Morre, aos 52 anos, filho de Chico Anysio; família se despede nas redes
Em relato emocionante, artista detalha abusos enfrentados pela mãe, Célia Maria, e conta como ressignificou a história da família
Reprodução Instagram / Reprodução Globoplay
Lázaro Ramos, 47, retomou lembranças duras da infância ao relatar os maus-tratos vividos por sua mãe, Célia Maria. Em entrevista ao Globo Repórter (TV Globo), o ator recordou que ela trabalhava como empregada doméstica e chegou a ser agredida pela patroa. Célia morreu quando ele ainda era adolescente.
Segundo Lázaro, a mãe tinha uma força suave que marcava todos ao redor. "Ela era forte na leveza. Minha mãe não tinha tempo ruim". Ele também contou que, mesmo enfrentando jornadas exaustivas, sua mãe tinha restrições injustas no emprego. "Trabalhava como empregada doméstica. Primeiro que trabalhava de domingo a domingo, não tinha folga. Os momentos que eu ia pra casa da empregadora dela eu ficava no quartinho, trancado. Às vezes minha mãe entrava, mas muito mal tratada. Ela não podia comer carne no trabalho dela. Era ovo. Às vezes quando eu tava lá, ela pegava um pedacinho de carne escondido para me dar."
O episódio mais marcante ocorreu quando presenciou uma agressão: "Vi a minha mãe tomar um tapa da empregadora dela, mas para além do tapa, o que mais é simbólico pra mim é que assim que ela tomou um tapa, ela entrou no quarto e me deu um sorriso. Ou seja, essa mulher estava sempre querendo que eu voasse. Ela não queria que eu estacionasse num lugar de sofrimento e dor."
Para o ator, revisitar essas memórias ainda é um processo doloroso: "Para mim é muito difícil falar dessas coisas porque eu não quero que isso me defina, assim como não quero que defina a minha mãe."
Anos mais tarde, Lázaro tomou uma atitude surpreendente ao reencontrar o imóvel onde Célia havia sido explorada: "No começo achei que era por vingança, fui guiado por um sentimento absolutamente humano de ver que poderia comprar e comprei. Entrei lá e pensei que não queria ficar com aquele apartamento, que ele deveria ser doado. Encontrei uma instituição que acolhe pessoas em trabalho análogo à escravidão e doei para essa instituição."
A história aparece detalhada no livro "Na Nossa Pele", sequência de "Na Minha Pele", em que o artista compartilha vivências para discutir racismo e preconceitos. No relato, ele lembra que a mãe continuou trabalhando na mesma casa por mais três anos após a agressão que testemunhou aos 10 anos. Em 2022, durante uma visita a Salvador com os filhos, adquiriu o imóvel e eternizou o rosto de Dona Célia em um grafite na parede - um gesto simbólico de memória e reparação.