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Instabilidade econômica na América Latina: fuga de capital e especulação

Leandro Yacoubian analisa a instabilidade na América Latina e alerta: desorganização econômica, fuga de capital e oportunidade especulativa

Leandro Yacoubian Leandro Yacoubian
Leandro Yacoubian
Fabiano Moraes clock 18/06/2025 10:15
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Segundo o pesquisador argentino Leandro Yacoubian, a instabilidade segue sendo um dos principais desafios macroeconômicos da América Latina. Enquanto países como o Brasil conseguem controlar alguns fatores, outras economias, como a Argentina, enfrentam um cenário de descontrole que afeta diretamente os mercados financeiros, a confiança dos investidores e o fluxo de capital estrangeiro.

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Para o analista, a inflação crônica não é apenas uma distorção de preços, mas o reflexo de uma desorganização sistêmica mais ampla. Segundo ele, em países onde a inflação se torna estrutural, os fundamentos econômicos deixam de funcionar como parâmetro real de valor. A perda de referência contábil compromete desde decisões de consumo até alocações de longo prazo, provocando um ambiente de instabilidade que paralisa investimentos e reduz o crescimento potencial.

De acordo com pesquisas do Yacoubian , o Brasil conseguiu preservar um certo grau de estabilidade macroeconômica. A inflação está dentro da meta e o mercado acionário tem se beneficiado da previsibilidade relativa. Empresas como a Petrobras mantêm políticas sólidas de distribuição de dividendos, o que atrai investidores estrangeiros em busca de retorno com menor volatilidade. A confiança nos marcos regulatórios e no funcionamento das instituições brasileiras, mesmo em meio a incertezas fiscais, tem sido um diferencial importante na alocação internacional de portfólios.

Por outro lado, o especialista destaca que o cenário argentino é marcado por uma incerteza prolongada. A inflação interanual, segundo seus estudos, ultrapassa os 280 por cento. Nesse tipo de ambiente, o investidor institucional abandona o mercado, e o capital de longo prazo é substituído por fluxos especulativos e altamente voláteis.

Yacoubian alerta que isso não representa confiança nos fundamentos da economia argentina. Trata-se, segundo ele, de uma exploração pontual de distorções provocadas por um sistema macroeconômico desorganizado. Investidores norte-americanos e de outros países europeus, inclusive com perfil conservador, têm alocado parte de seus portfólios em ativos argentinos justamente para aproveitar os fortes ciclos de valorização e desvalorização, os chamados ups and downs, de ações como YPF e Pampa Energía. A elevada volatilidade, combinada com preços deprimidos e choques recorrentes, abre espaço para ganhos táticos em janelas de curto prazo, mesmo em um ambiente de alta incerteza.

Porém, alguns investidores são conservadores, e a preferência deles sempre será por mercados mais estáveis, como os da Europa e dos Estados Unidos, refletindo a busca por segurança e previsibilidade. As pesquisas de Yacoubian apontam que os países latino-americanos frequentemente enfrentam variações nos preços de construção, leis, regulamentações e outros fatores-chave, o que compromete a confiança dos investidores. O Brasil, no entanto, está um pouco melhor nesse sentido, com um cenário relativamente mais estável em comparação com outros países da região. Ainda assim, essas flutuações criam um ambiente de incerteza, afastando investimentos em diferentes setores, conforme mencionado anteriormente. Até um ano atrás, era totalmente vantajoso e barato construir na Argentina, mas hoje muitos investidores argentinos estão construindo no Brasil e no Paraguai. Apenas quem tem urgência ainda está construindo na Argentina.

O analista reforça que, na ausência de marcos institucionais confiáveis, as economias inflacionárias tendem a entrar em ciclos viciosos. O enfraquecimento das âncoras fiscais e monetárias aprofunda o desalinhamento entre preços e fundamentos, criando oportunidades para arbitragem financeira, mas afastando investimentos produtivos. Ele observa que esse padrão não é exclusivo da Argentina e pode ser identificado, em menor escala, em outros países da região quando há fragilidade institucional.

Leandro conclui que a América Latina precisa superar seus ciclos históricos de instabilidade para avançar. Ele defende que a credibilidade das políticas econômicas deve ser prioridade, junto com o fortalecimento das instituições e a previsibilidade regulatória. Sem isso, os mercados seguirão expostos a choques recorrentes, perda de capital produtivo e dependência crescente de operações de caráter especulativo. A retomada do crescimento sustentável exige um ambiente macroeconômico estável, capaz de atrair capital de longo prazo e fomentar inovação, produtividade e inclusão.

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