Ser ou não ser tecnológico? Veja opinão de especialistas

O mundo moderno provoca mudanças nas relações humanas e modifica a maneira como os homens estabelecem seus laços

por Nahima Maciel 10/03/2017 13:16

A tecnologia mudou as relações humanas. Iniciam-se e terminam-se relacionamentos por WhatsApp, consulta-se o Facebook para as notícias do dia, das jornalísticas às pessoais (inclusive as falsas), e revela-se a intimidade no Snapchat e no Instagram. O Netflix é capaz de lhe oferecer séries e filmes bem próximos ao seu gosto e uma navegada inocente no Google faz pipocar na tela aquela promoção esperada há meses. A vida em algoritmos é uma realidade, mas não uma novidade. Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens – Uma breve história da humanidade e Homo Deus – Uma breve história do amanhã, a biologia já provou que o homem é um conjunto de algoritmos bioquímicos programados para funcionar de acordo com equações preestabelecidas.

O livre-arbítrio, o pesquisador sustenta, não existe e a era da Revolução Científica acabou. O Homo sapiens vai desaparecer e a fusão do homem com a tecnologia dará início a uma nova espécie, em parte controlada por aparatos tecnológicos. “Quando a engenharia genética e a inteligência artificial revelarem todo o seu potencial, o liberalismo, a democracia e os livres mercados poderão tornar-se tão obsoletos quanto facas de pedra lascada, fitas cassete, o islamismo e o comunismo”, escreve Harari em Homo Deus.

A transformação já começou e o mundo líquido citado pelo sociólogo Zygmunt Bauman não tem mais retorno. É possível escapar da solidão com apenas um clique, mas será possível alimentar a imaginação, ler um livro, contemplar o mundo pela janela e estar a sós consigo mesmo quando a tecnologia está ao alcance? Em 44 cartas do mundo líquido moderno, Bauman especula que não, não é possível. E aí, o homem perde um elo consigo mesmo. O Facebook, por exemplo, é capaz de provocar alterações de humor porque, graças às equações, conhece seus usuários melhor que eles mesmos.

Uma pesquisa encomendada pelo Google revelou que o algoritmo da rede social precisa apenas de 150 curtidas do usuário para conseguir predizer o comportamento de uma pessoa tão bem quanto um familiar. Ou seja, com mais de 150 curtidas, o Facebook seria capaz de conhecer melhor o indivíduo do que sua mãe, seu pai, seu cônjuge ou qualquer pessoa com a qual mantenha relações íntimas.

No primeiro episódio da terceira temporada da série Black mirror, a vida social dos personagens é organizada de acordo com o número de estrelas conseguidas pelas avaliações de desconhecidos e conhecidos em uma rede social. A popularidade permite oportunidades e a falta dela isola os indivíduos. Pode parecer um exagero, mas o caminho para esse tipo de sociedade já está trilhado. O escritor Dave Eggers explorou o tema em um romance emblemático do século 21. O círculo narra o cotidiano de empregados de uma grande corporação do Vale do Silício. O autor se espelhou no Google e foi além: quem trabalha para a empresa entra para um esquema de escravo das redes sociais. Em nome da transparência, não há mais privacidade. Relação contundente também é apresentada no filme Ela, de Spike Jonze, com Joaquin Phoenix, Amy Adams, em que o personagem de Joaquin se apaixona por um sistema operacional de computador.

Nesse meio, a alma se funde com a tecnologia. Mas qual o limite da atuação dos algoritmos? O homem pode ser dominado por eles? O EM perguntou a cientistas, filósofos, escritores e artistas o que pensam da associação entre o homem e a tecnologia.
 
Homo Deus – Uma breve história do amanhã
De Yuval Noah Harari
Companhia das Letras
448 páginas
R$ 54,90

O círculo
De Dave Eggers
Companhia das Letras
528 páginas
R$ 57,90

 

Bárbara Freitag, socióloga

 

. Interferências
Era digital, internet, WhatsApp, telefone celular, iPad, acho que essas inovações tecnológicas interferiram muito no comportamento dos brasileiros. Positivamente, quando recorrem às facilidades de um Google para confirmar esquecimento ou lacunas de saberes. Negativamente, quando pais e filhos não se comunicam nos restaurantes, olho no olho, mas somente via celular de cada um, boicotando-se qualquer forma de comunicação autêntica! Será que um beijo apaixonado ou um orgasmo via WhatsApp é comparável a uma relação física de fato?

