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Início Curiosidades

Uma estrada atravessa o mar sobre uma ponte, chega a uma ilha artificial e desaparece dentro de um túnel antes de alcançar o outro país

Por Gustavo Trindade
21/09/2026
Em Curiosidades, Diversão
Ponte de Øresund atravessa o mar até a ilha artificial de Peberholm, onde a estrada entra no túnel de Drogden.

A ligação entre Suécia e Dinamarca combina ponte, ilha artificial e túnel submarino em uma única travessia — Créditos: Imagem gerada por IA

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Resumo executivo
🌉
Transição Híbrida de 15,9 kmCombinação contínua de ponte estaiada de 7.845 metros, ilha artificial de 4.055 metros e túnel imerso de 4.050 metros interligando Suécia e Dinamarca.
✈️
Proteção do Cone Aéreo de KastrupO rebaixamento das pistas sob o leito marinho eliminou pilares e mastros na cabeceira do Aeroporto de Copenhague, cumprindo as zonas de proteção de voo da ICAO.
🚢
Desobstrução do Canal Naval DrogdenO canal internacional de navegação permaneceu com calado irrestrito e livre de pilares, eliminando o risco de colisão de navios com a infraestrutura.
🧱
20 Caixões Imersos de 55.000 ToneladasElementos celulares de concreto armado de 176 metros de comprimento foram pré-fabricados em doca seca e assentados em vala submarina com tolerância milimétrica.

No meio das águas frias entre Copenhague e Malmö, uma rodovia de quatro pistas e duas vias ferroviárias de alta velocidade avançam sobre pilares de concreto de 204 metros de altura, tocam uma ilha artificial erguida no centro do estreito e mergulham abruptamente sob o mar báltico em um túnel celular de concreto armado.

Como a física do empuxo e caixões de 55.000 toneladas viabilizaram a descida da pista para o fundo do mar?

A transição entre o tráfego aéreo e a travessia submarina foi solucionada por meio da tecnologia de túnel imerso. Ao contrário de túneis perfurados por tuneladoras (TBM), que operam centenas de metros abaixo da rocha matriz, o Túnel de Drogden foi construído a partir de 20 blocos ocos pré-moldados de concreto armado assentados diretamente em uma trincheira dragada no leito marinho.

Cada bloco, com 176 metros de comprimento, 38,8 metros de largura e 8,6 metros de altura, pesa aproximadamente 55.000 toneladas — massa equivalente a quase 24 ônibus espaciais com tanque de combustível cheio. O mecanismo físico que permitiu o transporte dessas estruturas de concreto foi o princípio de Arquimedes: ao selar as duas extremidades dos caixões com anteparas metálicas estanques de 3.000 kg, o volume de ar interno superou o peso próprio da peça, transformando o caixão monolítico em uma imensa balsa flutuante.

Rodovia e ferrovia chegam à ilha artificial de Peberholm e descem para a entrada do túnel de Drogden.
Peberholm funciona como a transição física entre o trecho elevado da travessia e a seção que continua sob o estreito — Créditos: Imagem gerada por IA

Quais são as dimensões estruturais, cotas batimétricas e materiais que compõem os 16 km da travessia?

O traçado global de 15,9 quilômetros opera como uma artéria rodoferroviária integrada, gerida pelo consórcio binacional Øresundsbro Konsortiet, com engenharia detalhada desenvolvida pelo grupo ASO com consultoria da COWI. Os parâmetros técnicos de projeto dividem-se em três seções interdependentes:

  • Ponte de Øresund (lado sueco): extensão de 7.845 metros, com vão central estaiado de 490 metros sustentado por cabos de aço e pilares gêmeos de concreto de 204 metros de altura acima da lâmina d’água. O tabuleiro em treliça mista de aço e concreto carrega duas vias ferroviárias no nível interior protegido e quatro faixas da rodovia E20 na laje superior, com gabarito de navegação vertical de 57 metros no canal de Flintrännan.
  • Ilha Artificial de Peberholm: aterro oceânico de 4.055 metros de extensão e área superficial de 1,3 km², implantado ao sul da ilha natural protegida de Saltholm. A ilha foi erguida a partir de 1,6 milhão de m³ de enrocamento de rocha e preenchida com mais de 6 milhões de m³ de material dragado do próprio fundo oceânico durante a abertura da calha do túnel.
  • Túnel de Drogden (lado dinamarquês): comprimento de 4.050 metros (3.510 metros de seção imersa celular e dois portais de 270 metros de aproximação). O canal exigiu a escavação de uma trincheira submarina de 11 metros de profundidade e 46 metros de largura ao longo de 4 km, perfurando formações rígidas de calcário de Copenhague (Copenhagen limestone) com auxílio de dragas de sucção e corte pesado antes do assentamento dos caixões.

Como funcionam os sistemas de desumidificação, drenagem e selagem que mantêm o túnel e o tabuleiro operacionais?

A manutenção da integridade estrutural em uma obra costeira de alta salinidade exige o controle rigoroso da umidade e da estanqueidade. Na seção aérea da ponte, a treliça metálica fechada de 82.000 toneladas não recebe pintura manual tradicional em sua face interna: o interior do caixão oco é mantido sob um sistema contínuo de desumidificação industrial, mantendo a umidade relativa do ar estritamente abaixo de 60%, patamar físico no qual o processo de corrosão atmosférica do aço cessa.

No Túnel de Drogden, a estabilidade das juntas entre os 20 elementos de concreto depende de sistemas duplos de vedação: a junta de compressão primária externa de borracha maciça e uma junta secundária flexível interna de neoprene com perfil Ômega, monitorada por sensores de condutividade para detecção imediata de qualquer microinfiltração de salmoura.

Segmento da Ligação Extensão e Cotas Solução e Desafio Crítico
🌉 Ponte Estaiada (Leste) 7.845 m | Vão de 490 m | Pilares de 204 m Treliça bi-nível de aço e concreto; vence o canal Flintrännan com gabarito náutico de 57 m de altura livre.
🏝️ Ilha Peberholm (Centro) 4.055 m | Cota de topo a +6,0 m do mar Solo artificial com 1,6 milhão de m³ de pedras e 6 milhões de m³ de dragados; transição física das vias.
🚇 Túnel Drogden (Oeste) 4.050 m | Fundo a -20 m de profundidade 20 elementos imersos de 55.000 t; desobstrui o espaço aéreo de Kastrup e mantém livre o canal naval.

Como os engenheiros transportaram e submergiram caixões de concreto do tamanho de edifícios em mar aberto?

A operação logística para lançar os módulos do túnel imerso exigiu a criação de uma linha de montagem industrial sem precedentes na costa da Dinamarca. Os 20 segmentos celulares de concreto armado não foram moldados em canteiros convencionais, mas sim no interior de uma doca seca especialmente escavada, onde fôrmas hidráulicas deslizantes concretavam anéis estruturais de 22 metros a cada semana.

Uma vez curado o concreto e instaladas as anteparas estanques, a doca seca era inundada com mais de 100 milhões de litros de água até atingir nove metros de lâmina d’água, permitindo que o caixão de 55.000 toneladas flutuasse livremente. Rebocadores de alto mar conduziam a peça até o alinhamento da trincheira escavada no estreito, onde pontões especiais de imersão equipados com guinchos de precisão e receptores GPS assumiam o comando da descida milimétrica até a cota batimétrica calculada.

Abaixo, um documentário técnico do canal MSFTV3 (YouTube) produzido pela National Geographic registra os bastidores da dragagem, a construção da ilha de Peberholm e a descida dos caixões imersos:

▶
Assistir no YouTube: MegaStructures – Megabridges: Denmark To Sweden (National Geographic Documentary)

Quais parâmetros das normas Eurocodes e critérios de impacto ambiental guiaram o projeto contra colisões e tempestades?

O dimensionamento estrutural da travessia foi unificado pelos códigos estruturais europeus Eurocode, em conformidade com as normas estruturais dinamarquesas (DS 411) e suecas (BBK 94). Para a ponte estaiada, a norma EN 1991-1-7 exigiu que as fundações dos pilares fossem capazes de suportar o impacto acidental frontal de um navio petroleiro ou graneleiro de grande porte sem sofrer colapso progressivo, combinando ensecadeiras de concreto pré-moldado de 18.000 toneladas protegidas por colchões submersos de dissipação de energia em pedra britada.

Do ponto de vista hidrodinâmico e ambiental, o tratado internacional entre Dinamarca e Suécia impôs o critério compulsório da “solução zero” (zero-solution). A barreira física provocada pelos pilares da ponte e pela massa da ilha artificial não podia restringir o fluxo de água do Kattegat para o Báltico em mais de 0,1%. Para compensar a perda de seção hidráulica do estreito, os engenheiros realizaram dragagens de alívio adicionais no leito marinho em áreas adjacentes, equalizando as perdas de carga hidrostática e preservando o equilíbrio salino e térmico do ecossistema marinho.

Corte mostra a travessia passando da Ponte de Øresund para Peberholm e seguindo pelo túnel de Drogden sob o mar.
A ligação híbrida utiliza soluções diferentes ao longo do percurso: ponte sobre a água, ilha artificial e túnel imerso sob o leito marinho — Créditos: Imagem gerada por IA

Quando a complexidade de obras subterrâneas e costeiras exige a contratação de engenheiros civis geotécnicos e estruturais?

Projetos de infraestrutura que combinam travessias marítimas, fundações submersas e túneis imersos demandam a liderança técnica direta de engenheiros civis geotécnicos e engenheiros estruturais offshore. Qualquer desvio na análise de tensões do solo oceânico ou na estanqueidade sob pressão hidrostática acarreta riscos catastróficos de inundação ou recalques diferenciais destrutivos.

O especialista em geotecnia é obrigatório para caracterizar as camadas estratigráficas do subsolo submarino por meio de ensaios piezocone (CPTU), mapear falhas geológicas por perfilagem sísmica e dimensionar os taludes de escavação subaquática. Já o engenheiro estrutural determina os modelos de fluência, retração térmica do concreto em blocos maciços e os coeficientes de empuxo hidrostático ativo nas anteparas de vedação, impedindo a flotação acidental das estruturas celulares durante eventos de maré extrema.

⚠️

Contexto importante: Este artigo é informativo. Para projetos estruturais locais similares, recomenda-se avaliação de engenheiro civil especializado em geotecnia marítima, túneis imersos e fundações profundas, especialmente em contextos de risco de vazamento, infiltração, recalque diferencial ou impacto hidrodinâmico costeiro.

Tags: engenharia de pontes e túneisilha artificial PeberholmPonte de Øresundtúnel de Drogden
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