Exposição na Galeria Mama/Cadela questiona a produção da arte

Mostra 'Ninguém me dirá quem sou nem saberá quem fui', que será inaugurada nesta quinta, 22, reúne obras de sete artistas

por Márcia Maria Cruz 21/06/2017 08:00

Mama/Cadela/Divulgação
'Manta', díptico de fotografia de Julia Baumfeld, faz referência à própria identidade e às relações de afeto (foto: Mama/Cadela/Divulgação)
Um filme em película encontrado no canteiro central da Avenida Rebouças, os achados numa casa em demolição em Belo Horizonte, os objetos da avó falecida são alguns dos materiais garimpados por grupo de jovens artistas que participam da exposição Ninguém me dirá quem sou nem saberá quem fui. Na coletiva, exploram temas relativos à identidade, ao esquecimento e à perda. Com abertura amanhã, 22, na Galeria Mama/Cadela, no Bairro Horto, os trabalhos podem ser vistos até 7 de julho, data em que será realizado bate-papo com os artistas. A exposição conta com a colaboração de Eduardo de Jesus, que assina o texto de apresentação da mostra. Participam os artistas Dayane Tropicaos, Desali, Francisco Pereira, Julia Baumfeld, Randolpho Lamonier, Sara Não Tem Nome e Victor Galvão.

A exposição reúne trabalhos de jovens artistas com idades entre 23 e 30 anos que costumam dividir os dilemas sobre os processos criativos e influenciam-se mutuamente. “Entre os artistas, o Desali é que mais circula no cenário cultural”, pontua Randolpho Lamonier. O grupo optou por não ter uma instância formal de curadoria e a escolha dos trabalhos foi realizada de forma coletiva. Apesar de os artistas dialogarem e ser referenciarem um no trabalho do outro, eles destacam que não se trata de um coletivo. “Foi algo bem horizontal. Trabalhamos juntos, mas não somos um coletivo. A exposição conta com trabalhos que já existiam e outros inéditos, feitos a partir da provocação proposta pela Mama/Cadela”, afirma o artista.

Randolpho Lamonier apresenta dois trabalhos. Em RL ultimate index, brinca com a ideia de criar um índex final dele próprio. “A quem interessa esse índex? O trabalho traz uma tensão. Numa ponta, uma aparente pretensão de um índex que leva o meu nome. Na outra ponta, o trabalho é entregue à esfera pública.” Na instalação, Randolpho trabalha com 24 imagens que evidenciam a tensão entre o público e privado.

Mama/Cadela/Divulgação
Desali confere outros sentidos a objetos do cotidiano (foto: Mama/Cadela/Divulgação)
O outro trabalho, Aviso, será exposto na área externa da galeria e é uma espécie de alerta às pessoas do que vão encontrar. Trata-se de uma instalação escultória em que Randolpho trabalha com letras de meio metro de altura feitas com tecido e preenchidas com espuma. O trabalho é referência ao universo familiar do artista, cuja mãe atuou como costureira por 40 anos. A avó também se dedicou ao mesmo ofício. “Trabalho há algum tempo com material têxtil”, diz o artista, que escreve a frase: “Quem olhar nos olhos do abismo vai ver que o infinito não tem volta”, adianta. “É mesmo um aviso sobre os trabalhos da exposição que são densos, tratam de assuntos complexos e íntimos.”

Os artistas trabalham com materiais que não são nobres. Randolpho, por exemplo, usa tecidos encontrados no ateliê da mãe e peças do próprio vestuário. A ideia para o trabalho surgiu a partir da reflexão sobre a dificuldade dos artistas produzirem num momento de crise. “Veio de um pensamento absurdo. Com a crise, como os artistas podem executar os trabalhos? Às vezes, têm que arrancar a própria roupa do corpo. Como o meu gesto criativo é muito direto, pensei: porque não trabalhar com a roupa do corpo. Comecei a trabalhar com o mínimo possível”, diz.

 

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Rodolpho Lamonier brinca com limites entre público e privado (foto: Mama/Cadela/Divulgação)
Víctor Galvão avalia que os artistas trabalham com a estética da precariedade e com a apropriação de imagens já existentes. O artista apresenta três trabalhos: Inventário, instalação feita com objetos encontrados numa casa em demolição em Belo Horizonte; Dispersão, vídeo feito a partir de um curta-metragem filmado em película que o artista encontrou no canteiro central da Avenida Rebouças, em São Paulo; e Smokers die younger, em que trabalha com fotografias de maços de cigarro. “Os três trabalhos partem de imagens que não produzi. O que perpassa de comum em todos os trabalhos é a minha leitura. A exposição desapega da preciosidade do objeto artístico em termos de materialidade. É tudo banal.”

Outro ponto em comum é a discussão sobre a identidade pessoal e do artista. “Encontramos no meio da pesquisa a questão da identidade de forma recorrente. Então, resolvemos seguir por esse caminho”, afirma Randolpho. O artista destaca que o nome da exposição é parte de poema de Fernando Pessoa do Livro do desassossego. “Os versos, neste cenário cultural e político do Brasil, significam muito. Abrem a possibilidade de identificação. Não sei qual é a minha identidade, mas não é o outro quem vai me dizer.”

A artista Sara Não Tem Nome também apresenta três trabalhos: em fotografia, Ego buraco negro; as caixas de objetos intituladas Angústia; e o vídeo Grandmother I love you soul. Os trabalhos passam por questões íntimas. A relação dos jovens artistas com a arte contemporânea se dá de maneira crítica a certas lógicas internas do mercado de arte. Ao adotar o nome Sara Não Tem Nome, ela questiona o peso que os sobrenomes têm para abrir e fechar portas no mundo da arte.

Três perguntas para...

Sara não tem nome
ARTISTA

Por que você adota a denominação Sara Não Tem Nome?

Quando me aproximei do universo da arte, me deparei com várias situações em que havia a imposição do sobrenome e da família de que você vem. A arte ainda é uma área muito elitizada e as pessoas têm dificuldade de se aproximar. Isso me incomodou muito. A família à qual você pertence define o circuito, quais portas vão se abrir ou fechar. Não queria isso.

Como nasce a ideia da exposição Ninguém me dirá quem sou nem saberá quem fui?
A exposição nasceu do nosso desejo de se aproximar por causa de nossos contatos afetivos. Os trabalhos também perpassam questões parecidas. Às vezes, os trabalhos se misturavam de modo que era difícil saber o que era de um e o que era de outro. No contexto da arte contemporânea, às vezes, o contato se dá de maneira mais fria. Não tem uma troca mais íntima.

Vocês questionam a própria ideia de curadoria. Como é definir uma exposição de maneira horizontal?
É uma exposição independente, que não conta com apoio de leis de incentivo. Participamos de todo o processo, desde o desenho da exposição, que não tem curadoria, até a divulgação. Nós mesmos pensamos. Temos um texto do Eduardo de Jesus, mas é bem poético de maneira que ele também se coloca como artista. Não queríamos um processo enrijecido. Propomos discussões complicadas do ponto de vista do debate na sociedade, como a questão da sexualidade, da identidade, da relação da vida com a morte. A exposição mostra quem nós somos em relação ao mundo e ao circuito artístico. Trabalhamos com objetos de restos, rastros de coisas que já foram.

Ninguém me dirá quem sou nem saberá quem fui
Exposição coletiva. Abertura amanhã, 22/06, às 9h. Visitação às sextas e aos sábados, das 14h às 22h, na Mama/Cadela (Rua Pouso Alegre, 2.048, Horto). Entrada franca.

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