. Eficácia
Essa lógica digital não está somente a serviço da “eficácia”. Se você não domina a tecnologia e os avanços do celular como mediador de todas nossas ações, ela nem sempre produz resultados eficazes. Você já pensou falar pelo telefone celular com uma pessoa doente? Em coma, em estado terminal? O efeito é zero. Tecnologia não é igual à eficácia. Pense em Auschwitz, em guerras atômicas, em uso e abuso da tecnologia contra os fins para os quais foi criada.

. Filtros
Concordo inteiramente com Umberto Eco: criar “filtros” para evitar os impactos nocivos e colaterais das redes e não se deixar levar e envenenar por elas. Uma boa receita parece-me ser prestigiar e retomar a leitura dos clássicos da literatura universal, Dante, Shakespeare, Goethe, Dickens, Camões, Cervantes, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Jane Austen, Lawrence Stenr.

 

Michel Laub, escritor

 

. Mudança e tecnologia
O homem sempre mudou por causa da tecnologia: desde o domínio do fogo até coisas recentes em termos históricos, como o avião e a pílula anticoncepcional. Algo tão onipresente como a internet (e as redes sociais, vindas na esteira disso) obviamente teria impacto no nosso comportamento, na nossa cultura, na nossa política.

. Reféns de algoritmos?
Difícil responder. Há coisas que certamente mudaram com a revolução digital, como o conceito de inteligência ligado ao conceito de memória. Talvez no futuro surja um ser humano diferente do que conhecemos, em função de fatores como a engenharia genética, mas num horizonte próximo há particularidades humanas que seguem imprevisíveis e indomesticáveis.

. Reverter a distopia?
O mundo hoje é melhor do que nos anos 1950, digamos. O que talvez tenha piorado é a confiança no futuro. No momento, não se vê saída para problemas objetivos e sérios, como o da sobrevivência humana digna sob ameaça ecológica. A solução possível para isso passaria por uma reavaliação de valores da sociedade atual – o consumismo, por exemplo, ou a ideia de crescimento econômico constante.

 

Adauto Novaes, filósofo

 

. Mutação
É certo que vivemos uma grande mutação. Como escreveu Paul Valéry: “Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”. Ele antecipava o fim da chamada “civilização ocidental” e hoje podemos dizer que entramos na era da civilização tecnocientífica. Mas o que há de diferente das mutações anteriores – o Renascimento, o Iluminismo –, que eram precedidos de grandes projetos humanistas? A atual mutação é feita no vazio desses ideais, feita no vazio do pensamento, porque é produzida pela ciência e pela técnica. Como diz Heidegger: “A ciência não pensa”.

. Transformações
Se observarmos, não há área da atividade humana que não esteja passando por transformações: os costumes, as mentalidades, a política, os valores, a ética, as artes. Essa mutação ganha corpo através da nanotecnologia, da biotecnologia e do digital. As noções de tempo e espaço estão alteradas. Com a globalização e com a revolução digital, por exemplo, o que nos resta é um presente eterno: há uma exigência permanente da instantaneidade, da simultaneidade e da ubiquidade (estamos em todo lugar ao mesmo tempo). O “futuro” é desejado e atendido de imediato. Ora, sabemos que é o futuro que dá sentido ao presente, uma vez que todo presente é sempre incompleto e imperfeito. Daí a angústia e a depressão.

. Obsolescência
Günter Anders, no livro A obsolescência do homem, diz uma coisa importante para entender o poder da técnica. Para ele, o sujeito histórico, hoje, não é mais o homem, mas a técnica. Anders escreve: “Fomos destronados (ou nós nos deixamos destronar) e pusemos em nosso lugar um outro “sujeito” da história, não, o único outro sujeito possível da história, a técnica... o que é confirmado da maneira mais espantosa pelo fato de que o ser ou o não-ser da humanidade depende, a partir de agora, do desenvolvimento da técnica e da sua aplicação”.

. Homem mecânico
Para alguns teóricos, este tempo já chegou: não se trata da humanização da máquina, mas da mecanização do homem através de implantes de chips pelo corpo, e, principalmente, pela subordinação do homem à “lógica” da técnica em todos os momentos da nossa vida: o celular, o computador etc...

