Adriana Calcanhotto lança coletânea de poemas 'É agora como nunca', em BH

Obra reúne 41 autores brasileiros nascidos entre 1970 e 1990

por Ana Clara Brant 18/03/2017 09:39
 Leo Aversa/Divulgacao
(foto: Leo Aversa/Divulgacao)

A origem da palavra antologia é grega e significa coleção de flores. Ao longo do tempo, ela foi ganhando outras definições, como a reunião de trabalhos literários (musicais e até cinematográficos) agrupados por temática, autoria ou período e reunidos em um só volume. Foi pegando carona nesse conceito que a cantora, compositora e escritora Adriana Calcanhotto decidiu criar É agora como nunca – Antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira (Companhia das Letras), que será lançada hoje em Belo Horizonte.

“Esse projeto surgiu da minha curiosidade de ver os poetas reunidos. Acompanho o surgimento de novos poetas e adoro descobrir novas vozes e nomes desconhecidos. A produção tem sido muita e fiquei com vontade de ver o que acontecia reunindo essas poéticas”, disse Adriana, em entrevista por e-mail ao Estado de Minas. Recentemente, a artista foi nomeada embaixadora da Universidade de Coimbra, o mais antigo centro universitário do mundo em língua portuguesa, e permanecerá em Portugal neste primeiro semestre, como professora convidada.

Adriana quis dar um recorte à empreitada e selecionou 41 poetas nascidos no Brasil entre 1970 e 1990 para criar uma antologia “pessoal, intransferível, autoral, ou o contrário”. “Na verdade, selecionei mais poemas do que poetas. A parte difícil é o que fica de fora, dificuldade inerente a qualquer tipo de antologia ou compilação. Eleger poemas é muito divertido; adoro fazer isso. Eu me impus um prazo para ter que entregar ou estaria fazendo isso até hoje”, diz.

Os perfis selecionados são diversos. Alguns nomes já ganharam projeção e reconhecimento nacional, como Gregório Duvivier, Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Alice Sant’Anna, Fabricio Corsaletti, Marília Garcia e Bruna Beber. Há os que já têm a poesia como principal ofício, enquanto outros se dividem entre a literatura e atividades – artísticas ou não –, como é o caso de Luana Carvalho, Omar Salomão e Luca Argel.

“Nitidamente, são leitores de poesia e, como são muito jovens ainda, fazem muitas citações de outros poetas de diferentes gerações e estilos, à mitologia grega e aos poetas da própria geração, citam-se uns aos outros, leem-se entre si, isso é engraçado. Outro aspecto interessante é que esses autores não são muito reverentes à poesia, não fazem cerimônia, usam palavras que não parecem pertencer ao vocabulário poético, desmitificam, não estão atrás do sublime e têm preferência absoluta pelo verso livre”, analisa a organizadora.

Um aspecto que chama a atenção é a presença feminina, em pé de igualdade com os representantes masculinos. “A mim esse dado não espanta, embora haja gente que ache que ainda são poucas. As questões de gênero, cor, orientação sexual ou política não são importantes pra mim em relação aos poetas. O meu critério de escolha é a potência do poema escolhido. Não deixo um poema de fora da minha antologia porque o ou a poeta pensa diferente de mim”, ressalta Adriana.

É AGORA COMO NUNCA

Antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira
• Org: Adriana Calcanhotto
• Companhia das Letras
• 144 páginas
• R$ 34,90 e R$ 23,90 (e-book)
>> Lançamento hoje, das 11h30 às 15h, na Livraria Scriptum. Rua Fernandes Tourinho, 99, Funcionários

Mineiros avaliam a poesia no país

Os 41 poetas selecionados para a antologia É agora como nunca são de diferentes partes do Brasil. Alguns vivem no exterior. Quatro são de Belo Horizonte: Ana Martins Marques, Camila Nicácio, Leo Gonçalves e Simone de Andrade Neves.

Adriana Calcanhotto diz que, ao selecionar os autores, não se ateve à origem deles, mas à qualidade de seu trabalho. “As três poetas mineiras eu já conhecia e, de certa forma, acompanhava; Leo é que descobri e foi uma ótima surpresa. Para mim, é muito difícil pensar em termos de compartimentos e nem sei dizer a distribuição geográfica do livro, quantos são de onde. Não sei dizer, não sei identificar o que venha a ser poesia mineira, gaúcha ou paulista. Sei, sim, o que é poesia brasileira”, afirma.

Latente foi o poema selecionado de Simone de Andrade Neves. Para ela, a escolha de Adriana pode ter sido pelas referências ao mar e ao litoral utilizadas em seu poema como metáforas, recorrentes nas canções da compositora. “Escrevo desde a infância. Ler diariamente poemas dos mais variados poetas faz parte do meu cotidiano. Convivo com a definição de que os poetas vivem no mundo da lua ou são sensíveis em demasia. Desde cedo, tive que lidar com esse desconcerto. É comum na minha profissão, a advocacia, deparar com alguém surpreso por ‘estar diante de um poeta’ – lembrando o verso do Fabrício Corsaletti que está na antologia. Por isso, participar do livro representa muito para mim”, diz.

Camila Nicácio, professora-adjunta da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora convidada da Université Paris I – Panthéon Sorbonne, recebeu o convite com surpresa e alegria. “É sempre maravilhoso ser apreciado por quem a gente admira. Sem falar na oportunidade de divulgar meu trabalho e de estar ao lado de nomes tão inspiradores”, ressalta.

