Pioneira do jornalismo brasileiro assina biografias de mulheres que fizeram história no país

Ana Arruda também prepara novo livro de crônicas escritas pelo marido, Antonio Callado

por Mariana Peixoto 09/07/2017 11:24

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Primeira chefe de reportagem de um jornal brasileiro, Ana Arruda Callado enfrentou machismo nas redações (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Em 1971, já consagrado como romancista com Quarup (1967), Antonio Callado (1917-1997) publicou Bar Don Juan. O novo livro lhe garantiu alguma dor de cabeça. Na narrativa, o jornalista e escritor refletia sobre a incapacidade das esquerdas em enfrentar o endurecimento da ditadura militar no Brasil.

Na época, Ana Arruda era uma jornalista de prestígio no Rio de Janeiro. Primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de reportagem em um jornal brasileiro (Diário Carioca, entre 1964 e 1965), ela foi às lágrimas com o romance de Callado, com quem tinha relacionamento apenas social.
“Encontrei um amigo comum e falei o quanto Bar Don Juan tinha me emocionado. Esse amigo falou que eu tinha de ligar para o Callado, que estava chateadíssimo. Os amigos ficaram furiosos, dizendo que ele havia dedado a esquerda. Falei que as pessoas estavam loucas, o livro era perfeito. E a esquerda era festiva mesmo, pois falava, falava, mas não fazia nada de concreto”, relembra.

Ana tomou coragem e ligou para Callado. Ele ficou encantado, “pois havia levado tanta paulada por causa do livro”, conta a jornalista. Não demorou a convidá-la para jantar. O local escolhido foi o Álvaro’s, no Leblon, um restaurante sóbrio em atividade até hoje na Rua Ataulfo de Paiva. “Começamos a conversar e nunca mais paramos”, diz Ana, que desde 1977 assina Arruda Callado.

A jornalista e escritora veio a BH na última semana como convidada da Universidade Livre. No programa realizado na Academia Mineira de Letras, ela participou da palestra “Antonio Callado, um escritor que amava seu país”. No ano do centenário de nascimento do intelectual, uma programação intensa relembra sua vida e obra.
Douglas Ferreira da Silva/O Cruzeiro/EM
Antonio Callado escreveu peças radiofônicas para a BBC, redescobertas agora (foto: Douglas Ferreira da Silva/O Cruzeiro/EM)

Alguns dos projetos em andamento têm a participação da própria Ana. Ela é a organizadora de O país que não teve infância – As sacadas de Antonio Callado (Autêntica Editora), que chega às lojas neste mês. O livro reúne uma seleção das crônicas políticas que Callado escreveu entre 1978 e 1982 na revista IstoÉ.

Na apresentação da obra, Ana se lembra do tom “pouco esperançoso” das crônicas daquele período. Acredita que se o marido estivesse vivo, sentiria a mesma desesperança pelo país. “Na última entrevista que deu, no final de 1996 (Callado morreu em 28 de janeiro de 1997, dois dias depois de completar 80 anos), ele sentia a mesma coisa. Nós nos sacrificamos, sofremos pensando num país melhor. E olhe o momento terrível em que estamos”, observa.

FILME


A cineasta Emília Silveira, que dirigiu os documentários Setenta e Galeria F, ambos sobre a ditadura, prepara um filme sobre Callado. Ana participa do projeto com entrevistas e empréstimo de material.

Há um outro projeto em curso. Durante sua pesquisa para doutorado pela Universidade de Oxford, Daniel Mandur Thomaz descobriu, nos arquivos da BBC, peças de teatro escritas por Callado que foram transmitidas por rádio durante a Segunda Guerra Mundial – naquele período, ele viveu em Londres, trabalhando como redator e tradutor da emissora britânica.

A descoberta de Thomaz – que defende no ano que vem uma tese sobre os textos do brasileiro para a BBC – surpreendeu a própria Ana. “O Callado nunca tinha me dito que havia feito peças radiofônicas. Há, inclusive, uma muito engraçada, sobre um inglês ouvindo as explicações de uma carioca sobre os personagens históricos brasileiros que desfilam numa escola de samba”, conta ela, que participou, em Oxford, de seminário sobre o marido organizado por Thomaz. A intenção é reunir os escritos também num livro.

CASAMENTO


Do jantar no Álvaro’s até a morte de Callado, Ana viveu com o jornalista e escritor por 26 anos. “Seis anos com cada um em sua casa, até juntarmos os trapos e nos casarmos no cartório, em 1977”, conta ela. Antes de Ana, Callado foi casado com a inglesa Jean Maxine Watson, funcionária da BBC que ele conheceu quando trabalhava em Londres. Tiveram três filhos.

“Acho uma hipocrisia dizerem que o Callado foi casado com Jean até a morte dela, em 1973. Não é verdade. Quando ela morreu, os dois estavam separadérrimos, só que não se divorciaram. Ela, inclusive, morava na Inglaterra”, comenta Ana. Carioca de família pernambucana, Ana Arruda chegou ao Rio aos 7 anos, com os pais e os 14 irmãos. O pai, funcionário do Ministério da Agricultura, foi transferido do Recife. Viveram numa casa dentro do Jardim Botânico.

Ana foi uma das poucas mulheres a entrar no curso de jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia em 1955. Foi também uma das primeiras a trabalhar na redação do Jornal do Brasil. Na época em que se formou, o diário passava por sua reforma mais importante, que se tornou referência para o jornalismo brasileiro.

Ela se encontrou com o amigo Cícero Sandroni – hoje integrante da Academia Brasileira de Letras –, que lhe sugeriu tentar uma vaga no JB. Chegou à redação e foi procurar Wilson Figueiredo, o chefe de reportagem. “Disse para ele: ‘Meu nome é Ana Arruda e quero trabalhar aqui.’ Ele ficou espantado, pediu um momentinho, conversou com o redator-chefe e me disse: ‘Segunda-feira você começa’.”

Ana era a única mulher que fazia reportagem de rua no JB. “Tinha 20 anos. Atravessava a redação de cabeça baixa, pois sentia que havia 20 pares de olhos em mim. Era toda pudica, tinha formação católica.” E foi essa formação que lhe abriu portas. Sua primeira grande cobertura foi da Semana Santa. “Como sabia o que era arcebispo, lava-pés, cobri a Semana Santa muito bem. Virei a queridinha da condessa Pereira Carneiro”, conta, referindo-se à diretora-presidente do JB.

GREVE

 

Deixou o diário demitida, em 1962, por ter participado de uma greve de jornalistas. Virou repórter de economia na Tribuna da Imprensa. “O pessoal só pensava em ir para a rua. Inaugurei a reportagem de pesquisa. Pesquisei durante um mês, na Câmara dos Deputados, a reforma agrária. Descobri nos arquivos todos os projetos que foram apresentados desde a época do Império, todos rejeitados.

Ela passou por outras redações – Diário Carioca, como chefe de reportagem; O Sol, chefe de redação; e Jornal de Vanguarda, secretária de redação. Voltou ao JB no início da década de 1970, para editar o suplemento infantil.Ana trabalhou em redações “até se cansar”. Virou professora universitária, mas nunca deixou de escrever. “Depois de trabalhar duro todos os dias, vi que uma biografia nada mais é do que uma grande reportagem”, conta. Escreveu uma série delas.

Suas biografadas foram a poeta Adalgisa Nery, a artista plástica Maria Martins, a escritora e militante feminista Jenny Pimentel de Barba e a ex-primeira dama Darcy Vargas. Todas mulheres de personalidade forte, que escreveram, cada uma a seu modo, sua própria história. Assim como Ana Arruda Callado.

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