. Entre-mundos
Diante da desordem do que acontece no mundo hoje em todos os campos (na consciência, no fim do sensível, no fim de uma política voltada para os ideiais do humanismo...), talvez já estejamos na pré-estreia do entre dois mundos, um que não acabou inteiramente, outro que não começou inteiramente.

 

Fábio Gandour, cientista-chefe da IBM Brasil

 

. Interferência adaptativa
O homem é um ser adaptável ao ambiente. Se não fosse assim, a espécie humana não teria chegado até aonde chegou, nesta posição tão dominante na árvore de distribuição dos seres vivos. E, a partir desta posição dominante, o ser humano vem interferindo muito no ambiente ao seu redor. Não me refiro apenas ao meio ambiente, mas ao contexto que abriga a espécie como um todo: das relações interpessoais ao próximo sanduíche que será consumido na esquina.
É este cenário de interferência adaptativa que cria a impressão de estarmos mudando por interferência da tecnologia. Mas, de fato, pode ser bem ao contrário: estamos usando a tecnologia que nós mesmos criamos para poder facilitar o processo de adaptação da espécie a um mundo que se altera muito pela ação dela própria. E isto tem criado uma espiral de interferências que cresce muito rapidamente.

. O que está por trás
Não acho que seremos todos reféns de algoritmos, mas é preciso perceber que uma pequena parcela da população humana sabe o que significa a palavra “algoritmo”, uma parcela menor tem ideia de como e por que os algoritmos são construídos e uma parcela ainda menor sabe como e onde os algoritmos funcionam. Sem contar que raríssimos são os que reconhecem a presença de um algoritmo por trás de algum processo interativo. Daí, neste cenário, teremos dois tipos de pessoas: as que conhecem e entendem os algoritmos e as outras.

. Afeto (da máquina)
A prática do afeto tem um efeito intenso e bem conhecido no cérebro humano, com liberação de substâncias que causam algum tipo de emoção peculiar. No dia em que a interação com uma máquina, antropomórfica ou não, for capaz de criar o mesmo efeito, não haverá muita razão para preferir a emoção criada por um ser humano ou por qualquer outra coisa menos humana. A questão será apenas decidir entre uma interação afetiva seca – com a máquina – ou úmida – com outro ser humano. Como no filme Ela, de Spike Jonze, quando o computador percebe que poderia correr o risco de perder a competição afetiva por “falta de umidade”, como que contrata um outro ser humano para ser seu legítimo representante neste mundo dos seres úmidos. Isto não é o futuro distante. Isto é o agora.

. Rede social x individualidade
Sim, traz. Mas, na minha opinião, o foco desta discussão deve ser outro. É preciso repensar, e talvez redefinir, o que é a individualidade. Não faz muito sentido alguém que se expõe ao máximo em uma ponta do espectro da computação social querer reivindicar privacidade e individualidade na outra ponta.

. Distopia
É curioso porque o cenário distópico e o sentimento distópico geram uma reação de assombramento e insegurança, mas, ao mesmo tempo, eles são atraentes a ponto de ser muito explorados pela indústria cinematográfica. E a realidade fantástica que aparece na tela só vai de fato ser percebida quando o espectador se vê, ele mesmo, vivendo a distopia. À medida que as pessoas percebem esta nova noção da realidade, aí sim estarão prontas para reverter a tendência criada por fome, poluição, guerras etc. Antes disso, parece que todos nós estamos diante de uma grande sessão de cinema.

. Internet: efeitos colaterais
A rede, esta e qualquer outra, é apenas um canal que permite a manifestação do ser humano. Se o ser humano piora, a culpa não é da rede. Com ou sem ela, a manifestação da maldade seria distribuída pela internet ou pelo telefone. Só que a rede é um bom culpado para ser eleito como causa de todos os males.

 

Entrevista: Ronaldo Lemos, pesquisador

 

O homem está mudando por interferência da tecnologia ou a tecnologia está simplesmente mapeando com mais nitidez o comportamento humano?
O homem está mudando por causa da tecnologia e vai mudar ainda mais. Sempre que há uma mudança nas mídias que utilizamos para nos informar e nos comunicar uns com os outros, isso modifica profundamente nossos modos de vida e nossa visão de mundo. Esse é o sentido da famosa frase de Marshall McLuhan de que o “meio é a mensagem”. Quando os meios mudam, a condição humana também muda. É o que estamos vendo agora. A internet desencadeou uma série de processos de mudança que ainda estão longe de se estabilizar. Vamos ter muitas mudanças pela frente, que afetarão a política, o trabalho, a ciência, a vida nas cidades, a educação e a economia.

