José Luiz Villamarim adapta história de Luiz Ruffato em seu primeiro longa-metragem

Para o diretor mineiro, Redemoinho representa também a chance de retomar a paixão que nasceu na Sala Humberto Mauro, em BH

por Carlos Marcelo 27/01/2017 09:20

Walter Carvalho/Divulgação
Gildo (Julio Andrade) e Luzimar (Irandhir Santos): a ponte como elemento de ligação e ruptura de dois amigos (foto: Walter Carvalho/Divulgação)
Anos 1980, primeira sessão de O cão andaluz em Belo Horizonte. Não cabe mais ninguém na Sala Humberto Mauro. Em pé, atrás do balcão, o adolescente José Luiz assiste à obra-prima de Luis Buñuel. O estudante do colégio Dom Silvério fica encantado: com as imagens na tela, com o ambiente de expectativa diante da exibição, com a potência do cinema. Sai da sessão com um desejo imenso: realizar um longa-metragem.

Novembro de 2016, Sala Humberto Mauro. O adolescente, agora cinquentão, está entre a tela e os espectadores. Emocionado, apresenta a familiares, amigos e convidados o resultado de seu desejo: o primeiro longa-metragem. Para os mais próximos, ele continua sendo José Luiz ou, simplesmente, Zé. O sobrenome, porém, virou grife e referência em trabalhos de qualidade na direção de dramaturgia para a televisão. Villamarim assina Redemoinho, filme que estreia no próximo dia 9 de fevereiro no circuito comercial brasileiro (haverá pré-estreia em Belo Horizonte no dia 8, em uma das salas do Cine Belas Artes).

 "Meu desejo de cinema vem desde sempre, muito anterior à TV", comenta o mineiro José Luiz Villamarim, mas a ideia de realizar um longa era muito distante de mim”, reconhece. Nascido em Três Marias, ele passou parte da infância em Ipatinga antes de se mudar para Belo Horizonte: morou em diversos bairros, mas é dos tempos da Rua Lavras, no São Pedro, que vêm as mais intensas recordações. Economista de formação, trabalhou na Fundação João Pinheiro. Começou a dirigir vídeos institucionais (entre eles a gravação de um treinamento da Polícia Militar), com situações dramáticas interpretadas por não atores. "Foi incrível. Ali eu comecei a me encantar com a ficção", lembra. No final dos anos 1980, participou do boom da produção de vídeo no estado, capitaneada por nomes como Eder Santos e Lucas Bambozzi. Foi ao Rio, conseguiu estágio com Dennis Carvalho no set da minissérie Anos rebeldes. Aos 28 anos, foi contratado pela Rede Globo e decidiu permanecer na capital carioca. Tornou-se um dos principais diretores da emissora, com especial destaque nos últimos 10 anos pelo trabalho em séries e novelas marcantes, como Avenida Brasil. "Mas sempre com o desejo de fazer um longa. Aí, a Vânia (Cattani, da produtora Bananeira Filmes) me falou: ‘Vamos fazer um filme’. Agora, deu certo." 

Walter Carvalho/Divulgação
O diretor mineiro José Luiz Villamarim apresenta seu primeiro longa-metragem (foto: Walter Carvalho/Divulgação)

O plano inicial de Villamarim era adaptar Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, mineiro de Cataguases. Depois de um encontro com o escritor, entretanto, foi surpreendido com a proposta: "Você não quer ver isso aqui, não?". Ruffato, então, entregou um calhamaço com as provas de impressão do livro O mundo inimigo, ainda inédito. "Havia vários longas ali dentro", lembra Villamarim. De lá, ele e o roteirista George Moura, parceiro constante do diretor em minisséries bem-sucedidas, como O canto da sereia e Amores roubados, pinçaram a história Amigos, que tem como protagonistas Gildo e Luzimar (vividos na tela por Julio Andrade e Irandhir Santos). George uniu Amigos com personagens e situações de outras histórias de O mundo inimigo. "O que fizemos não foi uma adaptação, mas uma recriação, como devem ser feitas as obras cinematográficas", defende Villamarim. Eis a gênese de Redemoinho. "Gosto muito desse nome. Aponta para um filme mais sensorial, circular: a ideia é que a vida pode ser tragada ou renascer, depende de cada um", acredita o diretor.

