Estar no mesmo sofá, dividir a cama ou sair para jantar não significa necessariamente estar junto. Basta uma tela acesa para que uma conversa seja interrompida, um olhar deixe de acontecer ou um momento a dois seja preenchido por notificações. O comportamento ganhou até um nome, "presença ausente", e voltou ao debate sobre relacionamentos depois de Esther Perel apontar o excesso de telas como um dos fatores que vêm enfraquecendo a conexão entre casais.




 

Para Esther, psicoterapeuta especializada em relacionamentos e autora de livros sobre intimidade e desejo, a vida mediada por telas pode reduzir justamente aquilo que sustenta a conexão, como contato, troca e experiências compartilhadas.


Quando estar perto não significa estar disponível

 

O celular pode entrar na relação de maneiras discretas. Uma pessoa começa a responder mensagens enquanto a outra fala, o casal assiste à televisão cada um olhando para sua própria tela ou os dois passam parte da noite alternando entre conversa e redes sociais.

 

Isoladamente, esses momentos podem parecer banais. O problema aparece quando se tornam a dinâmica predominante. Uma pesquisa conduzida por Perel com mais de mil brasileiros identificou justamente a sensação de dividir o mesmo espaço sem compartilhar verdadeiramente a experiência como uma das principais queixas afetivas.




 

O chamado phubbing, termo usado para descrever o ato de ignorar alguém em favor do celular, também entrou no debate sobre relacionamentos. Especialistas ouvidos pelo gshow destacaram que a falta de atenção pode gerar sensação de rejeição e afetar a conexão e o desejo entre parceiros.

 

O impacto pode chegar ao desejo

 

A intimidade depende de mais do que tempo compartilhado. Olhar, toque, conversa e atenção ajudam a construir uma sensação de proximidade que não é facilmente reproduzida quando cada pessoa está concentrada em uma tela.

 

É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas sobre etiqueta digital. Quando a atenção do casal está constantemente dividida, a relação pode ficar cada vez mais funcional. Há espaço para organizar a rotina, resolver tarefas e trocar informações, mas menos oportunidades para simplesmente estar com o outro.




 

Perel tem associado esse cenário a uma espécie de empobrecimento da experiência presencial. Em entrevista recente, ela afirmou que a rotina mediada por telas pode reduzir o contato com o corpo, os sentidos e a espontaneidade, elementos que também fazem parte da construção do desejo. 

 

Não é preciso transformar o celular em vilão

 

A solução não está necessariamente em abandonar a tecnologia ou estabelecer uma regra rígida para o casal. O ponto é perceber quando o aparelho deixa de ser uma ferramenta e passa a disputar espaço com a pessoa que está ao lado.

 

Criar momentos em que a atenção esteja realmente voltada um para o outro pode ser mais significativo do que simplesmente determinar algumas horas sem celular. Perel defende, por exemplo, a retomada de experiências compartilhadas, como fazer uma atividade juntos, visitar uma exposição, praticar um esporte ou assistir a um show. A proposta é recuperar situações em que o casal esteja envolvido na mesma experiência, e não apenas no mesmo ambiente. 




 

Também vale observar como cada pessoa percebe a situação. Para alguém, responder uma mensagem durante o jantar pode não representar problema algum. Para outra, pode transmitir desinteresse. Conversar sobre essa diferença evita que o incômodo apareça apenas na forma de cobrança.

 

No fim, a discussão sobre a "presença ausente" não é uma defesa de uma vida sem telas. É sobre o que acontece quando estar conectado o tempo todo começa a significar estar menos disponível para quem está fisicamente ao lado. Em uma rotina cada vez mais digital, recuperar a atenção pode ser uma das formas mais simples de preservar a intimidade.

 

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