Inspirado por passeios de bike, fotógrafo revela outros ângulos da capital em livro

Sylvio Coutinho mostra uma Belo Horizonte surpreendente em seu novo livro, dedicado aos 120 anos da cidade

por Ângela Faria 05/06/2017 08:00
Fotos: Sylvio Coutinho/divulgação
Igreja Sagrado Coração de Jesus, na Avenida Alfredo Balena, Região Centro-Sul de BH (foto: Fotos: Sylvio Coutinho/divulgação )
BH 120, livro que o fotógrafo Sylvio Coutinho lança hoje, é um caleidoscópio de surpresas. Esqueça a velha Belo Horizonte dos cartões-postais, a tradicional vista aérea da Pampulha e aqueles registros já batidos da Praça da Liberdade. A cidade de Sylvio se revela intrigante, bela, pulsante e, de certa forma, desconhecida. Afinal de contas, que “mesquita” é essa, debaixo do céu azul de tirar o fôlego? A favela, de dar inveja aos brilhos vidrilhos do Mário de Andrade, fica aqui mesmo? Ainda está de pé o elegante edifício art decô que vigia o caos do Centrão? E as figuras coloridas, estranhas e poéticas que Dalata, Nilo Zack, Ed-Mun, Gud e Kobra grafitaram, desafiando a poluição?

Essa Belo Horizonte inusitada – com uma luz que é só dela – está aí para todo mundo ver. Mas é preciso procurá-la. O próprio fotógrafo só a descobriu quando passou a cruzar a cidade de bicicleta, entre fevereiro e setembro de 2016. Foi por acaso: Sylvio despencou de uma jabuticabeira, arrebentou o pé e ficou meses no hospital, sob ameaça de septicemia. Para recuperar a perna atrofiada, recomendaram-lhe andar de bike. Com a Nikon D-800 pendurada no pescoço, lá foi ele.

O artista pedalou até o alto da Serra do Curral, flagrou o capim-gordura à contraluz. Perseguiu raios de sol nos finais de madrugada. Ficou de “tocaia” às seis da manhã, no Parque Municipal, para flagrar o esplendor da cascatinha. Com calma, pôde reparar no diálogo entre céu, vidros e prédios – jogos de luzes e sombras que parecem se multiplicar. Textos do jovem compositor Bernardo Maranhão acompanham as imagens. Um deles resume bem a jornada do fotógrafo. Diz assim: “O selim é meu divã”.

“De bike, sou o dono de BH”, afirma Sylvio Coutinho, de 58 anos, autor de vários livros e um dos fotógrafos mais atuantes do estado. Suas jornadas ciclísticas costumavam começar às 5h, prosseguiam até por volta das 11h, eram retomadas à tarde e varavam a noite. Foram muitas descobertas, que não se limitaram a luz, ângulos, enquadramentos e imagens. O fotógrafo se apaixonou por sua gente.

SOLIDARIEDADE No Centro, uma rede solidária é formada por idosos que acordam cedinho para ir à padaria, encanta-se Sylvio. São eles que alimentam os sem-teto que perambulam por ali e depois das 6h se abrigam no Parque Municipal, para poder dormir ao sol. “Descobri os aromas de BH, o cheiro do morador de rua. Perdi o preconceito, eles são meus companheiros”, diz.

Sair da “caixinha” – seja do estúdio, seja do carro, seja de casa – foi transformador. “A bike teve o poder de mudar a velocidade do meu olho”, resume. Defensor – e usuário – da ciclovia, ele luta para pôr fim às interrupções do seu traçado. Tem atazanado vereadores para resolver a questão. Sylvio diz que sua campanha “não passa de um quilômetro”.

De acordo com ele, falta construir poucos metros para ligar trechos interrompidos da ciclovia entre as ruas Fernandes Tourinho e Professor Morais; Rio de Janeiro e Padre Belchior; a região do Colégio Arnaldo e Avenida Carandaí/Parque Municipal/Avenida Andradas. O fotógrafo se tornou íntimo de buracos, de passeios arrebentados e demais entraves que dificultam a locomoção de cadeirantes e cegos.

Em seu livro, Sylvio nos entrega seus tesouros, como o pilotis do Edifício JK, cujas colunas revelam surpresas sobre o gênio de Niemeyer. O jogo de reflexos na igrejinha de São Francisco, na Pampulha, faz nuvens descerem à Terra. Detalhes de antigas construções de BH dialogam com intervenções do artista Marcelo Xavier, curador do projeto. É uma bela homenagem aos 120 anos da primeira capital projetada do Brasil.

Quem quiser viajar por essa cidade supreendente poderá fazê-lo de amanhã a 30 de julho, na Casa Fiat, onde estará em cartaz a exposição Sylvio Coutinho mostra Belo Horizonte. Além das fotos do livro, há gravuras, vídeos, maquetes e réplicas em 3D de monumentos históricos. Ações especiais contemplarão portadores de deficiências.

PRÊMIO Uma das salas exibirá as imagens do livro que o artista produziu em parceria com o Estado de Minas quando a capital completou 100 anos. Ângulos fechados e recortes de detalhes da cidade estimulavam a brincadeira “descubra onde fica”. O calendário de parede com essas fotos rendeu a Sylvio o Prêmio Fernando Pini, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf).

A programação da mostra inclui oficinas de fotografia experimental, atividades comandadas por Sylvio em parceria com a artista plástica Yara Tupynambá e projetos educativos, além de ateliê de arquitetura de papel inspirado nas construções da cidade.

BH 120
>> Sylvio Coutinho (fotos)
>> Bernardo Maranhão (textos)
>> Prodigital
>> R$ 200

SYLVIO COUTINHO MOSTRA BH
Fotografia. Casa Fiat de Cultura, Praça da Liberdade, 10, Funcionários. De amanhã a 30 de julho. O espaço funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca. Informações:
(31) 3289-8900 e www.casafiatcultura.com.br.
O livro BH 120 será lançado hoje, às 19h, durante a abertura da exposição.

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