Poeta e cronista Fabrício Carpinejar escreve sobre a paternidade em texto especial para o EM

13/08/2017 09:34
Pai, paizinho  

Por Fabrício Carpinejar

Arrumar um final de semana entre o horário da janta e a hora de deitar.


Roncar para a criança não dormir no quarto dos pais.

Emocionar-se com o filho imitando os seus gestos.

Ocupar a memória inteira do celular com vídeos caseiros.

Voltar ao cinema mudo durante o sexo com a mulher.

Viajar e ler letreiros em voz alta.

Lelis/Arte EM/D.A Press
(foto: Lelis/Arte EM/D.A Press )

Reaprender a rezar ao explicar o que é Deus.

Não fugir da pergunta por não encontrar a resposta.

Ser a resposta de qualquer pergunta.

Ceder a janela do avião.

Colecionar figurinhas com a desculpa de que são para o filho.

Vingar a infância e fazê-lo pular a roleta do ônibus.

Não ter mais troco, muito menos moedas.

Jogar videogame até tarde.

Acompanhar o avanço do peso do filho ao carregá-lo no colo.

Acompanhar o avanço da idade ao carregá-lo no colo.

Não ter preguiça para acordar cedo.

Ser a sua escada por dentro da casa.

Cheirar seus cabelos nos travesseiros.

Exagerar numa mentira para ser descoberto.

Criar segredos só para mostrar que eles são diferentes do resto das palavras: acontecem sussurrados nos ouvidos.

Colocar foto do filho como proteção de tela.

Espalhar porta-retratos pelo escritório.

Escutar dos outros: “O filho é a sua cara”. Não disfarçar o orgulho.

Esconder-se em lugar visível.

Esperá-lo dormir para beijar as suas bochechas sem resistência.

Ganhar a ternura das mulheres ao passear sozinho com a criança.

Comer verdura (esconder a careta) e dar o exemplo.

Acalmar os pesadelos com "passou, passou".

Perder o nojo depois de trocar as fraldas.

Inventar o jogo do contra diante da teimosia: falar não quando sim, sim quando não.

Contar histórias sem pé nem cabeça porque não consegue terminar.

Olhar para trás quando o deixa na escola.

Olhar para a frente quando o impulsiona na bicicleta.

Perceber que os casacos são também mãos, pois o filho vive puxando as mangas para pedir presentes.

Dizer que é a última colher sabendo que faltam muitas.

Recolher os brinquedos pela sala e brincar mais um pouquinho.

Improvisar cabana ao arrumar os lençóis.

Transformar a agenda num diário com as descobertas da criança.

Trocar palavrões por siglas.

Substituir o marcador de página pelos papeizinhos com "eu te amo".

Recuperar a fé e a esperança no próprio silêncio.

Aprender a conversar por sinais quando está ao telefone.

Melhorar a letra para dar o exemplo.

Corrigir a formação ao ajudá-lo nos deveres da escola.

Passar a autoria dos presentes ao Papai Noel e coelho da Páscoa.

Virar desenhos coloridos.

Ficar com vontade de telefonar para o pai no meio da noite porque finalmente entendeu o que é ser pai.\


Fabrício Carpinejar é poeta e cronista, pai de Vicente e Mariana

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