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A queixa que antes aparecia no consultório do clÃnico geral como um detalhe ao final da consulta, hoje passou a liderar os motivos de atendimento. Em Minas Gerais, a dor no joelho passou a competir com lombalgia entre as principais causas de afastamento do trabalho e de procura por atendimento ortopédico.
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O perfil do paciente também mudou. Não se trata mais apenas do idoso com artrose avançada. A faixa de 35 a 55 anos hoje responde por uma parcela crescente das consultas, com pacientes relatando dor persistente, inchaço recorrente e dificuldade para subir escadas.
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O dado mais recente da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, ajuda a entender por que isso acontece. Belo Horizonte aparece como a capital com maior Ãndice de obesidade do Sudeste e ocupa a quarta posição no ranking nacional.
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Cerca de 43,69% dos belo-horizontinos adultos se enquadram no diagnóstico de obesidade. Quando o sobrepeso entra na conta, o número salta para 74,16% da população acima do peso ideal. A capital mineira concentra um problema que pesa, literalmente, sobre as articulações da população em idade produtiva.
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A relação entre peso e joelho é mecânica e direta. Cada quilo a mais no corpo gera aproximadamente quatro quilos de carga adicional sobre a articulação do joelho durante a caminhada.
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Em descidas de escada e corridas, essa proporção pode chegar a sete vezes o peso corporal. Um adulto com dez quilos de excesso, portanto, está submetendo seus joelhos a quarenta quilos extras de pressão a cada passo, ao longo de todos os dias.
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O problema deixou o consultório e chegou à s filas do SUSÂ
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A consequência epidemiológica desse cenário não é discreta. Dados do DATASUS apontam que as artroplastias totais de joelho no sistema público brasileiro cresceram de 4.894 procedimentos em 2009 para 7.649 em 2018, um aumento de 56,3% em apenas uma década.
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Após a queda registrada durante a pandemia, o volume voltou a subir e ultrapassou os patamares pré-2020, segundo levantamentos publicados na Revista Brasileira de Ortopedia.
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Minas Gerais sente o impacto dessa curva. O estado figura entre os que mais demandam próteses de joelho na rede pública do Sudeste, e a fila de espera nas regionais de saúde tem se mantido alta, mesmo com a realização de mutirões periódicos.
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O Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia chegou a registrar, em determinado momento, 21,2 mil pacientes aguardando cirurgia ortopédica em todo o paÃs, e parte significativa dessa demanda vem do Sudeste.
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A osteoartrose, popularmente conhecida como artrose, é a principal responsável por essas cirurgias. De acordo com o INTO, ligado ao Ministério da Saúde, a doença atinge cerca de 12% da população mundial com mais de 60 anos e representa a principal causa de incapacidade fÃsica crônica em pessoas acima dessa faixa etária. O detalhe que costuma passar despercebido é que a doença começa a se instalar muito antes dos 60.
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"As primeiras alterações de cartilagem aparecem na faixa dos 40 e se tornam clinicamente relevantes a partir dos 50, quando o paciente já não consegue praticar atividades que executava com facilidade pouco tempo antes", observou o Dr. Ulbiramar Correia, médico ortopedista de joelho em Goiânia.
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Esporte amador, trânsito e trabalho repetitivo: o tripé que sobrecarrega o joelhoÂ
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Belo Horizonte é uma das capitais com maior número de praticantes de corrida de rua e ciclismo no paÃs, e o Inter-Bairros, o Réveillon na Praça da Estação e as provas de Nova Lima movimentam multidões a cada calendário.
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O esporte amador, no entanto, raramente vem acompanhado de avaliação ortopédica prévia, e lesões de menisco e ligamento cruzado anterior aparecem em pacientes mais jovens do que os manuais ortopédicos descreviam até pouco tempo atrás.
