A maior obra de infraestrutura subaquática do Brasil vai substituir o gargalo das balsas por uma ligação subterrânea contínua com acesso à BR-101 e ao Porto de Santos.
Por que o túnel é construído na superfície antes de ser afundado no mar?
Imagine tentar escavar um buraco no chão com a água do mar pressionando por cima. Escavar um túnel tradicional debaixo do fundo do oceano em solo argiloso exigiria perfurações extremamente profundas e dispendiosas, com alto risco de infiltração. Por isso, a engenharia optou pelo método de tubos imersos.
Nessa técnica, os módulos gigantescos de concreto são moldados em uma doca seca em terra firme. Quando ficam prontos, as pontas são vedadas temporariamente e as peças são rebocadas flutuando até o local exato da travessia. Assim, o concreto ganha cura perfeita em ambiente controlado antes de encarar a água salgada.

Quais são as dimensões e a capacidade técnica do túnel submerso?
A estrutura foi projetada para absorver o fluxo diário de milhares de veículos de passeio, caminhões e pedestres entre Santos e Guarujá, garantindo integração com os corredores rodoviários da região.
Extensão total da travessia: possui 1,5 quilômetro de comprimento total, dos quais 870 metros ficam totalmente submersos sob o leito do canal portuário.
- Profundidade de instalação no canal: instalado em uma trincheira dragada a mais de 21 metros de profundidade, garantindo o calado para navios cargueiros.
- Estrutura interna de rolamento: conta com seis faixas para veículos (três por sentido), além de calçadas exclusivas para pedestres, ciclovia e espaço adaptável para VLT.
- Investimento e concessão: orçamento total de R$ 6,8 bilhões com concessão de 30 anos gerida pela TSG Concessionária (Mota-Engil).
- Redução no tempo de deslocamento: diminui o percurso de quase 1 hora (ou até 40 km via rodovia) para menos de 5 minutos diretos entre Santos e Guarujá.
- Conexão rodoviária estratégica: liga a malha urbana de Santos ao Guarujá com acesso direto à Rodovia Cônego Domênico Rangoni e ao corredor da BR-101 (Rio-Santos).
Como os blocos gigantes de concreto são afundados sem deixar entrar água?
Quando o bloco chega sobre a trincheira no mar, tanques internos de água são preenchidos progressivamente. Esse peso controlado faz o elemento afundar devagar até pousar com precisão milimétrica nas bases instaladas no leito marítimo. Então, macacos hidráulicos e guinchos especiais ajustam o encaixe entre as seções.
Uma gaxeta gigante de borracha sintética faz a vedação primária da junta. Quando a água entre os blocos é bombeada para fora, a própria pressão hidrostática do oceano empurra um bloco contra o outro, criando um selamento definitivo. Por fim, o túnel é coberto com camadas de areia e rochas, permitindo que os navios continuem navegando normalmente por cima.
Como a engenharia afunda blocos de milhares de toneladas no mar?
O processo de transporte e assentamento de estruturas submersas exige cálculos rigorosos de empuxo e estabilidade hidrostática. Cada fase de descida depende do controle fino de lastro para evitar desalinhamentos no leito marinho.
Análises geotécnicas do solo marítimo e simulações de fluxo de água garantem que a estrutura suporte tanto a pressão externa quanto a movimentação regular de embarcações de grande porte.
Abaixo, um vídeo do canal Engenharia Detalhada que aprofunda o tema:
Quais normas técnicas garantem a impermeabilidade e a vida útil do túnel?
A construção de estruturas enterradas e imersas segue diretrizes internacionais rigorosas, como as especificações da ITA-AITES (International Tunnelling and Underground Space Association), além das normas brasileiras NBR 6118 para estruturas de concreto armado e NBR 12655 para dosagem e durabilidade do concreto em meio marinho agressivo.
Essas normas exigem uma espessura reforçada de cobrimento do aço e o uso de aditivos impermeabilizantes na mistura do concreto. Assim, a armadura interna fica protegida contra os íons de cloreto da água do mar, estendendo a vida útil da obra para mais de 100 anos.

Quando é necessário contratar um engenheiro geotécnico em obras subterrâneas?
Sempre que uma intervenção envolva escavação profunda, contenção de encostas ou fundações em solos moles e encharcados, a presença de um engenheiro geotécnico e de um engenheiro especialista em estruturas subaquáticas é indispensável. Eles realizam sondagens avançadas para mapear a capacidade de carga do terreno.
Projetar passagens subterrâneas sem esse respaldo pode causar colapsos estruturais ou infiltrações irreversíveis provocadas pelo lençol freático. Por isso, a estabilidade de obras de grande porte depende de análises de pressão e estanqueidade conduzidas por especialistas qualificados.
Contexto importante: Este artigo é informativo. Para projetos estruturais locais similares, recomenda-se avaliação de engenheiro geotécnico ou especialista em estruturas subaquáticas, especialmente em contextos de risco de vazamento, infiltração ou instabilidade geotécnica.