LIBERDADE

Os poemas Como continuar a ser a mesma pessoa e Sua boca cheirava a cebola foram os escolhidos por Camila para o livro. Em razão de seu trabalho na faculdade, ela não acompanha de perto o cenário da poesia contemporânea brasileira. No entanto, diz apreciar que a quase irrestrita liberdade (de forma, de tema, de tom, de divulgação/circulação) na maneira como as pessoas exprimem seu próprio universo. “Ainda temos um passo importante a fazer nesse sentido, da valorização da poesia no Brasil. Os poetas, ao que me parece, ainda têm menos visibilidade do que os demais escritores. Associadas às feiras e concursos literários, as ações cidadãs, como blogs, ateliês, jornais independentes, são importantíssimas para valorizar o gênero”, resume.

Ana Martins Marques, que teve Poemas reunidos e entre a casa escolhidos para a obra, comenta que, como leitora, vê nas antologias a oportunidade de conhecer novos autores. “Como poeta, encaro uma antologia como lugar de encontro, em que meus poemas ingressam numa nova constelação e podem alcançar um público mais amplo e diverso”, observa.

Os poemas de Leo Gonçalves escolhidos foram Língua de Aruanda, nada mais e Especulação imobiliária. Para o escritor, as antologias produzem encontros muitas vezes inesperados, não só entre os participantes, mas também entre a poesia e o leitor. “No Brasil, esta foi a primeira antologia a me incluir. Ano passado, tive a honra de participar de uma na França, a Retendre la corde vocale: anthologie de la poésie brésilienne vivante. Ali, o recorte é diferente. O organizador Patrick Quillier quis apresentar um pouco da poesia brasileira das várias gerações vivas. Nesta, o plano é outro. Adriana Calcanhotto não tem pretensão de esgotar o assunto, tampouco de fazer um retrato fiel da poesia atual. Apenas mostrar um pouco do que ela tem gostado de ler”, observa.

LOUROS
Se a poesia fizesse parte do repertório cultural do brasileiro, certamente seríamos outro país, acredita Leo. “No fundo, somos uma grande sarneylândia, onde políticos com excessivo manejo do poder não só definem os rumos do país a nosso despeito, como emulam o personagem do literato para obter seus possíveis prestígios. No fundo, grande parte de quem escreve no Brasil é assim. Quer apenas os louros para, quem sabe, formar uma suposta elite intelectual”, afirma.

A novíssima poesia contemporânea, e agora?

Mário Alex Rosa - Especial para o EM

Todas as vezes que uma pessoa, poeta ou não, se atrever a fazer uma antologia de poemas, correrá o risco de ser criticado por não ter colocado aquele escritor ou aqueles versos. Será até mesmo achincalhado por alguns ausentes, que vão dizer que o texto de apresentação não está à altura ou que autores e/ou poemas não merecem estar ali. Vale lembrar de passagem o comentário de Manuel Bandeira, organizador de tantas e importantes coletâneas. Quase no final do seu livro Itinerário de Pasárgada, comenta: “Quem organiza uma antologia escreve sempre um prefácio em que declara o critério adotado. O que sucede de ordinário é que a maioria dos leitores não faz caso do prefácio. Agora sei que os prefácios são inúteis, e entre apanhar e apanhar, antes apanhar sem prefácio”.


Pois bem, o livro É agora como nunca, organizado pela cantora Adriana Calcanhoto, antes do texto de apresentação já traz na capa a seguinte observação: “Antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira”. Essa ressalva não parece diferente ao assumir no prólogo os possíveis equívocos, ausências, mas sobretudo os prazeres que teve na organização. Portanto, entre alegrias e possíveis virtuais deslizes, essa reunião de poetas tem o significado de, no mínimo, expor as possíveis vertentes da poesia atual brasileira, mesmo que a perspectiva aqui adotada se restrinja a um pequeno contexto histórico literário da poesia do século 20.


Os 41 poetas selecionados, na faixa etária de 28 a 43 anos, têm formações diversas: há aqueles vinculados ao mundo acadêmico, com títulos de mestres e doutores, como há outros que se dedicam apenas às suas publicações. Porém, não deixa de ser curioso que alguns ainda tão jovens já apresentem uma bibliografia extensa. Se continuarem nesse ritmo, provavelmente chegarão a mais de 40 livros de poemas publicados – Manuel Bandeira (1886-1968) publicou apenas 10!
Afora essas informações técnicas, o que se nota de mais comum entre os autores selecionados é a metalinguagem, uma insistência em falar sobre o processo do poema ou da criação, e quase sempre de uma forma bastante prosaica, longe, por exemplo, de uma linhagem cabralina ou de um poeta mais contemporâneo como Paulo Henriques Britto.
Fica evidente que muitos ainda se aproximam da geração dos anos 70, do coloquialismo de alguns poetas conhecidos da geração marginal. Nota-se também pouquíssima relação com o Concretismo ou mesmo com as traduções dos Campos. Salvo algum engano, todos os poetas apostam no verso livre, talvez o de Lívia Natália aprecie uma estrutura mais fechada. Essas observações não são para propor aos poetas acima uma forma métrica ou um ritmo mais condensado, mas talvez que a escrita ganhasse mais limpidez. Como são jovens, haverá tempo para aparar os resíduos.
Por fim, é imprescindível que saiam reuniões e que críticos apostem nos “novíssimos”, assim como outros antologistas apostaram na seleção de “seus” poetas. É agora como nunca (verso tirado do poema Ponteiro) que podemos continuar lendo a poesia contemporânea, sempre na esperança de que possamos, como disse Bachelard numa entrevista tardia, “ser leitor de um poeta é um título que precisamos merecer”. Pensando assim, é mais que bem vinda essa reunião de poemas.

Mário Alex Rosa é autor dos livros de poemas Ouro Preto e Via férrea, além dos infantis Formigas e ABC Futebol Clube

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