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Um estudo brasileiro publicado em 2019 mostrou que a incidência anual de lesões de ligamento cruzado anterior chega a 78 casos por 100 mil pessoas em populações esportivamente ativas, e que entre 50% e 70% desses casos vêm acompanhados de lesão de menisco no mesmo joelho.
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A dor no joelho deixou de ser um problema individual e privado para se tornar um indicador de saúde pública mineira (Foto: Freepik)
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Em Minas Gerais, onde a topografia montanhosa impõe ladeiras frequentes ao deslocamento urbano, o impacto sobre a articulação se soma ao gerado pela atividade fÃsica desorganizada.
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Há ainda o fator ocupacional. Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE indica que cerca de 23,4% dos adultos brasileiros relatam algum problema crônico de coluna ou articulações, e categorias como construção civil, agricultura, comércio em pé e serviços domésticos concentram parte expressiva desses casos.
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Em cidades do interior mineiro com forte presença industrial, como Betim, Sete Lagoas e Juiz de Fora, o desgaste articular aparece em pacientes mais jovens do que a média nacional, em decorrência da carga repetitiva e do peso corporal levantado em jornada.
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Quando a dor deixa de ser apenas muscularÂ
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O erro mais comum cometido pelos pacientes mineiros, segundo relatos colhidos em ambulatórios públicos da Região Metropolitana de Belo Horizonte, é tratar a dor de joelho como um problema muscular durante meses, às vezes anos.
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Compressas, anti-inflamatórios de farmácia e fisioterapia improvisada conseguem mascarar o sintoma, mas não interrompem a degradação da cartilagem.
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Os sinais que exigem avaliação especializada são bem definidos. Dor que persiste por mais de seis semanas, mesmo em repouso. Inchaço recorrente após atividades simples como caminhar até o ônibus ou subir um lance de escada.
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Estalos audÃveis acompanhados de dor. Sensação de que o joelho falseia em movimentos comuns. Limitação para dobrar a perna ao sentar ou levantar. Quando dois ou mais desses sintomas aparecem juntos, o paciente já saiu do estágio em que medidas conservadoras isoladas resolvem.
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A escolha do especialista influencia diretamente o desfechoÂ
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A demora em procurar um ortopedista especializado em joelho costuma ter um custo que o paciente só percebe depois. Lesões de menisco diagnosticadas tardiamente progridem para artrose precoce.
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Rupturas de ligamento cruzado não tratadas levam à instabilidade crônica e ao desgaste assimétrico da articulação. Casos que poderiam ser resolvidos com fisioterapia ou artroscopia minimamente invasiva acabam exigindo prótese total de joelho dez ou quinze anos depois.
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A escolha do profissional também faz diferença concreta no resultado. A ortopedia é uma especialidade ampla, e dentro dela existem subespecialidades reconhecidas pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, como cirurgia do joelho, cirurgia da coluna, ombro e cotovelo, mão, quadril e pé e tornozelo. Conhecer o histórico, a formação e o volume cirúrgico de profissionais da área se tornou parte da rotina de quem busca tratamento.
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Plataformas como o Conselho Regional de Medicina e os perfis institucionais de melhores ortopedistas reúnem informações de credenciamento, registros de RQE e atualização cientÃfica que ajudam o paciente a verificar se o médico realmente tem subespecialização naquela articulação especÃfica.
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Para o caso do joelho, a recomendação das sociedades médicas é clara. O paciente deve buscar um ortopedista que tenha cursado residência em ortopedia e traumatologia e, em seguida, especialização em cirurgia do joelho, com filiação à Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho ou à Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte.
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O número de procedimentos realizados por ano também é um indicador relevante, já que o domÃnio técnico em artroplastia e artroscopia depende de volume cirúrgico.
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Goiânia e o avanço do turismo médico ortopédico
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Embora Minas Gerais tenha rede ortopédica estruturada em Belo Horizonte, Uberlândia, Juiz de Fora e Montes Claros, o turismo médico para procedimentos de joelho cresceu na última década, e parte dos pacientes mineiros tem se deslocado para o Centro-Oeste em busca de cirurgiões com agenda mais rápida e menor custo total.
