Recorte da Bienal de SP, em cartaz em BH, propõe reflexão sobre os impasses da sociedade contemporânea

Mostra fica em exposição até 23 de abril no Palácio das Artes

A multiplicidade de vozes e linguagens é comum às grandes exposições e bienais. Afinal, são dezenas de artistas refletindo sobre suas culturas e inquietações em uma grande mostra.

Fundação Bienal de SP/Divulgação
O projeto Vídeo nas aldeias é um dos destaques (foto: Fundação Bienal de SP/Divulgação)

 

O que distingue a 32ª Bienal de Arte de São Paulo, que exibiu 340 obras de 81 artistas na capital paulista em 2016, foi a capacidade de diálogo e coexistência entre os trabalhos, por mais que eles utilizem elementos tão díspares quanto a argila ou uma complexa projeção audiovisual. O tema “Incerteza viva” é o elo que alinhava essas obras, sob a proposta de sugerir possíveis caminhos de investigação – políticos e estéticos – para a reflexão sobre o evidente mal-estar da civilização contemporânea.

 

A partir de hoje, as quatro galerias do Palácio das Artes expõem um recorte da Bienal, com trabalhos de 19 artistas – 12 estrangeiros e sete brasileiros; 12 mulheres. A proposta da equipe de curadores já deixa clara a ideia de colaboração e diversidade em sua própria representação. Formado por Jochen Volz (Alemanha), Gabi Ngcobo (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca) e Sofia Olascoaga (México), o grupo trabalhou em estreita colaboração com os autores, criando seminários que precederam e orientaram a criação de muitas das obras expostas. Agora, além das atividades educativas, a itinerância explicita a ideia de diálogo, expandindo-a para outras cidades, instituições e público.

BRASIL O curador Jochen Volz destaca que a exposição em BH é a maior do programa de circulação do evento. “É extremamente importante a ideia de descentralizar a Bienal e entender que a mostra não é apenas para São Paulo, mas para o Brasil”, defende. “Pensamos num recorte para dar foco a aspectos importantes para o projeto, não como uma versão reduzida”, afirma Volz. Ele explica que o evento mineiro se propõe a pensar “quais são os pontos urgentes a serem discutidos em Belo Horizonte, que tipo de discussão artística existe na cidade”.

Por isso, há trabalhos em vídeo, por exemplo, dialogando com a forte tradição da videoarte e do cinema locais. É o caso das criações da portuguesa de origem africana Grada Kilomba, questionando narrativas silenciadas sobre a colonização; da portuguesa Priscila Fernandes, mesclando objetos, fotografias e filme; e da americana Rachel Rose, cujos filmes questionam a relação mediada entre natureza, tecnologia e os sentidos.

Entre os brasileiros, além de fotos, Bárbara Wagner mostra um filme sobre jovens do universo do funk de São Paulo e do brega de Pernambuco, documentando o processo de construção de identidade desses movimentos. O alagoano Jonathas de Andrade exibe o belo vídeo em que pescadores do Nordeste abraçam os peixes no momento de sua morte. Há ainda uma grande mostra do projeto Vídeo nas Aldeias, com trabalhos de cineastas indígenas.

A curadoria também optou por não mostrar artistas mineiros, para possibilitar o contato com obras de acesso mais difícil ao público local. A única exceção é Wilma Martins, belo-horizontina radicada há muitos anos no Rio de Janeiro. A artista exibe uma grande série de desenhos em que animais e florestas se inserem em cenas bem cotidianas e caseiras. “Ficamos interessados na ideia de um minicosmos e na forma muito particular dela de ver o mundo. É extremamente bonito”, aponta o curador.

Volz conta que a opção de destacar a incerteza como tema da Bienal se deu por ser um conceito frequente na arte e, ao mesmo tempo, um sentimento comum entre as pessoas, embora pouco debatido e exposto. “A arte é um campo que se alimenta da incerteza, no qual o incerto e o desconhecido não estão ligados a algo que dá medo, mas que promove algo novo”, explica. A ideia foi sendo desdobrada com a equipe até chegar ao tema “Incerteza viva”, que traz a proposta de “abraçar a incerteza” como celebração.

EIXOS O curador relata que, ao longo do projeto, houve discussões com gente de diversas áreas: historiadores, professores, artistas, antropólogos e índios. Estabeleceram-se quatro pilares conceituais: conhecimento/educação, cosmovisões, ecologia e narrativas.

Desde a concepção inicial, no fim de 2014, até a abertura da Bienal, em 2016, o Brasil e o mundo presenciaram diversos fatos políticos – a crise em Brasília, a guerra na Síria, o Brexit na Europa e, agora, a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA – que aumentaram ainda mais o sentimento de incerteza. Jochen Volz afirma que tudo isso reforça os pontos de partida do projeto e os tornam ainda mais urgentes: o papel da educação, as questões ecológicas e indígenas, outras formas de conhecimento e a exaustão do capitalismo diante das diferenças sociais insustentavelmente crescentes. “Ficou mais claro que são essas as questões em jogo no Brasil e no mundo”, diz.

Volz argumenta que a arte pode contribuir para apontar direções e soluções para questões fundamentais da atualidade. “Os artistas estão pesquisando e procurando outras formas de conhecimento, outros saberes. Essa pesquisa transdisciplinar que eles fazem é bem pertinente frente aos problemas que enfrentamos, sejam políticos, ecológicos ou sociais. Uma forma de conhecimento não é suficiente, precisamos entender que as diversas formas do saber – esotéricos, indígenas, do corpo – podem ser entendidas como complementares. Na prática dos artistas, isso é bem evidente. E está presente na Bienal”, conclui.

32ª BIENAL DE ARTE DE SÃO PAULO: INCERTEZA VIVA
Várias linguagens. Galerias do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. De terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h; domingo, das 16h às 21h. Entrada franca. Até 23 de abril.

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