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Uma verdadeira novela do luxo virou caso de Justiça em São Paulo. Marcelo Assad Scaff Filho, renomado joalheiro, acusa a socialite Margareth Costa Carvalho de deixar uma dÃvida milionária e reter joias avaliadas em R$ 40 milhões. Enquanto ele afirma que as peças foram vendidas e não pagas, a socialite garante que tudo está quitado e questiona a autenticidade de alguns itens.
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No universo das joias de alta grife, muitas negociações acontecem longe das vitrines das lojas, com acordos informais e, frequentemente, sem emissão de nota fiscal. Esse contexto complica a comprovação de quem realmente é comprador ou vendedor, conforme explica um especialista ouvido pelo "Fantástico". O programa mostrou como essa briga foi parar na Justiça.
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Brilho, ostentação e controvérsia
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Margareth é conhecida por colecionar joias exuberantes, que fazem dela uma referência em extravagância na Grande São Paulo. Sua residência luxuosa, com 2 mil metros quadrados e detalhes folheados a ouro, é reflexo do gosto por peças únicas - muitas inspiradas em celebridades internacionais como as Kardashians e Lady Gaga.
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Marcelo relata que a socialite solicitava reproduções dessas joias exclusivas e, em parceria com sua filha Caroline, ostentava as peças nas redes sociais e viagens, como um passeio pela Costa Amalfitana.
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A disputa que chegou à Justiça
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O impasse surgiu após Margareth encomendar joias para um evento na Sardenha, Itália. Segundo Marcelo, ela nunca efetuou o pagamento nem devolveu os itens, cujo valor ultrapassa os R$ 40 milhões, apesar da nota fiscal inicial indicar apenas R$ 246 mil - emitida como consignação, prática comum no mercado para permitir experimentação e possÃvel devolução.
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Por sua vez, a defesa de Margareth alega que foi o joalheiro quem optou pela nota de consignação para evitar impostos, e que a socialite cumpriu todas as suas obrigações financeiras. Ricardo dos Santos Maciel, advogado da socialite, afirma: "Ela solicitou pra ele a nota fiscal. Só que pra gerar uma nota fiscal de compra e venda, ele teria que pagar imposto. Me parece que ele não quis."
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Entretanto, mensagens de áudio trocadas entre as partes revelam cobranças diretas da socialite por essas consignações, sugerindo outra versão dos fatos.
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Troca de acusações e desdobramentos
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Após o retorno da viagem, Margareth começou a questionar o valor das joias, acusando Marcelo de fornecer peças falsas e condicionando o pagamento à substituição dos produtos. Marcelo, por sua vez, ajustou a nota fiscal, atualizando o valor para o montante correto, bem acima do inicial.
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"A nota fiscal de consignação pode ser ajustada, conforme previsto na legislação tributária", explica o economista Alexandre Evaristo Pinto, da FEA/USP. Tentativas de acordo não prosperaram. Margareth afirmou que não abriria mão das joias, referindo-se a elas como seus "bebês". A disputa extrapolou para o mercado paulista de luxo, revelando a fragilidade das transações informais que dificultam a fiscalização e a transparência.
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Posições dos envolvidos
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O advogado de Margareth destaca que não há calote, pois a responsabilidade da emissão da nota fiscal cabe ao vendedor, e que sua cliente seguiu o procedimento correto. Já a defesa de Marcelo acusa a socialite de fraude no processo e afirma que quase 200 joias foram vendidas e registradas adequadamente ao longo dos anos - apenas as 11 peças questionadas não tiveram nota fiscal emitida.
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Um termo de quitação apresentado pela defesa de Margareth, datado de abril de 2024, confirma o pagamento até aquela data. Marcelo rebate, esclarecendo que esse documento não cobre os valores disputados na ação judicial. Além disso, ele aponta que Margareth continuou comprando e pagando parceladamente após o termo.
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No meio dessa controvérsia, a filha da socialite, Caroline, também está envolvida em acusações relacionadas a compras não pagas e devoluções com supostas avarias.
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A advogada de Margareth, Samara Souza Maciel, rejeita as acusações e defende que mãe e filha estão sendo injustamente perseguidas, afirmando ainda que Marcelo teria débitos com Caroline.
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Especialista alerta sobre prática comum e ilegal
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Apesar de ser rotina no mercado de luxo, a negociação de joias sem emissão de nota fiscal é ilegal e prejudica não só a arrecadação pública, mas todo o sistema econômico, ressalta Alexandre Evaristo Pinto.
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Assim, o caso expõe não apenas um conflito milionário, mas as falhas estruturais de um setor marcado por informalidade e disputas que podem custar caro - para quem compra, vende e para a Justiça.