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Goiânia, por exemplo, concentra cerca de 85% das artroplastias de joelho realizadas pelo SUS no estado de Goiás, conforme análise publicada na revista do CEREM-GO com base em dados do DATASUS. Estima-se que 57% dos visitantes que chegam à capital goiana para tratamento de saúde busquem atendimento especializado, incluindo procedimentos ortopédicos.
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A consolidação de polos regionais de ortopedia atende a uma demanda represada do paciente brasileiro. As regiões Sul e Sudeste, segundo levantamento da Revista Brasileira de Ortopedia, mantêm as melhores relações assistenciais para artroplastia de joelho, com 8,07 e 6,07 procedimentos por 100 mil habitantes, respectivamente.
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Mas o tempo médio de espera ainda é apontado como o principal gargalo por associações de pacientes em Belo Horizonte e no interior. Para muitos mineiros, a alternativa de buscar um ortopedista de joelho com agenda aberta em outra capital se tornou um caminho viável, especialmente em casos avançados que não admitem espera prolongada sem comprometer a função articular.
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Prevenção ainda é o ponto crÃtico no enfrentamento do problemaÂ
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A literatura ortopédica é consistente quanto ao papel do peso corporal na proteção articular. Reduções de cinco a dez quilos em pacientes obesos diminuem significativamente a dor e atrasam a evolução da artrose, segundo metanálises publicadas pela revista britânica The Lancet. O fortalecimento de quadrÃceps e glúteos, por sua vez, redistribui carga sobre a articulação e reduz a sobrecarga sobre a cartilagem.
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A atividade fÃsica orientada, com avaliação prévia, costuma ser melhor recebida pelo paciente quando entra como prescrição médica do que quando aparece como sugestão genérica.
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Em Belo Horizonte, programas como o Academia da Cidade oferecem acompanhamento gratuito em mais de setenta polos espalhados pela capital, com instrutores capacitados a adaptar exercÃcios para quem tem dor articular.
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A integração entre ortopedia, fisioterapia e educação fÃsica estruturada é o que diferencia o paciente que envelhece com mobilidade preservada daquele que entra em fila de prótese aos 65 anos.
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Desafios para o sistema de saúde mineiroÂ
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A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais tem ampliado o número de centros de referência ortopédica nas macrorregiões, mas o tempo de espera para cirurgia eletiva de joelho ainda supera a média recomendada pelo próprio Ministério da Saúde em várias regionais.
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O envelhecimento da população mineira, somado ao avanço da obesidade entre adultos jovens, sugere que a demanda continuará crescendo. Projeções do IBGE indicam que o número de brasileiros com mais de 60 anos deve ultrapassar 58 milhões até 2060, e Minas Gerais é hoje o segundo estado mais populoso do paÃs.
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Diante desse cenário, especialistas defendem três frentes simultâneas. A primeira é o reforço da atenção básica para diagnóstico precoce de osteoartrose, com encaminhamento ágil para fisioterapia antes da progressão.
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A segunda é o investimento em centros regionais de cirurgia ortopédica fora de Belo Horizonte, descentralizando o atendimento de média e alta complexidade. A terceira, talvez a mais difÃcil, é a integração entre saúde pública e polÃticas de combate à obesidade, já que sem reduzir a carga sobre a articulação, nenhum sistema sobrevive ao volume de cirurgias projetado.
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A dor no joelho deixou de ser um problema individual e privado para se tornar um indicador de saúde pública mineira. Tratá-la com a mesma prioridade que doenças cardiovasculares e diabetes, com as quais frequentemente coexiste, é o que separa um sistema que cuida de seus pacientes daquele que os atende apenas quando a única saÃda restante é a sala de cirurgia.