Responder mensagens enquanto se trabalha, organizar a agenda, acompanhar metas, cuidar da casa, manter o corpo em forma, dar conta dos filhos e ainda encontrar tempo para o relacionamento. A lista de coisas a fazer parece não terminar e, para algumas pessoas, o sexo entrou na mesma lógica. Ele passa a ser mais um item a encaixar na rotina, uma atividade a ser melhorada ou até uma meta de casal. O problema é que desejo não funciona necessariamente como produtividade: quanto mais tentamos controlá-lo, menos espontâneo ele pode se tornar.
A psicoterapeuta Esther Perel voltou recentemente ao tema ao discutir o impacto da produtividade e das telas nos relacionamentos. Em entrevista à "Folha de S.Paulo", ela afirmou que a busca excessiva por aperfeiçoamento individual e a rotina mediada por dispositivos têm criado novas formas de afastamento entre as pessoas. Para Perel, relações que deveriam oferecer conexão acabam submetidas a uma lógica funcional, em que até os sentimentos são tratados como algo a ser administrado.
A questão não é simplesmente ter uma vida corrida. O que muda é a maneira como a pressa e a necessidade de controle passam a organizar também os momentos de intimidade. Quando o sexo precisa acontecer em determinado dia, durar determinado tempo ou cumprir uma expectativa específica, ele pode deixar de ser uma experiência e virar desempenho.
O desejo não funciona como uma lista de tarefas
A ideia aparece em diferentes reflexões de Perel sobre sexualidade. Em seu trabalho sobre relacionamentos de longa duração, a psicoterapeuta diferencia intimidade e desejo: enquanto a primeira está associada à proximidade, segurança e familiaridade, o segundo também depende de espaço, novidade e uma certa dose de mistério. Para ela, quando a relação se transforma em uma fusão completa, a falta de distância pode reduzir justamente o espaço necessário para a imaginação e a vontade.
É aí que a lógica da produtividade entra em choque com a vida erótica. No trabalho, controlar variáveis, estabelecer metas e medir resultados pode ser desejável. No sexo, porém, não existe necessariamente uma métrica capaz de dizer se uma noite foi “bem-sucedida”. Quantas vezes o casal transou no mês, quanto tempo durou, quem chegou ao orgasmo primeiro ou se a frequência aumentou são números que podem até descrever uma vida sexual, mas não necessariamente dizem se ela é satisfatória.
A própria Perel já chamou atenção para o problema de transformar a sexualidade em uma espécie de contabilidade. Em um texto sobre relacionamentos sem sexo, ela argumenta que a obsessão pela frequência e pela quantidade de orgasmos pode tirar o foco do desejo. Afinal, é possível estabelecer uma meta para transar mais, mas não simplesmente determinar que se quer alguém em determinado momento.
Quando o casal começa a 'otimizar' a intimidade
A linguagem da produtividade aparece de formas bastante familiares. "Precisamos transar mais." "Estamos há semanas sem fazer sexo." "Temos que marcar um dia." "Precisamos melhorar nossa vida sexual." Embora essas frases possam ser tentativas legítimas de enfrentar uma dificuldade, elas também podem transformar a intimidade em mais uma tarefa pendente.
Isso não significa que planejar sexo seja necessariamente ruim. Para casais com filhos, jornadas de trabalho diferentes ou pouca disponibilidade de tempo, combinar um momento de intimidade pode ser uma solução prática. A diferença está no que acontece depois: o encontro pode ser um espaço reservado para os dois ou apenas mais um compromisso na agenda.
A própria Perel reconhece que sexo pode ficar em segundo plano quando há filhos, trabalho, cuidados com outras pessoas e cansaço. Em um texto sobre desejo, ela observa que muitas pessoas querem ter relações, mas estão exaustas demais para priorizá-las; quanto mais tempo passa, porém, mais difícil pode ficar retomar a iniciativa.
O celular entra na equação
A produtividade contemporânea também tem outro aliado: as telas. O trabalho não necessariamente termina quando a pessoa deixa o escritório. E-mails, mensagens, reuniões virtuais e notificações acompanham o indivíduo até o sofá, a cama e, muitas vezes, o momento que deveria ser dedicado ao parceiro.
Em uma reflexão publicada em abril de 2026, Perel descreveu justamente essa sensação de viver em um estado de permanente aceleração, em que as pessoas tentam administrar trabalho, família, autocuidado e relações enquanto disputam atenção com os dispositivos. A pergunta central, segundo ela, é como recuperar a atenção e o afeto para as pessoas que estão fisicamente ao nosso lado.
Não é difícil reconhecer a cena: duas pessoas deitadas na mesma cama, cada uma olhando para a própria tela. Há proximidade física, mas pouca disponibilidade. E desejo depende de atenção, não necessariamente de atenção constante ao parceiro, mas da possibilidade de perceber o outro e também de perceber a si mesma.
Por que o desejo precisa de espaço
Há um paradoxo no modo como pensamos os relacionamentos: queremos intimidade suficiente para nos sentirmos seguros, mas também precisamos de alguma autonomia para continuar enxergando o outro como alguém separado de nós. Perel descreve essa tensão como uma espécie de dança entre proximidade e distância. Para ela, a ausência e a possibilidade de sentir saudade podem devolver ao parceiro uma dimensão de mistério que a rotina tende a apagar.
Isso ajuda a explicar por que desejo e intimidade não são exatamente sinônimos. Conhecer profundamente alguém pode aumentar a segurança e o vínculo, mas a previsibilidade absoluta não necessariamente favorece o erotismo. O desejo costuma precisar de curiosidade, imaginação e novidade, elementos difíceis de produzir quando cada minuto da vida está previamente organizado.
Não se trata, portanto, de defender uma vida caótica ou abandonar a rotina. É mais simples: nem tudo precisa ser otimizado. Algumas experiências perdem justamente aquilo que as torna prazerosas quando passam a ser avaliadas o tempo todo.
E se o sexo não precisasse ser 'melhorado'?
Talvez uma mudança esteja em trocar a pergunta "como melhorar minha vida sexual?" por outra menos orientada a resultados: o que desperta meu desejo? A diferença parece pequena, mas muda o foco da performance para a experiência.
Perel também propõe abandonar a obrigação de encontrar imediatamente uma solução para uma dificuldade sexual. Em sua abordagem, conversar sobre desejo pode ser mais importante do que tentar "consertar" uma frequência considerada inadequada. A curiosidade sobre o que cada pessoa quer, gosta ou sente falta pode abrir espaço para uma intimidade menos baseada em cobrança.
No fim, o desejo talvez seja justamente uma das áreas da vida que resistem à lógica do desempenho. Não há planilha capaz de garantir química, aplicativo que produza espontaneidade ou meta que faça alguém sentir vontade. Em uma rotina cada vez mais organizada para economizar tempo, talvez preservar algum espaço para o imprevisto seja menos uma perda de produtividade do que uma forma de recuperar aquilo que não deveria ter virado tarefa.