Quando o sol aquece o asfalto ao meio-dia, estruturas colossais de concreto e aço chegam a crescer dezenas de centímetros sem que você perceba.
Por que pontes e viadutos esticam e encolhem todos os dias?
Você já notou como portas de madeira raspam no chão nos dias quentes e voltam ao normal no frio? Nas pontes de concreto armado e vigas de aço acontece exatamente a mesma coisa, provocada pela agitação térmica que empurra as moléculas dos materiais para longe umas das outras. Na engenharia, esse comportamento físico recebe o nome de dilatação térmica linear.
O concreto tem um coeficiente de dilatação de 1,0 × 10⁻⁵ / °C, número praticamente idêntico ao do aço estrutural, permitindo que ambos trabalhem juntos sem se romperem internamente. Em um trecho contínuo de 100 metros, uma alta de 30 °C estica a viga em 3 centímetros — deslocamento equivalente à largura de dois dedos que geraria centenas de toneladas de compressão se ficasse bloqueado.

Qual é o tamanho e a capacidade das juntas em grandes viadutos?
Calcular as fendas de uma ponte exige prever a temperatura máxima do asfalto sob sol a pino, a retração natural de cura do concreto e as frenagens bruscas de veículos pesados. Por isso, os engenheiros dimensionam folgas móveis em posições estratégicas para acomodar cada milímetro de deslocamento.
Abertura de trabalho de 30 a 400 milímetros: varia conforme o comprimento dos vãos contínuos, permitindo que trechos com centenas de metros se desloquem até 40 centímetros sem tocar nas barreiras vizinhas.
- Placas dente de pente em aço usinado: suportam passagens diretas de eixos rodoviários de 45 toneladas e entrelaçam lâminas metálicas sem provocar trancos nos pneus dos carros.
- Perfis elastoméricos de neoprene: canaletas de borracha sintética de alta densidade que se abrem e fecham sanfonadas, barrando água e óleo da pista.
- Aparelhos de apoio de elastômero fretado: blocos de neoprene reforçados com chapas internas de aço que ficam sob as vigas, acomodando giros e movimentos horizontais de até 50 milímetros.
- Calhas inferiores de drenagem em aço inoxidável: conduzem a água da chuva que escapa da pista para o sistema de escoamento, impedindo que a umidade atinja as armaduras dos pilares.
- Barras de ancoragem com solda de alta tenacidade: fixam os trilhos metálicos profundamente no concreto protendido, resistindo às forças de frenagem contínuas de carretas carregadas.
Como as juntas trabalham quando o trânsito pesado passa em alta temperatura?
Quando o calor do meio-dia dilata as vigas ao limite máximo, os dentes de aço deslizam suavemente uns pelos outros, fechando o vão livre da pista como dedos que se entrelaçam. Ao mesmo tempo, a vedação elástica instalada no fundo dobra sobre si mesma sem saltar para fora, garantindo que o pavimento permaneça plano.
Assim que uma carreta de 57 toneladas freia sobre o tabuleiro, o impacto horizontal é absorvido pelas placas de aço e direcionado para as almofadas de neoprene nos pilares. Dessa forma, a ponte dissipa o golpe mecânico e a pressão térmica sem transferir esforços destrutivos para a fundação.
O que acontece dentro de uma ponte quando as juntas entram em ação?
Aquele ruído característico que os pneus fazem ao passar pelas emendas da pista costuma gerar desconfiança nos motoristas desavisados. No entanto, o som que parece um defeito de construção é a prova real de que o sistema de amortecimento mecânico está em pleno funcionamento.
Em uma demonstração didática com diagramas e modelos práticos, o engenheiro civil Igor Felipe explica a mecânica exata da dilatação térmica no concreto armado e revela por que estruturas dessa escala precisam de folgas planejadas para não caírem.
Abaixo, um vídeo do canal Engenharia Detalhada, apresentado pelo engenheiro civil Igor Felipe, que aprofunda o tema:
Quais normas da engenharia brasileira regulam o cálculo das juntas?
No Brasil, os critérios de dilatação e deformação em obras de grande porte são estabelecidos pelas normas técnicas **ABNT NBR 7187** (Projeto de pontes de concreto armado e protendido) e **ABNT NBR 6118**. Para a execução e manutenção em rodovias federais, o órgão gestor adota a especificação **DNIT 092/2006-ES**.
Essas regras determinam que os engenheiros considerem gradientes térmicos severos de até 15 °C entre a superfície exposta do asfalto e a parte inferior das vigas sombreadas. Respeitar essas exigências impede fissuras por tração diferencial e assegura que a estrutura resista a mais de 50 anos de uso contínuo.

Quando uma concessionária de rodovias deve acionar o engenheiro calculista?
O surgimento de degraus entre as placas, estalos metálicos na passagem de caminhões ou o acúmulo de terra compactada nas aberturas exige vistoria técnica imediata de um **engenheiro civil calculista de estruturas** ou **engenheiro especialista em pontes**. Quando a junta entope, a dilatação fica travada e pode quebrar os topos dos pilares.
Tapar essas folgas com massa asfáltica comum em intervenções caseiras é um erro gravíssimo, pois bloqueia o alívio térmico e esmaga o concreto na primeira onda de calor. Apenas um engenheiro qualificado tem competência para recalcular o vão, substituir perfis rasgados de neoprene ou trocar as fixações de aço.
Contexto importante: Este artigo é informativo. Para projetos estruturais locais similares, recomenda-se avaliação de engenheiro civil especialista em pontes e estruturas, especialmente em contextos de risco de comprometimento estrutural por bloqueio de dilatação térmica ou infiltração corrosiva.

