Morre no Rio o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos

O escritor foi figura presente em todos os movimentos que marcaram a cultura brasileira nos últimos 50 anos

por Estado de Minas 04/12/2016 12:15

TV Brasil/ Divulgação
(foto: TV Brasil/ Divulgação)

O poeta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu, aos 86 anos. A causa da morte ainda não foi confirmada pelo Hospital Copa D'Or, na Zona Sul do Rio, onde o escritor estava internado. O escritor foi figura presente em todos os movimentos que marcaram a cultura brasileira nos últimos 50 anos, polemizando em defesa de arte  inovadora que carregasse também elementos de crítica social e compromisso com humanismo.


Ferreira Gullar ganhou o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2013


Gullar declama seu Poema Sujo, em vídeo



Ferreira Gullar era o pseudônimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de setembro de 1930 – Rio de Janeiro, 04 de dezembro de 2016). Foi o quarto dos 11 filhos do casal Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart. Sobre o pseudônimo, explicou que, como todo mundo no Maranhão é Ribamar, decidiu adotar nome que somava Goulart, um dos sobrenomes da mãe, mudando a grafia para Gullar, e Ferreira, da família. “É um nome inventado, como a vida é inventada eu inventei o meu nome", justificou.

Dividiu os anos da infância entre a escola e a vida de rua, jogando bola e pescando no Rio Bacanga. Considera que viveu numa espécie de paraíso tropical e, quando chegou à adolescência, ficou chocado em ter de tornar-se adulto, e tornou-se poeta.

Escritor fez, em Belo Horizonte, exposição de trabalhos em colagem

No começo, acreditava que todos os poetas já haviam morrido e somente depois descobriu que havia muitos deles em sua própria cidade, a algumas quadras de sua casa. Com 18 anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero-Recreativo, onde, aos domingos, havia leitura de poemas.

Descobriu a poesia moderna apenas aos 19 anos, ao ler os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Ficou escandalizado com esse tipo de poesia e tratou de informar-se, lendo ensaios sobre a nova poesia.

Pouco depois, aderiu a ela e adotou uma atitude totalmente oposta à que tinha anteriormente, tornando-se um poeta experimental radical, que tinha como lema uma frase de Gauguin: “Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés”.

Ou seja, nada de fórmulas: o poema teria que ser inventado a cada momento. “Eu queria que a própria linguagem fosse inventada a cada poema”, diria ele mais tarde. Assim nasceu o livro que o lançaria no cenário literário do país em 1954: A Luta Corporal.

Os últimos poemas deste livro resultam de uma implosão da linguagem poética e provocariam o surgimento na literatura brasileira da “poesia concreta”, de que Gullar foi um dos participantes e, em seguida dissidente, passando a integrar um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto.

O movimento neoconcreto surgiu em 1959, com um manifesto escrito por Gullar, seguido da teoria do não-objeto. Esses dois textos fazem hoje parte da história da arte brasileira, pelo que trouxeram de original e revolucionário. São expressões da arte neoconcreta as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, hoje nomes mundialmente conhecidos.


Trajetória

A obra do escritor, ao longo de toda vida, intercalou livros de poemas, o mais conhecido deles Poema sujo (1976), escrito durante o exílio em Buenos Aires, com ensaios sobre arte. O longo poema de quase cem páginas é considerado  sua obra-prima. O texto causou enorme impacto ao ser editado no Brasil e foi um dos fatores que determinaram a volta do poeta ao país. Poema Sujo foi traduzido e publicado em várias línguas e países.

É considerado texto fundamental da arte brasileira Teoria do Não Objeto, publicado em 1960, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Trata-se da mais importante defesa de movimento, do qual ele foi um dos fundadores, depois de romper com o concretismo. Ferreira Gullar ocupou, em 2014, a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Ivan Junqueira.

(COM AGÊNCIAS)

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS