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A disputa judicial entre a ex-bailarina CÃntia Cristina de Mello e o apresentador Ratinho ganhou novos contornos, e a coluna Daniel Nascimento teve acesso aos autos do processo movido por ela contra o comunicador e o SBT. CÃntia, que acusa o apresentador de ter feito um comentário de cunho racista durante uma edição do "Programa do Ratinho" exibida em 1º de abril de 2024 - quando ainda integrava o balé após quase nove anos na atração - decidiu recorrer à Justiça para buscar reparação.
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Segundo a artista, a fala ao vivo provocou humilhação nacional, repercussão negativa e uma onda de ataques nas redes sociais. Por isso, ela ingressou com uma ação pedindo R$ 2 milhões por danos morais, além de exigir que Ratinho e a emissora publiquem a Ãntegra da decisão judicial em veÃculos de grande circulação.
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Nos documentos, Ratinho e o SBT negam qualquer intenção discriminatória e afirmam que tudo não passou de uma brincadeira habitual do formato humorÃstico do programa. A defesa do apresentador sustenta ainda que CÃntia teria dito inicialmente que não se sentiu ofendida, acusando-a de inflar o valor solicitado. A bailarina rebate, dizendo que a situação extrapolou todos os limites e que o constrangimento público não pode ser tratado como simples entretenimento.
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O juiz responsável já delimitou o que será analisado: se houve conduta discriminatória, se a bailarina sofreu efetivamente dano moral e se uma retratação pública é necessária. Uma tentativa de conciliação ocorreu no CEJUSC, em julho de 2025, mas terminou sem acordo - o que empurrou o processo para uma fase ainda mais delicada.
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A Justiça marcou para janeiro de 2026, em São Paulo, a audiência de instrução e julgamento. Ratinho, representantes do SBT e todas as testemunhas indicadas serão ouvidos formalmente. A emissora também foi intimada a comprovar o pagamento do conciliador, sob risco de inscrição em dÃvida ativa.
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Com a audiência definida e a produção de provas autorizada, o processo entra em seu momento mais decisivo. Somente após a análise dos depoimentos e dos vÃdeos anexados o magistrado irá determinar se o episódio caracterizou racismo, como a bailarina sustenta, ou se foi apenas uma brincadeira mal interpretada, conforme argumenta a defesa. A coluna seguirá acompanhando cada nova movimentação desse caso que continua repercutindo intensamente.
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Relembre o episódio
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Durante o programa exibido em 1º de abril de 2024, no SBT, Ratinho fez comentários considerados racistas sobre o cabelo black power da dançarina. Ele questionou se os fios eram uma peruca, pediu que outra integrante do balé puxasse o cabelo para "verificar" e ainda insinuou a presença de piolhos - atitude que, segundo CÃntia, a expôs de maneira vexatória em rede nacional.
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A bailarina contou que procurou a direção da atração esperando um pedido de desculpas público, mas afirmou não ter recebido retorno. Após o episódio, relatou notar "olhares hostis" nos bastidores do SBT. Sem apoio interno, pediu demissão e publicou um vÃdeo em suas redes detalhando o ocorrido.
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Ratinho negou qualquer atitude racista e mencionou ter profissionais negros em sua equipe há anos, como o personagem "Zé Pretinho", para justificar seu comportamento. A defesa foi contestada por CÃntia, que lembrou que conviver com pessoas negras não torna ninguém automaticamente antirracista e que o apresentador precisava de "letramento racial".
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Com a repercussão, a artista disse ainda ter sido alvo de ataques virtuais e boicotes de empresas parceiras, situação que, segundo ela, se agravou após Ratinho comentar o caso publicamente em outra ocasião.