O celular pode estar na cama sem participar diretamente do sexo e, ainda assim, interferir na intimidade do casal. Uma mensagem que chega no meio da conversa, a checagem das redes sociais antes de dormir ou alguns minutos de rolagem enquanto o parceiro tenta iniciar uma aproximação parecem atitudes pequenas, mas podem mudar a qualidade daquele encontro. O fenômeno ganhou até nome: phubbing, termo criado a partir da junção de "phone" e "snubbing", usado para descrever quando alguém ignora ou interrompe a interação com outra pessoa por causa do telefone.
A questão não é simplesmente quanto tempo alguém passa diante da tela. O que chama atenção dos pesquisadores é o momento em que o aparelho começa a ocupar o espaço que antes seria destinado à conversa, à atenção e à proximidade. Uma meta-análise publicada em 2025, que reuniu 52 estudos e quase 20 mil participantes, encontrou associação entre o chamado partner phubbing e menor satisfação no relacionamento, intimidade, capacidade de resposta e proximidade emocional.
Quando o celular entra no meio da intimidade
O impacto pode começar muito antes de o casal chegar ao sexo. Uma conversa interrompida por notificações, por exemplo, pode transmitir a sensação de que existe algo mais interessante acontecendo na tela. Quando isso se repete, o parceiro pode passar a se sentir colocado em segundo plano.
Estudos sobre o fenômeno indicam que a sensação de exclusão e a percepção de que o outro está menos disponível ajudam a explicar a associação entre o uso do celular durante momentos compartilhados e a menor satisfação com a relação. Em uma pesquisa com casais, esses sentimentos apareceram como fatores mais importantes do que ciúme ou conflitos provocados diretamente pelo aparelho.
É nesse ponto que a tecnologia pode atravessar a vida sexual. O desejo não depende apenas de estímulos físicos. Atenção, conexão e sensação de disponibilidade também fazem parte da experiência de intimidade. Se um dos parceiros está constantemente dividido entre a pessoa ao lado e o que acontece na tela, a aproximação pode perder espaço.
A tela pode esfriar o desejo?
Não há evidência de que simplesmente usar o celular faça uma pessoa perder o desejo sexual. A relação é mais complexa. O que os estudos permitem observar é uma associação entre o uso do aparelho em momentos de interação e indicadores menos favoráveis da qualidade do relacionamento.
Uma pesquisa publicada em 2023, por exemplo, mostrou que a percepção de phubbing pelo parceiro estava relacionada a uma pior avaliação da qualidade da relação no dia a dia. O resultado traz uma nuance importante: não é apenas o comportamento em si que importa, mas a maneira como ele é percebido por quem está do outro lado.
Isso ajuda a entender por que a mesma situação pode ter efeitos diferentes em casais distintos. Para algumas pessoas, responder rapidamente a uma mensagem durante um momento juntos não representa nenhum problema. Para outras, o gesto pode ser interpretado como falta de interesse, especialmente quando acontece repetidamente.
E quando o celular vai para a cama?
O quarto costuma ser um dos principais lugares em que o uso do aparelho pode competir com a intimidade. O hábito de assistir a vídeos, responder mensagens ou navegar pelas redes antes de dormir prolonga o contato com estímulos externos justamente em um momento em que o casal poderia conversar, trocar carinho ou simplesmente estar junto.
Isso não significa que todo uso do celular na cama seja prejudicial. O problema aparece quando o aparelho passa a ocupar sistematicamente o lugar da interação entre os parceiros ou quando um deles sente que precisa disputar atenção com a tela.
A literatura sobre phubbing aponta justamente para esse mecanismo. Quando a pessoa percebe menor disponibilidade e menor responsividade do parceiro, a intimidade pode ser afetada.
O problema pode virar um ciclo
Existe ainda outro aspecto: a reação de quem se sente ignorado. Um estudo que acompanhou participantes durante dez dias encontrou que, nos dias em que eles percebiam mais phubbing do parceiro, também relatavam mais insatisfação com o relacionamento e maior irritação. Alguns respondiam ao comportamento com ressentimento, curiosidade ou até tentativas de retribuir a atitude.
Assim, uma situação inicialmente banal pode ganhar proporções maiores. Um pega o celular porque está cansado; o outro entende aquilo como desinteresse; passa a fazer o mesmo; os dois começam a se afastar durante os momentos de convivência. O aparelho deixa de ser apenas uma distração e passa a fazer parte da dinâmica do casal.
Uma pesquisa de 2025 também encontrou relação entre phubbing, padrões de comunicação em que um parceiro insiste enquanto o outro se afasta e menor satisfação conjugal. O resultado reforça a importância da comunicação para entender o que está por trás do uso excessivo do telefone.
Não é preciso demonizar o celular
O smartphone também faz parte da vida do casal. Pode servir para compartilhar uma notícia, mostrar uma foto, escolher um filme ou resolver alguma questão prática. Em determinadas situações, inclusive, o uso compartilhado do aparelho pode reduzir os efeitos negativos associados ao phubbing.
Por isso, transformar o celular em vilão talvez seja menos útil do que observar como ele está sendo usado e o que acontece com a relação quando ele aparece. Se os dois estão confortáveis com a presença do aparelho, não existe necessariamente um problema. Se um deles começa a sentir que precisa competir pela atenção do outro, a situação merece ser discutida.
A conversa pode ser simples. Em vez de estabelecer uma regra rígida sobre quantas horas o telefone pode ser usado, o casal pode combinar momentos em que a atenção fica exclusivamente entre os dois, principalmente quando estão conversando ou tentando se aproximar.
No sexo, isso pode fazer ainda mais diferença. Não porque o celular tenha o poder de acabar sozinho com o desejo, mas porque intimidade pressupõe presença. Quando a tela passa a ocupar constantemente esse espaço, o que está sendo interrompido não é apenas uma conversa: pode ser também a oportunidade de perceber o outro, criar expectativa e construir proximidade.