Novo imortal, João Almino fala sobre a Academia Brasileira de Letras

Para ele, o autor deve ter compromisso com a linguagem e dialogar com o leitor; confira a entrevista

por Nahima Maciel 08/04/2017 08:00

Minervino Júnior/C.B./D.A. Press
(foto: Minervino Júnior/C.B./D.A. Press )
João Almino nasceu em Mossoró (RN) há 67 anos, mas aceita de bom grado a definição de escritor brasiliense. Afinal, foi no Planalto Central que nasceram seus romances – seis no total, todos situados na capital. Em 2003, ganhou o prêmio Casa de las Américas por As cinco estações do amor e, em 2011, ficou com o 7º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon por Cidade livre, uma história que se passa no cerrado antes mesmo da existência de Brasília. Agora, Almino chegou à Academia Brasileira de Letras (ABL). Foi eleito no mês passado para a cadeira 22, que pertencia a Ivo Pitanguy. A votação foi considerada unânime, com 30 dos 33 votos dos membros da academia e ocorreu alguns meses depois de o poeta Antônio Cícero não ter obtido votos suficientes para integrar a casa. Diplomata, formado em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e ex-aluno do filósofo francês Claude Leffort, com quem trabalhou, Almino, atualmente diretor da Agência Brasileira de Coperação (ABC), também é autor de livros de filosofia, política e sociologia – escreveu, a pedido do editor Caio Graco Prado, o livro Era uma vez uma constituinte, publicado em 1985 – e deu aulas de literatura brasileira e latino-americana nas universidades de Stanford e Berkeley, nos Estados Unidos. Abaixo, ele fala sobre a ABL e sobre a literatura brasileira.

Em novembro de 2016, após quatro escrutínios, os membros da ABL não chegaram a eleger ninguém para as duas cadeiras vagas. Sua eleição foi unânime. Foi uma surpresa?
É necessário que apresente a candidatura, então não é uma surpresa que alguém seja candidato. Foi a primeira vez que, formalmente, apresentei. Agora, é importante para quem apresenta saber se, de fato, é um bom momento. E senti que era um bom momento a partir da sinalização de alguns acadêmicos. Mas você nunca sabe. Há um ditado entre os acadêmicos de que as eleições são como nuvens que passam, um dia está de um jeito, no outro está de outro jeito.

Era uma coisa que você queria há muito tempo?
E pensei na academia há algum tempo, por volta de 2013, e agora achei que havia uma oportunidade. Para mim, não muda do ponto de vista do meu trabalho, mas não deixa de ser um estímulo e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade adicional em relação ao meu próprio trabalho e a uma instituição que, este ano, completa 120 anos. É uma instituição que tem uma longa história e um papel importante a desempenhar.

Qual o papel da ABL hoje na cultura brasileira?
Ela tem a vantagem de ser uma instituição completamente independente, por essa razão passa por governos sendo intocada e se mantém sozinha. É uma vantagem grande que dá muita liberdade para a instituição. Por outro lado, ela também não impõe nenhuma linha estética e política. E isso faz que, ao longo da história, tenha sido uma instituição muito diversificada, com tendências muito distintas. Quanto à contribuição para a cultura brasileira, depende de seus próprios membros. Cada um, com seu peso próprio, estará dando sua contribuição e a academia é um canal adicional para isso. Os acadêmicos se reúnem com frequência, as atas recolhem discussões internas ao longo de décadas, existem ciclos de conferência com um público fiel, organizados pelos próprios acadêmicos, com eles e convidados. Há um trabalho na área editorial e também de arquivo que é muito importante, porque a academia tem arquivos históricos que são de grande utilidade para historiadores da cultura e da literatura brasileiras.

A sua literatura não reflete tendência política, mas reflete um país e um momento do país…
A literatura deve refletir, sobretudo, as emoções dos personagens e abrir o leque ao momento presente quando é o presente que está sendo tratado. O escritor tem uma responsabilidade com a própria escrita e a própria linguagem para que aquilo possa ser lido com o tempo, para que não fique datado. Não que eu ache ser menos importante usar outros registros, mas eu, pessoalmente, acho, e já fiz isso, que quando há uma opinião a ser dada é melhor que seja dada de outra forma. Às vezes, um artigo de jornal é muito mais eficaz. Não é esse o papel da ficção, segundo o que penso. Assim como a ficção não deve servir ao propósito de demonstrar uma tese.

E como organizar isso? Como estar ciente disso enquanto autor?
Quando você está escrevendo ficção é porque você já esgotou aqueles outros campos em que tinha clareza absoluta de tudo. Você vai para o campo da ficção quando o que você está retratando é mais complexo. Tem a ver com natureza humana, os conflitos entre pessoas, as situações em que elas estão. E o que você está querendo não é provar nada nem fazer com que o leitor passe a concordar com você. O que você está querendo é que ele se aproxime mais de uma reflexão própria, que ele possa se engajar mais sobre as questões, que possa ter uma familiaridade maior com a complexidade das questões. Acho que esse é um pouco o papel da ficção. E como escritor, eu pessoalmente prefiro ter um cuidado de me situar nesse campo mais geral e assim dou uma atenção muito grande à linguagem. A linguagem pode ser inovadora, revolucionária, pode levantar questões profundas que permanecem e podem ser entendidas tanto pelo leitor contemporâneo quanto pelo que venha depois.

Voltando à realidade brasileira, isso pode ser um pouco frustrante num país onde se lê quatro livros, no máximo, por ano?
Claro que, quando você escreve, você tem a expectativa de ser lido. Mas confesso que, no momento mesmo de escrever, o mais importante para mim é exprimir algo que preciso e que julgo ser absolutamente necessário. Claro que, se ao fazer isso, souber que não serei lido por ninguém é muito frustrante. Mas, se eu acho que aquilo vai ter algum eco, fico sempre com esperança de que o texto fique por algum tempo, pelo menos. Não tenho a ilusão de que possa ficar para sempre. A palavra escrita tem essa capacidade de dialogar ao longo de um tempo que não se esgota, de dialogar, às vezes, com gerações diferentes.

Você acha que a literatura brasileira tem uma cara?
Acho que não, hoje em dia. Gosto de pensar que a literatura cria afinidades que não são necessariamente nacionais, que existem afinidades estéticas, de sensibilidades que ultrapassam as fronteiras nacionais. Agora, houve momentos em que houve uma cara da literatura latino-americana e da literatura brasileira. Pode ser dito que a literatura brasileira, no período da ditadura militar, teve uma cara porque teve que ser feita como uma literatura de denúncia. Em alguns casos, mais explícitos, em outros nem tanto.Quando se inicia o período de democratização, a partir, sobretudo, de 1985, a literatura precisa trabalhar muito através de sua forma e passa a se diversificar mais. Hoje não se pode dizer que existe uma cara.

Mas há tendências?
Tem várias tendências. Há autores que têm uma grande preocupação com a construção do livro, que trabalham com uma tradição literária que, ao mesmo tempo, vai às origens do romance ocidental mas atualizando isso com a forma, trabalhando muito a construção, a arquitetura do livro, os personagens e com uma preocupação formal. Há autores que fazem autoficção e isso pode ser feito com grande propriedade literária e, em outros casos, pode ser feito sem qualidade. O grande erro é achar que aquilo que, para você, é fundamental, aquilo que você viveu de maneira profunda, vai ser sentido da mesma forma pelo outro. Isso não acontece necessariamente. E o contrário pode ser verdadeiro.

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