FLI-BH comprova o vigor da literatura produzida por mulheres

Evento encerrado neste domingo, 17, teve intensa participação de mulheres, que representaram 60% dos convidados

por Mariana Peixoto 18/09/2017 09:10
Gladyston Rodrigues/EM/D.APRESS
Vencedora de vários prêmios, Maria Valéria Rezende ironiza o machismo da imprensa e dos meios literários brasileiros. (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.APRESS)

''Veterana, freira e escritora juvenil''. Ao receber, em dezembro de 2015, o principal prêmio literário do país, o Jabuti de melhor livro de ficção do ano, Maria Valéria Rezende ganhou essas três denominações da imprensa. Invariavelmente, as manchetes traziam como complemento: ''desbanca Chico Buarque e Cristovão Tezza''. O nome dela e o título do romance vencedor, Quarenta dias (Alfaguara), só vinham a posteriori.

 

''Veterana por quê? Eu e o Chico somos mais ou menos da mesma idade. Escritora juvenil? Nem foram ao Google olhar. Já havia ganhado os Jabutis de livro infantil (No risco do caracol, em 2009, segundo colocado na categoria) e juvenil (Ouro dentro da cabeça, em 2013, terceiro melhor), mas o meu primeiro livro (o romance adulto Vasto mundo) é de 2001. E as manchetes só citavam os dois, quando havia outras mulheres ótimas na final. O que (os jornais) queriam dizer é que quem deveria ter ganhado era um deles, e veio esta velhota anônima'', relembra a bem-humorada Maria Valéria.


Aos 75 anos (estreou na literatura aos 60), a escritora paulista se considera, mesmo, uma educadora, pois dedicou a vida a projetos de educação popular. Mas não há como negar: os prêmios lançaram luz sobre sua obra. Este ano, ela conquistou o Casa de Las Américas, na categoria literatura brasileira, com Outros cantos.


''Quem ganha prêmio começa a ser convidada para eventos literários'', comenta ela, que até bem pouco atrás via na participação feminina ''não mais do que 10% de cota''. Convidada para o Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH), encerrado neste domingo, 17, Maria Valéria se impressionou com a intensa participação de mulheres, 60% dos convidados do evento.


Elas estavam em todos os espaços: mesas de debates, lançamentos de livros, bancas de editoras independentes. ''Mulher negra, sei como é. É difícil ocupar um espaço como este aqui'', afirmou a poeta-slammer Nívea Sabino, de Nova Lima, durante o evento ''Poesia e música na periferia: A voz dos saraus''.


Slams são encontros de poesia falada, geralmente competições – batalhas de versos. Uma das precursoras da atividade em Minas – ''quando comecei, em 2014, era a única mulher participante'' –, Nívea emocionou a plateia ao lado das norte-americanas Crystal Valentine e Porsha Olayiwola (essa última, campeã mundial da modalidade).


De microfone nas mãos, cada uma delas impactou a plateia, predominantemente feminina. O racismo foi o principal tema dos versos. Nívea falou do abismo social brasileiro, enquanto as rimas de Porsha remetem ao fato de 70% dos negros dos EUA não saberem nadar. ''Na época da escravidão, nadar era liberdade. Como manter a cabeça fora d’água se não sabemos nadar?'', afirmou.

ENCONTRO ''Sob a perspectiva do editor, a presença feminina tem crescido muito em eventos literários'', afirma Iris Amâncio, uma das fundadoras da belo-horizontina Nandyala, editora, livraria e instituto dedicados à obra de autores africanos e da diáspora negra.


Criada em 2006 e com 120 títulos publicados, é uma das quatro empresas brasileiras que trabalham temáticas negras. ''Das quatro editoras que as comandam, três são mulheres'', informa Iris.


A Nandyala tem uma linha clara: ''Somos antirracistas, anti-homofóbicos e antimachistas. Nossas publicações respondem a questões sociais e nosso público é muito específico. Tanto que escolhemos as livrarias onde queremos estar'', diz Iris. O vigor das ações afirmativas fez com que o público crescesse. ''É uma das razões pelas quais continuamos de portas abertas. Vendemos mais hoje, durante a crise, do que há dois anos'', garante.


Boa parte das autoras brasileiras é publicada por editoras pequenas. ''Tanto por isso, não sabemos quantas escritoras existem no Brasil'', afirma Maria Valéria Rezende. Em 2016, na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ela e várias colegas iniciaram a articulação nacional do Mulherio das Letras.


''Abrimos um grupo fechado no Facebook para uma adicionar a outra. Na primeira conversa em Paraty, imaginamos, de maneira otimista, que seríamos umas 500 integrantes. No primeiro mês, chegamos a 5,6 mil mulheres'', conta Maria Valéria. Deu tão certo que de 12 a 15 de outubro, em João Pessoa (onde a escritora paulista vive há 45 anos), será realizado o primeiro encontro nacional Mulherio das Letras.

 

MAIS JOVENS, MENOS GENTE A forte presença feminina veio ao encontro do tema do FLI-BH, ''Vozes de todos os cantos''. Em sua segunda edição, o evento bienal, realizado pela Fundação Municipal de Cultura, atraiu 30 mil pessoas ao Centro de Referência da Juventude (CRJ), na Praça da Estação. Em 2015, o festival levou 50 mil ao Parque Municipal. Nas bancas da Primavera Literária, feira que reuniu 49 editoras independentes no CRJ, o movimento variou. Na quinta e sexta-feira, a venda foi melhor do que no fim de semana, pois 5 mil alunos da rede estadual visitaram o FLI-BH. Cada um recebeu vale de R$ 20 para gastar lá.


A Aleph, editora paulista especializada em ficção científica, esgotou 11 dos 19 títulos da saga Star Wars (cada título tinha cerca de 20 exemplares). Vendidos a R$ 20, os exemplares desapareceram na banca. A paulista Estação Liberdade, dedicada à literatura japonesa, teve movimento ''muito fraco'', de acordo com o funcionário Cláudio Caetano. ''Isso ocorreu por causa do local, porque outros eventos aconteceram ao mesmo tempo e também devido à especificidade de nossos títulos'', analisou. Uma pena. A editora também publica no Brasil autores da Coreia do Sul, China e Afeganistão.


''A programação das duas edições foi muito semelhante. Só que a mudança no espaço, além do recorte conceitual, fez com que este FLI tivesse a presença de pessoas de várias regiões da cidade. O alcance da juventude foi impressionante. A primeira edição teve um público jovem, mas desta vez percebemos um fluxo grande de pessoas com uma condição econômica menos favorecida'', comenta Fabíola Farias, coordenadora geral do evento. Outro ponto positivo foi o crescimento da procura por oficinas, conclui.

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