Sexo anal: o que acontece com o corpo antes, durante e depois?
Mudanças na masculinidade e a busca por novas formas de prazer ajudam a explicar o interesse crescente pela prática
Pexels
Durante muito tempo, o prazer masculino foi associado a um roteiro relativamente previsível: penetração, ereção e orgasmo. A região anal, quando aparecia nessa conversa, costumava vir acompanhada de tabus, piadas ou associações equivocadas com orientação sexual. Em 2026, porém, o assunto começa a ocupar outro lugar. Um dos sinais dessa mudança é o crescimento do interesse pelo pegging, prática em que um parceiro utiliza um acessório com cinta para penetrar o outro, geralmente um homem.
Dados da plataforma de relacionamentos Feeld apontam que o interesse pelo pegging cresceu mais de 200% entre homens cisheterossexuais. O número faz parte do relatório de tendências da empresa e não significa que a prática tenha se tornado majoritária, mas chama atenção para uma mudança na disposição de alguns homens para experimentar formas de prazer que escapam ao roteiro sexual tradicional.
A discussão ganhou repercussão também fora das plataformas de relacionamento. Em janeiro, o El País tratou o crescimento do pegging como parte de uma transformação na relação de homens heterossexuais com o sexo anal. O argumento central não é que uma prática tenha surgido agora, mas que ela parece estar encontrando menos resistência para ser nomeada, discutida e incorporada ao repertório sexual.
O que o interesse pelo pegging revela?
Mais do que uma tendência sexual, o fenômeno toca em uma questão antiga: por que determinadas formas de prazer foram consideradas incompatíveis com a masculinidade?
O ânus é uma região sensível e a próstata pode ser estimulada por meio do reto. Isso ajuda a explicar por que alguns homens relatam prazer com estímulação anal, independentemente de sua orientação sexual. A prática sexual, por si só, não determina a orientação de alguém, que está relacionada à atração afetiva e sexual, e não a uma experiência específica.
A associação entre penetração anal e homossexualidade, portanto, diz mais sobre as normas culturais construídas em torno da masculinidade do que sobre o desejo de cada indivíduo. Durante décadas, homens heterossexuais foram incentivados a ocupar quase exclusivamente a posição de quem penetra. Experimentar o lugar oposto pode significar, para alguns, atravessar uma fronteira simbólica antes mesmo de representar uma novidade física.
O relatório do Feeld interpreta o aumento do interesse como um possível sinal de ampliação das definições de masculinidade e de maior abertura para experiências que fogem das formas tradicionais de prazer.
Quando prazer e vulnerabilidade se encontram
Há ainda uma dimensão menos evidente nessa discussão: a entrega do controle.
No sexo heterossexual tradicional, homens costumam ser socializados para ocupar uma posição ativa. No pegging, essa dinâmica pode ser invertida, embora isso não signifique necessariamente que exista uma relação de dominação ou submissão. Quem recebe a penetração pode continuar tendo controle sobre seus limites, enquanto quem conduz a experiência não necessariamente assume uma posição dominante.
É justamente essa possibilidade de experimentar outros papéis que aparece nas discussões recentes sobre a prática. O El País ouviu especialistas que relacionam o interesse crescente a uma definição menos rígida de masculinidade e a uma maior abertura para pensar o prazer para além das vias consideradas convencionais.
Nesse sentido, o assunto não precisa ser interpretado apenas como uma mudança no comportamento sexual. Ele também pode ser lido como parte de uma transformação mais ampla na maneira como alguns homens lidam com vulnerabilidade, intimidade e autonomia sobre o próprio corpo.
A próstata não é uma invenção da tendência
A popularização do termo pode dar a impressão de que o interesse pelo prazer anal masculino é recente. Não é.
O que mudou é a visibilidade. O pegging foi nomeado no início dos anos 2000 pelo colunista sexual Dan Savage, mas a prática passou a circular mais intensamente na cultura popular nos últimos anos. Em 2026, veículos de diferentes países voltaram ao tema justamente porque ele deixou de aparecer apenas em nichos de sexualidade e passou a integrar discussões mais amplas sobre relacionamentos e prazer.
Também não é correto transformar o crescimento do interesse em uma suposta revolução sexual masculina. Os dados disponíveis vêm, em grande parte, de plataformas, levantamentos de mercado e amostras específicas. O aumento de buscas ou de declarações de interesse não permite concluir que a maioria dos homens esteja praticando pegging ou que exista uma mudança generalizada de comportamento.
O que eles conseguem mostrar é que mais homens parecem estar dispostos a falar sobre uma possibilidade que antes poderia ser acompanhada de vergonha ou receio de julgamento.
Prazer não define orientação sexual
Talvez uma das partes mais persistentes do debate seja justamente a pergunta que não deveria ser necessária: um homem heterossexual que sente prazer com estímulo anal deixa de ser heterossexual?
Não. A orientação sexual não é determinada pela prática realizada, mas pelo padrão de atração da pessoa. Um homem pode se identificar como heterossexual e experimentar prazer anal com uma parceira, assim como uma pessoa de qualquer orientação pode ou não ter interesse pela prática.
A insistência nessa associação, por outro lado, ajuda a entender por que o tema demorou tanto a sair do campo do tabu. Se determinadas experiências são apresentadas como incompatíveis com a masculinidade, o homem pode acabar aprendendo a ignorar ou esconder sensações que fazem parte do próprio corpo.
Uma mudança de roteiro
O crescimento do pegging não significa que exista uma nova obrigação sexual para os homens. Tampouco transforma a prática em indicador de modernidade, abertura ou qualidade de uma relação.
O que parece estar mudando é o espaço para que o prazer masculino seja pensado de maneira menos previsível. Em vez de pressupor que todo homem deve gostar das mesmas coisas e ocupar sempre o mesmo lugar, a discussão passa a considerar que desejo também envolve curiosidade, limites e preferências individuais.
No fim, talvez o aspecto mais interessante da tendência não esteja no acessório ou na prática em si, mas na pergunta que ela coloca sobre a masculinidade: quanto do que os homens dizem não gostar é, de fato, falta de interesse — e quanto é medo de experimentar algo que aprenderam a considerar incompatível com quem são?