ALMA DOS PERSONAGENS Quando foi a Cataguases, um dos berços do modernismo arquitetônico do século 20, Villamarim se decepcionou com as mudanças que a cidade sofreu ao longo das décadas. "Tudo muito desordenado, como em quase todas as cidades brasileiras: a laje, a grade nova, a ferragem exposta." Durante o processo de busca de locações, percebeu que essa "desordem" poderia ajudá-lo a fazer o que o atrai: dar visibilidade aos dramas dos anônimos que formam a maior parte da sociedade brasileira. "Cada vez mais tenho vontade de fazer o contracampo: ir entrando na alma dos personagens", acredita Villamarim. 


Conta que o trabalho na série Justiça, produzida depois de Redemoinho e ponto alto da teledramaturgia nacional em 2016, foi "impregnado pela simplicidade" da forma que nasceu Redemoinho: interpretações mais contidas, interferências mínimas nos cenários, movimentos discretos de câmera, espaço para silêncios e pausas. "Se a escrita já possui tintas fortes, não é necessário que eu reforce isso nas imagens", defende.

Foram cinco semanas de trabalho – duas de ensaio, três de filmagens – com o elenco (Julio Andrade, Irandhir Santos, Cássia Kis e Dira Paes têm os papéis principais) e os parceiros de sempre, entre eles o fotógrafo Walter Carvalho. "Cinema é a busca da síntese: cada quadro vale." Afirma estar preparado para que seu longa-metragem seja assistido por um público consideravelmente menor do que o da televisão. "Mas Redemoinho não carrega a pressão da audiência, que é uma das premissas da TV", lembra. "Fiz o filme com o interesse que ele toque as pessoas de forma profunda.” O diretor defende que o cinema não pode perder o “caráter épico", a possibilidade de provocar epifanias como o próprio Villamarim experimentou diante das telas do Humberto Mauro e do Cine Pathé, nos tempos de juventude.

Nos próximos anos, fará ao menos mais dois longas-metragens: um deles será filmado novamente no interior mineiro. Pretende alternar trabalhos para o cinema e a TV. Gosta, em especial, do "caráter artesanal" de produções menores, como a que estreia na próxima semana: "Cada vez mais acredito no que dizia Tarkovski: cinema é esculpir o tempo". O mineiro Humberto Mauro (1897-1983) disse uma vez: "Cinema é cachoeira". O mineiro José Luiz Villamarim, aos 53 anos, confirmou o que intuiu na adolescência: cinema é redemoinho.

 

CRÍTICA

 

O foco de Redemoinho está nos desvalidos, nos que vivem (literalmente) à margem da linha. Com rigorosa construção dramática e visual, chama a atenção também o trabalho de ourives nos diálogos e na elaboração das imagens. As cisões entre dois amigos ganham representação visual nos planos: trem e ponte surgem como elementos simultaneamente de ligação e de ruptura. Mesmo detalhes, como um espelho retrovisor, também refletem os conflitos de Gildo e Luzimar, interpretados com notável precisão por Julio Andrade e Irandhir Santos. É um filme muito cuidadoso, com um roteiro que não privilegia a catarse, mas a implosão (ato de coragem em tempos tão ruidosos). Fazer de uma chuva torrencial a cortina do passado é apenas uma das felizes ideias que estão presentes na tela, reforçadas por um desenho de som forte e envolvente. No desfecho, surge uma chama tênue, mas que resiste e continua a iluminar, mesmo quando as luzes se acendem e não há mais Redemoinho na tela, apenas dentro da gente. (C.M.) 

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