Se durante a semana o sexo costuma disputar espaço com despertador, trânsito, trabalho, filhos e cansaço, o domingo oferece uma vantagem pouco sofisticada, mas bastante prática: tempo. Sem a obrigação de sair correndo da cama, a manhã pode se transformar em uma oportunidade para a intimidade que dificilmente aparece nos outros dias. E há pesquisas e especialistas que ajudam a explicar por que o fim de semana, especialmente o domingo, pode ser um momento interessante para transar.
Isso não significa, porém, que exista um "melhor dia" universal para o sexo. Desejo, rotina, idade, relacionamento e preferência pessoal pesam muito mais do que o calendário. Ainda assim, estudos sobre comportamento sexual encontram diferenças na frequência das relações ao longo da semana. Uma pesquisa publicada décadas atrás, por exemplo, identificou aumento das relações aos sábados e domingos, com o domingo apresentando a maior taxa entre os dias analisados. O levantamento também encontrou que, nos fins de semana, a concentração de relações pela manhã e à tarde contribuía para essa diferença.
Mais recentemente, uma pesquisa com participantes de diferentes relacionamentos encontrou outro fator importante: o sexo não acontece isoladamente do restante da vida. Em um estudo com 287 pessoas casadas acompanhadas diariamente durante 12 dias, satisfação sexual e satisfação conjugal apareceram associadas em ambas as direções. O estresse também influenciou essa relação, reforçando como o estado emocional do casal pode interferir na experiência.
Por que a manhã pode ajudar
Um dos principais argumentos a favor do sexo matinal é menos glamouroso do que parece: energia. Depois de uma noite de sono, algumas pessoas estão menos cansadas do que estariam no fim do dia. Isso pode fazer diferença para quem costuma chegar à noite sem disposição para qualquer coisa além de dormir.
Também existe uma questão hormonal. Os níveis de testosterona, por exemplo, apresentam variações ao longo do dia, embora isso não permita afirmar que todas as pessoas terão mais desejo pela manhã. O desejo sexual é resultado de uma combinação muito mais complexa de fatores físicos, psicológicos e relacionais. Por isso, a ideia de que "os hormônios estão no auge de manhã, então esse é o melhor horário para fazer sexo" é uma simplificação.
Há, por outro lado, evidências de que a atividade sexual pode estar associada a efeitos positivos sobre estresse, humor e sono. Um estudo recente, que reuniu dados de mais de 8 mil pessoas e mais de 66 mil observações, encontrou que, nas manhãs seguintes a noites em que os participantes relataram ter feito sexo, houve associação com melhor qualidade do sono, menos estresse, menor pressão arterial e emoções mais positivas. O resultado mostra uma relação entre os eventos, mas não significa que o sexo seja, sozinho, responsável por todos esses efeitos.
E por que domingo?
A resposta provavelmente está menos no domingo em si do que no que o domingo representa. Para quem não trabalha nesse dia, a manhã costuma ter menos compromissos imediatos. Não há necessariamente a mesma pressão para acordar, tomar banho, se vestir e sair de casa em poucos minutos. O casal pode permanecer na cama por mais tempo, conversar, trocar carinhos e deixar a intimidade acontecer sem a sensação de estar atrasado.
Essa disponibilidade também pode ser importante para o desejo. Nem sempre ele aparece antes do contato físico. A chamada excitação ou desejo responsivo descreve justamente situações em que a vontade surge em resposta à proximidade, ao toque ou à própria interação, em vez de aparecer espontaneamente antes dela. O Instituto Gottman usa o exemplo de uma manhã de domingo para explicar como um casal pode começar o dia sem estar particularmente excitado e, a partir da aproximação, perceber que o desejo aparece.
É uma diferença importante para quem espera sentir vontade de sexo antes de começar qualquer aproximação. Em relacionamentos longos, o desejo nem sempre funciona como um interruptor que simplesmente liga. Criar espaço para intimidade pode ser parte do processo — desde que haja interesse e consentimento dos dois.
O sexo também pode ser uma pausa na rotina
Outro aspecto é a relação entre estresse e vida sexual. Pesquisas com casais mostram que as pressões do cotidiano podem afetar a atividade sexual e a satisfação no relacionamento. Em um estudo com 657 mulheres casadas, por exemplo, atividade sexual foi menos frequente em dias de semana do que nos fins de semana e feriados, enquanto estresse e cansaço estiveram associados a menor atividade sexual.
Isso ajuda a explicar por que sábado e domingo aparecem com frequência como momentos mais propícios. Não necessariamente porque o corpo tenha um "relógio sexual" que determine o fim de semana, mas porque a agenda permite.
Uma pesquisa sobre sexo matinal citada pela Women's Health também encontrou que, entre pessoas que costumavam fazer sexo pela manhã, sábado e domingo eram apontados como os dias preferidos. O levantamento, porém, não permite concluir que sexo matinal cause maior satisfação no relacionamento; participantes que se declaravam satisfeitos com a relação também relatavam mais sexo pela manhã, e a própria publicação ressalta que não é possível estabelecer qual fator vem primeiro.
Então, domingo de manhã é melhor?
Pode ser — se funcionar para o casal. A ciência não sustenta a ideia de que domingo seja fisiologicamente superior aos demais dias. O que existe é uma combinação de circunstâncias que pode torná-lo conveniente: mais tempo, menos compromissos, possibilidade de dormir mais e menor pressão para encerrar rapidamente a intimidade.
Para algumas pessoas, o melhor momento continuará sendo à noite. Para outras, uma manhã de domingo pode ser justamente quando o desejo encontra uma rotina menos acelerada. O ponto talvez seja menos descobrir o horário perfeito e mais perceber em que momento o casal tem disponibilidade física e mental para estar junto.
E há uma última vantagem: começar o domingo assim pode significar simplesmente começar o dia sem a pressa habitual. O que acontece depois — café da manhã, passeio, preguiça ou mais uma hora na cama — fica por conta de cada casal.