Cada vez mais a lógica do comportamento humano segue a lógica da eficácia tecnológica. Isso não pode transformar as pessoas em “reféns” de algoritmos? Estamos perdendo nossas habilidades?

Um dos principais debates sobre tecnologia no mundo de hoje é a questão do surgimento da inteligência artificial. Há um temor de que ela provoque mudanças profundas, além de concentração de poder em um número pequeno de atores, que controlarão toda a infraestrutura relativa a essa tecnologia. Isso traz desafios enormes. Um deles é justamente a competição com a máquina. Várias habilidades que julgávamos como exclusivamente humanas, como a capacidade de escrever um texto jornalístico, ou conversar casualmente com outras pessoas, são agora facilmente realizadas por máquinas. Isso demanda mudanças no paradigma educacional. Há muitas habilidades humanas que se tornarão desnecessárias e precisarão ser substituídas por outras.

Quando uma rede social faz experiências para controlar o humor de seus usuários, por exemplo, não traz um risco à individualidade das pessoas?

É preciso estabelecer padrões éticos sobre pesquisa em redes sociais, especialmente porque nesse caso quem está sendo pesquisado somos nós mesmos, seres humanos. Dito isso, é importante enfatizar que esse tipo de pesquisa abriu um novo território para as ciências sociais, sem precedentes. É possível hoje compreender o comportamento social de forma muito mais precisa, o que não era viável antes. Acredito que a criação de padrões éticos de pesquisa, conjugada com a criação de modelos de pesquisa aberta, que permitem o acesso de qualquer pesquisador ao conjunto dos dados necessários para isso, possa ser um caminho promissor. Quanto mais gente pesquisando uma determinada área, mais rápido e mais confiável será o avanço alcançado.

A minha geração, nascida nos anos 1960, sonhava com viagens à Lua, cura de doenças graves, carros supersônicos no século 21. Mas percebo e sinto hoje um sentimento distópico diante do que vem por aí: fome, natureza destruída, poluição, doenças em larga escala, grandes impérios econômicos em guerra, etc. O que pode ser feito para reverter essa tendência?

É preciso criar um novo modelo de desenvolvimento para o planeta. Os países desenvolvidos enfrentam o que vem sendo chamado de “estagnação secular”, ou seja, a dificuldade de se manter o crescimento econômico. Isso vem levando a um interessante debate sobre o mundo sem crescimento ou até mesmo um mundo em decrescimento. É claro que esse debate é diferente para os países mais pobres, como é o caso do Brasil. Mas a pergunta que precisa ser feita é: crescimento para quê?. A razão de um país fazer um esforço para crescer é melhorar a vida das pessoas que vivem nele. Se estamos fazendo uma série de sacrifícios para crescer, mas isso na verdade vai continuar a piorar a vida da maioria das pessoas, é preciso perguntar a razão desse esforço. Em outras palavras, acredito que é necessário pensar grande. A receita tradicional de promover o crescimento econômico sem se importar com seus custos e efeitos colaterais está batida. É possível fazer melhor do que isso.

Há correntes de pensadores que veem o advento da internet como um avanço para a humanidade, mas os efeitos colaterais dessa rede (de linchamentos públicos a amplificar a voz dos imbecis, como disse Umberto Eco) estão prevalecendo. Eco sugeriu um “filtro” para reduzir esse impacto nocivo. Você concorda?

O estado atual da internet lembra o surgimento das grandes cidades no começo do século 20. Tanta gente vivendo junto no mesmo lugar começou a gerar uma série de conflitos inéditos. Era o caso dos linchamentos públicos, típicos do início de século passado, quando a multidão enlouquecia e buscava justiça com as próprias mãos. Aos poucos, foram sendo criadas ferramentas institucionais que deram conta dessas questões, como a universalização do acesso ao Poder Judiciário, o voto universal, a ideia de cidadania e assim por diante. Estamos em um momento similar na internet. Estamos em busca dos desenvolvimentos institucionais que farão com que a rede se torne novamente construtiva.

 

 

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS