Parlapatões apresentam neste domingo em BH seu novo espetáculo de palhaços

'Os mequetrefe' recorre ao nonsense para contar como quatro trabalhadores enfrentam dificuldades de um dia comum

por Silvana Arantes 18/06/2017 10:05

LUIZ DORONETO/DIVULGAÇÃO
Alexandre Bamba, Fabek Capreri, Hugo Possolo e Raul Barretto em Os mequetrefe, que tem sessão única e gratuita no Sesc Palladium (foto: LUIZ DORONETO/DIVULGAÇÃO)

O cenário de Os mequetrefe consiste em apenas duas escadas. Alguns barris são os objetos usados em cena pelos Parlapatões em seu mais recente espetáculo, que tem sessão única – e gratuita – hoje em Belo Horizonte, como parte da programação do Palco Giratório, no Sesc Palladium.

A economia de meios não é espelho de uma ação enxuta. Ao contrário. Uma infinidade de situações e imprevistos povoam a rotina dos Dias – os quatro personagens vistos em cena, numa jornada típica de trabalho. O dia é típico, mas os Dias, não. O quarteto veste a figura do palhaço, na primeira aproximação da montagem com a ideia que a originou, a saber, um mergulho no universo do britânico Edward Lear (1812-1888), expoente do nonsense.

A outra inspiração, como conta Hugo Possolo, o Parlapatão que assina o roteiro dessa montagem, foi “o poema de Mário Quintana que descreve um trem percorrendo vales e montanhas e, no fim, você entende que é uma criança brincando com uma latinha velha”.

Ao se voltar para o nonsense e “brincar com o não sentido das coisas”, os Parlapatões permaneceram fiéis ao que Possolo enxerga como sendo a essência do humor, “que é desconstruir a realidade”, mas desta vez convidando o espectador “a mudar seu ângulo de percepção sobre a realidade a partir do absurdo”.

O tumultuado momento político brasileiro não é diretamente abordado pelos mequetrefes, embora os Parlapatões tenham sua trajetória associada a um sentido crítico agudo sobre os problemas humanos, aí incluídos os especificamente brasileiros. “No caso desse espetáculo, a gente não teve muito uma preocupação nesse sentido, mas ele transpira de um jeito ou de outro”, diz Possolo.

SILÊNCIO O artista avalia que o país atravessa atualmente “uma dificuldade que é a falta de projeto e pensamento”, em parte decorrente do fato de que “o período democrático trouxe o silêncio dos intelectuais”. O resultado é que “a gente está pobre de espírito como país”, afirma.
Embora não se furte a agir de acordo com as ideias da “pessoa com uma visão anticapitalista, universalista, anárquica” que é, Possolo tem conseguido se manter imune ao tiroteio ideológico que transborda da política para as demais esferas do convívio.

Neste ano, ele voltou a exercer o cargo de curador da Virada Cultural paulistana, sem ter atraído por isso as mesmas críticas dirigidas à administração João Doria. “Fui curador na Virada anterior. Fui nesta. Minha preocupação não era essa ou aquela gestão, era uma preocupação artística, da minha relação com o circo e com a cidade”, diz ele.

Os Parlapatões estão entre os responsáveis pela revitalização do Centro de São Paulo, especificamente no corredor teatral em que se transformou a Praça Roosevelt. Possolo acredita que, “se você contextualiza bem (sua posição), as pessoas entendem”. Certamente não atrapalha o fato de ele procurar “evitar embate nas redes sociais”, das quais, aliás, prefere manter uma distância crítica. “Acho ‘curtir’ ou ‘não curtir’ muito raso para a dimensão humana.”

Interessados em parcerias artísticas, os Parlapatões convidaram Álvaro Assad, do Centro Teatral Etc. e Tal, do Rio de Janeiro, para dirigi-los na nova montagem. Com Assad, assim como com os mineiros do Galpão e do Armatrux, os Parlapatões estabeleceram “uma relação de amizade e afetividade construída na estrada”, o que faz Possolo valorizar ainda mais a ideia “do teatro de grupo, do qual o Galpão é um símbolo nacional”.

Com Os mequetrefe, o ator e roteirista acredita que o espectador vai “rir do dia a dia dele mesmo. Vai entender que ele é também um dos Dias”. Mas nem por isso sairá do teatro com um riso amargo. A montagem “deixa sempre uma ponta de esperança e termina com essa ideia de que a gente quer sempre brincar mais um pouquinho. Apesar de ter a noite pela frente, a gente pode sempre esticar mais”.

OS MEQUETREFE

De Hugo Possolo. Direção: Álvaro Assad. Com os Parlapatões (Alexandre Bamba, Fabek Capreri, Hugo Possolo, Raul Barretto).
Hoje, às 16h.
Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31)3271-8100.
Classificação: livre.
Entrada franca, com distribuição de ingressos a partir das 15h.

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