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Técnicos especializados relatam aumento de 60% na procura por serviços; economia familiar e sustentabilidade impulsionam setor
microondas BELO HORIZONTE - O som do ronco familiar do microondas voltou a ecoar em milhares de cozinhas belo-horizontinas graças ao trabalho de uma categoria que vive seus melhores dias: os técnicos especializados em consertos. Em meio à crise econômica que aperta o orçamento das famílias, pequenas oficinas espalhadas pela capital mineira registram crescimento sem precedentes na demanda por reparos.
"Nunca vi movimento igual. Tem semana que não dou conta de atender todo mundo", revela Sandra Oliveira, de 48 anos, uma das poucas mulheres do ramo em BH. Há 12 anos à frente de uma oficina no bairro Santa Efigênia, ela conta que precisou ampliar o horário de funcionamento para dar conta da demanda.
A transformação no comportamento dos consumidores surpreendeu até mesmo os veteranos do setor. "Antigamente, quando quebrava, o povo comprava outro na mesma semana. Hoje eles ligam desesperados perguntando se tem jeito", conta João Batista, técnico há 25 anos com oficina no bairro Cidade Nova.
A mudança tem explicação nos números. Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), o preço médio de um microondas subiu 47% entre 2021 e 2024, enquanto a renda familiar recuou 12% no mesmo período.
"Meu microondas Consul estava fazendo um barulho estranho. Pensei: 'Pronto, vai ter que trocar'. Mas o conserto custou R$ 95 e durou 15 minutos", conta Márcia Fernandes, aposentada do bairro Glória. "Economizei quase R$ 400."
O perfil dos clientes também mudou. Além das donas de casa tradicionais, jovens profissionais e estudantes universitários descobriram o caminho das oficinas. "Recebo muito universitário da PUC e da UFMG. Eles não têm dinheiro para comprar outro, então preferem consertar", observa Edson Alves, que atende na região da Savassi.
As redes sociais ajudaram a divulgar o trabalho dos técnicos. "Posto foto dos consertos no Instagram. O pessoal fica impressionado vendo microondas 'morto' voltando à vida", brinca Patrícia Melo, técnica do bairro Betim que atende BH e região metropolitana.
O aquecimento do mercado está gerando especializações. Alguns técnicos passaram a focar apenas em marcas específicas, outros se dedicaram a modelos antigos considerados "impossíveis" de consertar.
"Virei especialista em microondas dos anos 90. Tem gente que guarda aqueles Brastemp antigos com carinho e não quer se desfazer", explica Ronaldo Costa, do bairro Velho Belém. "São máquinas que duraram décadas e ainda podem durar mais décadas."
Nem tudo são flores no ramo. Os profissionais enfrentam dificuldades crescentes para encontrar peças de reposição, especialmente para modelos descontinuados. "Às vezes tenho que virar detetive para achar uma peça. Procuro em ferros-velhos, oficinas que fecharam, até no Mercado Livre", conta Luiz Fernando, técnico do bairro Concórdia.
A evolução tecnológica também trouxe novos desafios. "Os microondas modernos têm muito mais eletrônica. Antes era mais mecânico, mais simples de consertar", explica José Carlos, que mantém oficina no bairro Padre Eustáquio.
O aspecto ambiental tem sido usado como argumento pelos técnicos. "Sempre falo para o cliente que consertar é um ato ecológico. Cada microondas que não vai para o lixo é uma vitória", destaca Mariana Silva, técnica do bairro Funcionários.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente confirma redução de 35% no descarte de microondas nos pontos de coleta de lixo eletrônico desde 2022. "É um indicador positivo de mudança de comportamento", avalia o secretário adjunto, Ricardo Viana.
Os técnicos desenvolveram estratégias para conquistar a confiança dos clientes. "Sempre mostro o problema, explico o que vou fazer e dou garantia de três meses. Transparência é fundamental", ensina Mário Santos, do bairro Luxemburgo.
Para quem está pensando em consertar, os especialistas recomendam:
O renascimento do setor de consertos de microondas em BH mostra que, às vezes, a crise pode gerar oportunidades inesperadas. Para os técnicos, representa renda e reconhecimento profissional. Para os consumidores, economia e consciência ambiental. Para a cidade, menos lixo eletrônico e mais empregos locais.