Fotógrafa Cláudia Jaguaribe apresenta um novo olhar sobre a cidade

Artista reinterpreta e redimensiona a realidade, criando imagens potentes sobre a diversidade contemporânea

por Walter Sebastião 27/09/2016 20:03
Cláudia Jaguaribe/Divulgação
(foto: Cláudia Jaguaribe/Divulgação)
O livro Entre morros, de 2012, traz uma imagem particularmente impactante de uma menina na lage de uma casa tendo ao fundo uma profusão de construções, sejam barracos ou prédios que cobrem quase toda paisagem natural do Rio de Janeiro. A potência visual da imagem vem de justaposição de diversas fotos. Uma feita no mesmo plano onde está a criança. Outra foi tirada da janela de uma construção, voltada para a paisagem ao fundo. E uma terceira imagem do local foi feita de helicóptero. Coisas da fotógrafa Cláudia Jaguaribe, de 60 anos, que, valendo-se de colagens, cria intrigantes observações do real. “Nessa foto, vejo o mundo de perto e de longe ao mesmo tempo”, conta, lembrando que se trata de uma mirada impossível ao olho humano.


A foto, que passa a sensação de vertigem, como observa a artista, abriu espaço para que ela desse vazão, de forma mais radical, a um aspecto que sempre esteve em seu trabalho: o desejo de que a fotografia tenha potência, seja como poética ou como visão de mundo. Ela explica que essa motivação leva em consideração a dimensão documental e a ficcionalização como partes da história da fotografia. “É isso que faz da fotografia algo poderoso”, afirma. “O que a produção contemporânea faz é trazer mais consciência desta dimensão. Fotografia é uma forma de conhecimento, de apreender o mundo, de prazer e de problematizar as coisas”, argumenta.

Parágrafos Cláudia Jaguaribe está apresentando um conjunto de trabalhos realizados entre 2011 e 2016, até 15 de outubro, na Celma Albuquerque Galeria de Arte. Ela conta que as obras trazem sua visão de fotografia, assim como seu processo de criação, que se vale de diversos formatos, técnicas, suportes, recursos etc. “Cada foto tem um universo próprio, um contexto, desde o modo de trabalhar a foto até o modo de apresentá-la”, explica. “Vim das artes visuais, da pintura, gravura e desenho e encontrei na fotografia um meio elástico que posso usar dos modos mais distintos”, justifica. “As imagens no meu trabalho são como palavras que uso para construir frases, parágrafos. O conceito e o fazer são importantes para mim”, afirma, lembrando-se do uso de recortes, colagens, intervenções, e esculturas.


Para Cláudia, as misturas aludem ao mundo e à vida contemporânea marcados pela simultaneidade. “Estamos sempre diante de situações que remetem à multiplicidade. Nunca há um caminho, mas várias vias”, observa. A isso acrescentam-se as tecnologias digitais, que oferecem muitas formas de intervir nas imagens. O procedimento usado também responde a uma inquietação: “Hoje, todo mundo fotografa e a fotografia é onipresente na nossa vida. Então, se você não busca algo que tenha potência, que diga algo, a foto cai no vazio. A realidade para mim é só um ponto de partida”, explica, sonhando com intervenções que transformem a natureza da imagem, as formas de trabalhar com ela e até de apresentá-las.


Cláudia conta que há motivos recorrentes em seu trabalho. Um deles é a paisagem urbana ou, como ela diz, “o como e onde vivemos e como isso nos afeta”. Outro é a natureza, “mas de um ponto de vista urbano”. E suspeitando que a natureza, como entendida até agora, está chegando ao fim – já que as sociedades estão cadas vez mais urbanas e o mundo cada vez mais virtualizado e artificializado –, o tom das fotos também oscila. Ela explica que as imagens “podem ser bem etéreas ou muito sólidas”, fazer uma consideração estética ou social, enunciar situações épicas ou íntimas, carregar o desejo de preservar um modo de viver e sentir o mundo e também registrar transformações. “Minhas fotos trazem o sentimento e a experiência de uma cidade, potencializam algo que está aí, mas ainda não definido”, observa.


A artista conta que não tem um método de trabalho, mas que, ao se aproximar de temas de seu interesse, aos poucos as questões e a forma de apresentá-los vão se definindo. “São fotos que vão se construindo por si mesmas. Estou sempre procurando um modo de representar a espacialidade urbana”, explica. O momento atual, segundo ela, é resultado de muitas investidas, erros e acertos, tateando formas de materializar o que sentia. Há muitas imagens do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas a fotógrafa avisa que está falando de aspectos de qualquer cidade. O gosto pela foto construída não significa que considere único caminho: “O bom da fotografia é que você pode entrar no canal que quiser, desde o jornalístico até o sublime”.

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