Cia. Mário Nascimento apresenta espetáculo inspirado nas lendárias icamiabas

'Espelho da Lua' faz uma ode às guerreiras índias que simbolizam a força física e o poder espiritual das mulheres

por Márcia Maria Cruz 22/09/2017 09:00
Marco Aurélio Prates/Divulgação
'Espelho da Lua' terá apenas uma sessão em BH, neste sábado, no Teatro Bradesco. (foto: Marco Aurélio Prates/Divulgação)

Há 600 anos, mulheres guerreiras viviam isoladas, sem a presença de homens, perto da cabeceira do Rio Jamundá, no Norte do Brasil. A lenda diz que as icamiabas, exímias com o arco e flecha, tinham os seios atrofiados, o que lhes rendeu a denominação em tupi que significa peito partido. De acordo com o saber popular da Amazônia, quando viajantes se depararam com aquelas guerreiras, de imediato as compararam às amazonas da mitologia grega.

Nas muitas idas do coreógrafo Mário Nascimento ao Amazonas, a condição das índias o tocou. ''Há oito anos faço trabalhos com a Companhia de Dança de Manaus. Tenho interesse pela floresta, foi quando me deparei com essa lenda'', revela. Ao voltar para Belo Horizonte, ele propôs às bailarinas de seu grupo um espetáculo que tratasse, literalmente, da força da mulher.

Em parceria com a bailarina Rosa Antuña, Mário concebeu Espelho da Lua, espetáculo que terá apresentação única neste sábado, 23, às 20h, no Teatro Bradesco. A pré-estreia ocorreu no Rio de Janeiro, a convite do festival Dança em Trânsito. O nome do espetáculo faz referência ao lago onde as icamiabas se encontravam durante rituais para a Lua.

''A Lua é muito importante para encontrarmos o feminino. É a conexão com a mãe, simboliza os ciclos, o inconsciente e as variações hormonais'', pontua Rosa Antuña.

CÉLULAS Mário propôs ''células de movimentos'' e, depois, distanciou-se do processo, deixando que ele fosse conduzido por Rosa e as bailarinas do grupo. ''Quando era amadora, a nossa companhia só tinha mulheres. Com a profissionalização, por um tempo virou clube do bolinha e ficou conhecida, inclusive, pela virilidade. Mas esse perfil mudou'', diz Mário. Um fator que contribuiu para a mudança foi a entrada de Rosa Antuña, que trouxe outro olhar. ''A presença das mulheres faz um balanço de forças'', reconhece o coreógrafo.

Ao longo de sua carreira, Mário Nascimento se dedicou tanto à dança quanto às lutas. ''Na época em que aprendia balé clássico, treinava boxe'', lembra. O coreógrafo também pratica kung fu e capoeira. O interesse por lutas marciais fez com que aumentasse o fascínio de Mário pelas icamiabas. ''Fortes, elas dominavam o uso de armas de guerra como a lança e o arco e flecha'', afirma.

Mário Nascimento conviveu com mulheres fortes toda a sua vida. A mãe adotiva, Odilza, era a matriarca da família de sete filhos. A primeira professora de balé dele foi Toshie Kobayashi. Cercado de referências femininas, sempre esteve atento à ideia de igualdade de gênero. Apesar de tudo, reconhece que é difícil não ser afetado pela sociedade machista. Todos os homens precisam fazer o exercício de rever os lugares que ocupam, defende. ''O homem não perde com isso. Todos nós ganhamos.''

MACHISMO Mário Nascimento e Rosa Antuña acreditam que homens e mulheres devem trabalhar juntos para superar os males causados pelo machismo. ''Ele trouxe a temática das icamiabas e a pesquisamos junto com as meninas. Mário traz a coreografia de fora para dentro, nós a recriamos de dentro para fora'', explica Rosa. ''Gostamos muito de luta, de força. Até porque, quem não gosta não fica na companhia. Foi muito rica a conexão entre lutas e os movimentos trazidos para o corpo feminino'', diz.

O espetáculo da Cia. Mário Nascimento estreia no momento em que a Amazônia está no centro do debate político. ''A floresta é feminina. As mulheres estão à frente da preservação da Amazônia. Sônia Guajajara diz que não devemos defender a natureza como se fosse algo externo. Nós somos a natureza'', reforça Rosa. Ela se refere à coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil, que subiu ao palco do Rock in Rio, no domingo passado, a convite da cantora americana Alicia Keys.

Para Mário Nascimento, Espelho da Lua é também uma resposta ao avanço do conservadorismo e aos ataques aos direitos das mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT).

ESPELHO DA LUA
Com Cia. Mário Nascimento. Sábado (23/9) às 20h. Teatro Bradesco. Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. Ingressos: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada). Informações: (31) 3516-1360

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