O beijo costuma ocupar um lugar curioso nos relacionamentos: pode ser o começo de uma história, uma demonstração de afeto ou simplesmente um gesto de desejo. Ainda assim, ele parece estar perdendo espaço na vida amorosa de parte dos adultos. Uma pesquisa recente realizada no Reino Unido identificou uma queda na frequência com que as pessoas dizem beijar romanticamente, enquanto relatos de insegurança e receio de rejeição aparecem com mais força entre os mais jovens. O fenômeno já ganhou até um nome: "kissing recession", ou "recessão do beijo".




 

Os números não permitem dizer que o beijo esteja desaparecendo e tampouco representam o comportamento de brasileiros ou de todas as gerações. Mas ajudam a observar uma mudança na forma como parte das pessoas se relaciona. No levantamento feito pela YouGov para o relatório Big Kiss Report, 35% dos adultos britânicos disseram beijar alguém romanticamente com menos frequência do que há cinco anos. Outros 19% afirmaram não ter beijado ninguém romanticamente havia mais de um ano. A pesquisa ouviu 2.078 adultos no Reino Unido, entre 15 e 18 de maio de 2026.

 

Quando o beijo vira motivo de insegurança

 

Entre os jovens de 18 a 24 anos ouvidos pela pesquisa, a preocupação com a própria performance aparece como um dos obstáculos. Quatro em cada dez disseram pensar demais sobre qual seria o momento certo para beijar alguém, enquanto 28% afirmaram ter receio de não beijar bem. Cerca de um terço contou já ter evitado a situação por falta de confiança.

 

A questão não parece estar apenas relacionada à falta de interesse. Para algumas pessoas, o problema é justamente o excesso de consciência sobre o que fazer, como interpretar os sinais do outro e qual seria a reação diante de uma possível rejeição.




 

Essa dificuldade também encontra respaldo em pesquisas sobre encontros presenciais. Um estudo publicado em 2024 no Journal of Anxiety Disorders, que acompanhou 108 jovens adultos durante 21 dias, observou que pessoas com transtorno de ansiedade social avaliavam os encontros de maneira mais negativa e apresentavam maiores aumentos de vergonha e constrangimento relacionados às experiências de namoro. O trabalho, porém, não encontrou diferença na frequência de uso de aplicativos ou de encontros entre os grupos.

 

Outro estudo, publicado no mesmo ano no Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, encontrou associação entre sintomas de ansiedade social, experiências de rejeição em aplicativos e efeitos emocionais negativos. Os autores observaram que pessoas com níveis mais altos de ansiedade social eram mais suscetíveis aos efeitos da rejeição durante o uso dessas plataformas.

 

Do encontro presencial para a tela

 

O contexto em que as pessoas se conhecem também mudou. Aplicativos ampliaram as possibilidades de encontrar parceiros, mas parte da interação passou a acontecer antes mesmo de um encontro cara a cara. Uma pesquisa publicada em 2026 no American Economic Journal: Applied Economics, que analisou a expansão do Tinder entre estudantes universitários, encontrou aumento da atividade sexual após a chegada do aplicativo, mas não um crescimento correspondente na formação de relacionamentos duradouros ou na qualidade das relações.




 

Isso não significa que os aplicativos sejam responsáveis pela redução dos beijos. A relação é mais complexa. A própria discussão recente sobre o assunto envolve mudanças no modo de socializar, menos oportunidades de encontros espontâneos, transformações na vida noturna e uma maior preocupação com rejeição e consentimento.

 

A socióloga Sarah Stein Lubrano, ouvida pelo Guardian na reportagem sobre o fenômeno, relaciona a dificuldade de iniciar relações à redução de interações presenciais e à perda de prática em habilidades sociais, como interpretar expressões faciais, linguagem corporal e outros sinais sutis. A ideia não é que todo mundo precise estar em um relacionamento, mas que a diminuição desses contatos pode afetar a maneira como as pessoas constroem vínculos.

 

O beijo mudou de significado

 

A transformação também pode ser observada por uma perspectiva histórica. Em The Kiss: A History of Passion and Power, a historiadora Katie Barclay, professora da Macquarie University, acompanha a trajetória do beijo ao longo de aproximadamente mil anos e mostra que seu significado nunca foi fixo. O gesto já esteve associado à religião, à política, à lealdade e às relações sociais antes de se consolidar como uma das principais expressões de intimidade romântica.




 

Para Barclay, o beijo também perdeu parte de sua presença à medida que a cultura passou a representar a sexualidade de outras maneiras. A autora argumenta que hoje beijamos menos pessoas e com menor frequência do que no passado, ao mesmo tempo em que o gesto se tornou mais associado ao campo privado e romântico.

 

Há ainda uma mudança importante na percepção sobre consentimento. O beijo, que durante muito tempo foi tratado como uma iniciativa espontânea, passou a ser observado também sob a perspectiva de limites e reciprocidade. Essa mudança é positiva, mas pode acrescentar uma camada de insegurança para quem já tem dificuldade de interpretar sinais ou teme ultrapassar o espaço do outro.

 

Menos beijo significa menos intimidade?

 

Não necessariamente. A pesquisa britânica identifica uma tendência em parte da população, mas não permite concluir que as pessoas estejam deixando de desejar proximidade ou que exista uma queda universal na importância do beijo. Aliás, os relatos reunidos na reportagem recente mostram justamente uma contradição: algumas pessoas sentem falta do contato físico, enquanto outras passaram a ser mais seletivas sobre quem desejam beijar.




 

Entre os entrevistados, há quem associe a ausência de beijos à falta de oportunidades para conhecer pessoas, enquanto outros dizem preferir esperar por uma relação em que exista confiança. Para essas pessoas, o gesto não perdeu valor; ganhou peso.

 

Talvez seja justamente essa a parte mais interessante da chamada "recessão do beijo". Mais do que uma mudança na frequência de um gesto físico, ela acompanha transformações na maneira como as pessoas se conhecem, demonstram interesse e lidam com a possibilidade de rejeição.

 

Em uma época em que boa parte da aproximação acontece por telas, o beijo continua sendo uma experiência essencialmente presencial e exige justamente aquilo que a vida digital nem sempre favorece: estar diante de outra pessoa, interpretar o momento e aceitar que nem toda tentativa terá o resultado esperado. 

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