequentadores demonstraram desaprovação à atitude e um homem aconselhou a mulher que protestava a ir para casa.

 

 

Na manhã de quarta, 4, o vereador Jair de Gregório (PP) gravou uma “live” em seu perfil no Facebook, com a legenda “Aberração aqui não Juca Ferreira. BH não é lixo!”. No vídeo, o vereador convoca seus seguidores para uma manifestação na porta do Palácio das Artes. “Eu quero desafiar o senhor Secretário de Cultura de Belo Horizonte. Senhor Juca Ferreira, o senhor vai continuar permitindo este tipo de aberração dentro de Belo Horizonte?”, pergunta.

Ele [Juca Ferreira] é um cara colocado pelo prefeito Kalil (PHS) que veio de Salvador, um cidadão do mundo. Um cara que não tem identificação com Belo Horizonte, não conhece as famílias de Belo Horizonte”, diz o líder de bancada pelo Partido Progressista (PP). Em seu perfil no site da Câmara Municipal de Belo Horizonte, o vereador se descreve como “liderança na Assembleia de Deus, casado há 25 anos e pai de quatro filhos”.

O Palácio das Artes (equipamento da Fundação Clóvis Salgado) é vinculado à Secretaria Estadual de Cultura, cujo titular é Ângelo Oswaldo. Em nota divulgada na quarta, a Fundação Clóvis Salgado informa que a exposição com mais de 160 obras entre pinturas, desenhos e objetos recebeu em seu primeiro mês quase 6mil visitantes, o que confirma o grande interesse do público, mesmo com a limitação imposta na entrada da galeria pela placa indicativa desaconselhando sua visitação para menores de 18 anos.
 
E completa “Mais uma vez, a Fundação Clóvis Salgado reafirma sua vocação pública ao oferecer seus espaços expositivos para inquietações e reflexões artísticas e divulgar a produção das artes visuais mineiras, campo no qual tem alcançado destaque histórico.”

O artista belo-horizontino Pedro Moraleida, falecido precocemente aos 22 anos, em 1999, tem reconhecimento internacional. No site da Fundação Clóvis Salgado, o pai de Moraleida Luiz Bernardes, destaca a importância da revisão do trabalho do filho na nova exposição: “O trabalho do Pedro tem uma força de conjunto e um conteúdo altamente questionador, além de uma produção enorme e diversificada. Ele se valia de representações do hedonismo e do consumismo, além da alienação da arte frente aos problemas sociais e humanos”, ressalta.


*Estagiária sob supervisão de Silvana Arantes
 

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