Em tempos de canetas emagrecedoras, perder a fome quase virou sinônimo de sucesso. Mas o relato de Ingrid Guimarães colocou outra questão nessa conversa. A atriz contou que experimentou uma dessas medicações por uma motivação estética, para perder cerca de três quilos, e percebeu que, junto com o apetite, desapareceram também a energia e o prazer que sentia ao comer. A experiência foi resumida por ela de maneira contundente: sentiu que havia “emagrecido” também a vontade de viver.




 

A fala chama atenção justamente porque toca em um ponto pouco discutido na febre dos medicamentos para emagrecimento: qual é o limite entre reduzir o apetite e perder o interesse por experiências que antes davam prazer?

 

Para o Dr. Renato Reis, endocrinologista e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o primeiro cuidado é não transformar medicamentos em atalhos para pequenas perdas de peso motivadas exclusivamente pela estética.

 

“São medicamentos que possuem indicações específicas e precisam de acompanhamento. Quando existe uma redução muito importante do apetite, o paciente pode passar a ingerir menos energia, proteína e nutrientes do que necessita. Náuseas e outros efeitos gastrointestinais também podem aparecer. Se junto com a perda de peso surgem fraqueza, indisposição ou perda de massa muscular, precisamos olhar para a qualidade desse emagrecimento, e não comemorar apenas o número da balança”, explica.

 

Quando não é só a fome que desaparece

 

Comida também é prazer, memória, encontro e vida social. É nesse ponto que o relato de Ingrid ultrapassa a endocrinologia e chega à saúde mental.




 

Para a Dra. Camilla Nicolucci, médica psiquiatra e pesquisadora, sentir menos vontade de comer não deve ser automaticamente confundido com depressão. O sinal de atenção aparece quando a falta de interesse começa a alcançar outras áreas da vida.

 

“Existe uma diferença entre ter o apetite reduzido e perceber uma perda generalizada da capacidade de sentir prazer. Se a pessoa começa a apresentar apatia, deixa de se interessar por atividades que antes gostava, se isola, perde motivação ou percebe uma mudança persistente no humor, isso merece avaliação. Não podemos concluir que uma medicação provocou depressão a partir de um relato individual, mas também não devemos considerar normal perder qualidade de vida para emagrecer”, explica.

 

A discussão se torna ainda mais importante em uma cultura na qual perder “só três quilinhos” parece justificativa suficiente para recorrer a uma intervenção farmacológica.




 

“Uma coisa é tratar obesidade ou outra condição para a qual determinado medicamento esteja indicado. Outra é utilizar uma medicação porque existe uma pressão para atingir rapidamente um determinado corpo. A avaliação médica existe justamente para pesar indicação, benefício, risco e possíveis efeitos adversos”, reforça Renato.

 

O relato de Ingrid talvez seja um lembrete oportuno em plena era das canetas: emagrecer não deveria significar diminuir também aquilo que dá prazer à vida. Se a balança cai enquanto disposição, músculos, humor e bem-estar vão embora junto, é preciso questionar que tipo de resultado está sendo perseguido. 

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