Palácio das Artes inaugura hoje quatro exposições no programa Arteminas

Iconoclasta e rebelde, Pedro Moraleida ganha ampla mostra de seus trabalhos em BH. Projeto da Fundação Clóvis Salgado reúne também obras de Marta Neves, Randolpho Lamonier e Desali

por Pablo Pires Fernandes 01/09/2017 08:00
Daniel Coury/divulgação
Pintura de Pedro Moraleida exposta na Galeria Alberto Veiga Guignard (foto: Daniel Coury/divulgação)

O Palácio das Artes inaugura hoje quatro exposições no programa Arteminas, que busca valorizar a produção do estado. A terceira edição do projeto traz quatro nomes que se destacam pelo vigor e radicalidade de seus trabalhos, com um elemento em comum: a iconoclastia. Mesmo se servindo de procedimentos e linguagens distintas, Pedro Moraleida (1977-1999), Marta Neves, Randolpho Lamonier e Desali questionam o status da obra de arte e refletem sobre a própria representação.

A obra de Moraleida ocupa a Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard. Faça você mesmo sua Capela Sistina traduz a visão de mundo e a proposta estética do artista. Embora inconcluso, devido à sua morte precoce aos 22 anos, o projeto de instalação traz os principais elementos de seu trabalho: rebeldia; contestação do sistema de arte e do papel político do artista; a dualidade entre sexo e religião; a morte e a forte presença da mitologia – da Antiguidade clássica aos ícones da cultura pop dos quadrinhos.

Moraleida produziu compulsivamente. Deixou uma obra impressionante: 1.450 desenhos, 450 pinturas em diversos suportes e cerca de 120 vinhetas musicais. A exposição exibe boa parte desses trabalhos, buscando reconstruir o projeto de instalação concebido pelo artista.

Luiz Bernardes, pai de Moraleida e curador do acervo, explica que Pedro fez um trabalho na contramão das tendências da época, pois acreditava que a pintura havia morrido e a arte se tornara incipiente por não se manifestar diante dos conflitos humanos e sociais. Por outro lado, o trabalho reflete criticamente a sociedade contemporânea, consumista, hedonista e ególatra.

Para se expressar, Moraleida desenhava, pintava e escrevia sobre todas as matérias que encontrava à sua frente. Papéis – muitos papéis –, papelões, madeiras, metais e tecidos serviram de suporte para dar vazão à visceralidade singular do artista, que acumula imagens e conceitos de maneira bruta e até agressiva.

Embora aparentemente caótica, a visão de mundo de Moraleida se ordenava numa cosmogonia em que Mickey Mouse, animais, santos e órgãos sexuais ocupam a mesma imagem, com referências filosóficas que vão de Heráclito e Nietzsche a Deleuze e Freud.

PANO DE PRATO

Em À boca pequena, naturalmente, na Galeria Arlinda Correia, Marta Neves mostra cerca de 30 trabalhos a partir de vários suportes – bordados, vídeos, faixas de rua e até pinturas sobre pano de prato –, apresentando um olhar particular sobre o dia a dia. Trata-se de uma espécie de “apropriação da apropriação”, que remete a produtos vendidos em lojinhas populares.

Na Galeria Genesco Murta, o público pode conferir 130 trabalhos de Randolpho Lamonier. A diversidade de linguagens marca Vigília: fotografia, pintura, monotipia, vídeo e tecelagem. O projeto está ligado ao universo cotidiano de Contagem, onde o artista mora. Sua narrativa destaca aspectos vivenciados nas periferias, como violência policial, a luta por moradia e por trabalho, além do cotidiano das famílias. Peças da série Crônicas de retalho (tapeçaria) foram premiadas na Bienal Naïfs do Brasil em 2016.

Em Vulgo. Lembra-se da grande mesa de jantar, em cartaz na Galeria Mari’Stella Tristão, Desali investiga memória e passado. Inspirou-se naquilo que, criança, vivenciou em Contagem e em sua vida adulta. Para tal, o autor ressignifica de pequenos objetos a material considerado lixo.

PEDRO MORALEIDA, MARTA NEVES, DESALI E RANDOLPHO LAMONIER

Galerias do Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. De terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h, e domingo, das 16h às 21h30. Até 19 de novembro.


Depoimento

Camila Bechelany
curadora-assistente do Museu de Arte de São Paulo

“Sobretudo, falar da obra do Moral (apelido de Pedro Moraleida), meu amigo que quando eu tinha 15 anos me mostrou pela primeira vez um filme de Fellini, uma reprodução de Brueghel, além de me introduzir no universo musical que foi o início da minha formação estética, é falar de intensidade e de urgência. Tudo no Moral era intenso, ele fumava intensamente, amava intensamente, desenhava e pintava intensamente... Havia uma urgência em tudo, o que é evidente nas obras. As pinturas e os desenhos conviviam com ele na casa e qualquer papel, papelão, livro, etc. podia ser suporte. Não é raro acharmos nos desenhos manchas de café, traços das pegadas da Clarisse, sua cadela, e rascunhos de textos, porque arte fazia parte da vida no sentido mais literal.”

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