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Início Curiosidades

Mais de 200 mil barris radioativos jazem no fundo do Atlântico e expedição científica confirma vazamentos a 4.700 metros

Por Gustavo Trindade
05/09/2026
Em Curiosidades, Diversão
Barris de lixo nuclear oxidados e rompidos repousando no sedimento do leito marinho abissal a quase 5 mil metros de profundidade sob a luz de submersível

Cilindros industriais de rejeitos atômicos corroídos pela água salgada e pressão a 4.700 metros no Oceano Atlântico — Créditos: Imagem gerada por IA

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Resumo
🌊Descarte em massa: Mais de 200 mil barris de resíduos radioativos foram despejados no Oceano Atlântico entre 1950 e 1983 por países europeus sob a lógica da diluição marinha.
🔬Vazamento documentado: Expedições recentes do consórcio científico NODSSUM comprovaram perfurações nas carcaças e escape de ligantes e radionuclídeos a 4.700 metros de profundidade.
⏱️Estruturas esgotadas: Os tambores foram projetados com durabilidade estimada de 25 anos, mas já acumulam mais de quatro décadas expostos a quase 470 atmosferas de pressão.
🚫Impasse de remoção: Oceanógrafos e físicos descartam o resgate mecânico dos recipientes deteriorados, avaliando que o risco de ruptura catastrófica superaria a contenção no fundo do mar.

A quase 5 mil metros de profundidade, onde a pressão hidrostática chega a 470 atmosferas — força suficiente para esmagar uma lataria convencional em segundos —, os recipientes perderam a integridade física original. Sensores e braços robóticos registraram fissuras expostas, tampas destacadas pela ferrugem e o vazamento do betume que deveria aprisionar compostos radioativos por gerações.

Como a água salgada e a pressão abissal corroeram os tambores de aço no fundo do oceano?

O desgaste desses invólucros resulta de uma sequência implacável de processos mecânicos e eletroquímicos. Os tambores industriais de 200 litros, fabricados em chapas de aço-carbono comum, sofreram tensões extremas assim que afundaram, amassando áreas com bolsões de ar internos e enfraquecendo as soldas perimétricas.

Uma vez assentados no solo oceânico, a salinidade constante da água funcionou como eletrólito em um processo severo de corrosão por pite. Os íons cloreto atacaram as moléculas de ferro de forma pontual, perfurando a chapa metálica de fora para dentro e transformando a barreira externa em placas porosas de óxido férrico.

Composição em três painéis mostrando o lançamento naval dos barris ao mar, o repouso sob esmagamento abissal e a colonização por anêmonas nas carcaças rompidas
Evolução do descarte atômico: do lançamento no mar à corrosão por pressão e colonização por fauna bentônica ao longo de quatro décadas — Créditos: Imagem gerada por IA

Por que governos europeus despejaram 200 mil barris de lixo atômico no Atlântico entre 1950 e 1983?

Entre o final da década de 1940 e os primeiros anos da década de 1980, as diretrizes internacionais consideravam os abismos marinhos valas de escarte naturais. Arquivos históricos catalogados pelo CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França) detalham que nações como Reino Unido, França, Bélgica, Suíça, Alemanha e Países Baixos despejaram sua produção residual sob supervisão da Agência de Energia Nuclear (NEA).

O inventário despejado abrangeu cerca de 150 mil toneladas métricas brutas de resíduos, com uma atividade radiológica total estimada em 36 petabecquerels. As operações concentraram-se principalmente no fosso abissal do Atlântico Nordeste, a cerca de 600 quilômetros a oeste da costa francesa, em áreas tidas como distantes de rotas pesqueiras superficiais.

Mecanismos que aceleram a perda de contenção nos barris
🌊
PRESSÃO HIDROSTÁTICA
Esmagamento a 470 bar
O peso colossal da água deformou as paredes cilíndricas já na descida, abrindo fissuras estruturais em juntas soldadas e tampas.
🧪
ATAQUE POR CLORETOS
Corrosão profunda do aço
A salinidade contínua gerou corrosão galvânica acelerada, destruindo a chapa metálica de 200 litros além do prazo de projeto de 25 anos.
🪨
LIXIVIAÇÃO DA MATRIZ
Rompimento do betume
O bloco interno de concreto e betume esfarelou após a intrusão de água, liberando material encapsulado diretamente na lama abissal.

Como os radionuclídeos em fuga interagem com as anêmonas e peixes da planície abissal?

Longe de ser uma planície inanimada, o sítio de descarte abriga comunidades bentônicas adaptadas ao frio e à escuridão extrema. As carcaças oxidadas dos barris tornaram-se substratos rígidos onde se fixaram dezenas de anêmonas-do-mar, esponjas de vidro e vermes poliquetas, criando recifes artificiais contaminados.

À medida que o invólucro racha, elementos químicos como o césio-137 e o estrôncio-90 passam para a coluna aquática de contato, sendo absorvidos por animais filtradores. Em contrapartida, actinídeos mais pesados, como fragmentos de plutônio-239 e amerício-241, fixam-se com firmeza nas partículas de argila do leito oceânico.

Espécies detritívoras como crustáceos anfípodes e peixes da família Macrouridae escavam continuamente o lodo contaminado à procura de detritos alimentares. Embora as taxas de radiação detectadas até o momento não indiquem anomalias letais agudas, a presença de isótopos atômicos nos tecidos desses espécimes confirma a transferência de contaminantes para as redes alimentares de profundidade.

Indicador oceanográfico e nuclearRegistro documentado em expedições
📦 Volume de recipientes descartadosMais de 200.000 tambores de 200 litros (cerca de 150.000 toneladas brutas)
📍 Profundidade dos sítios do AtlânticoEntre 4.700 e 5.000 metros na planície abissal do Atlântico Nordeste
☢️ Atividade radiológica inicial estimadaAproximadamente 36 petabecquerels (36 × 10¹⁵ bequeréis) acumulados
⏳ Durabilidade calculada pelos projetosProjetada para cerca de 25 anos; recipientes já passam de 40 a 70 anos submersos
🔬 Radionuclídeos identificados em campoCésio-137, cobalto-60 e isótopos de plutônio em sedimentos e água de contato

O que as filmagens submarinas revelam sobre as fraturas nos tambores atômicos submersos?

Os registros visuais gravados por veículos de grande profundidade evidenciam o desgaste do metal sob as forças contínuas do oceano abissal. As lentes mostram tambores comprimidos pela pressão como latas de alumínio vazias, enquanto outros tiveram suas tampas arrancadas, revelando blocos pretos de betume fraturado rodeados por halos escurecidos de sedimento [00:01:54].

Mapeamentos de fotogrametria tridimensional mostram que as posições dos barris desenham trilhas retilíneas no leito lodoso, acompanhando a rota que os navios mercantes percorriam enquanto a tripulação rolava a carga pela borda [00:01:38]. Vários recipientes romperam-se já no choque inicial com o fundo rochoso após despencarem em queda livre por mais de quatro quilômetros.

Abaixo, um vídeo do Sabine Hossenfelder (YouTube) que aprofunda o tema:

▶ Assistir no YouTube: Leaking Nuclear Waste Barrels Found on Ocean Floor

Quais dados a expedição científica NODSSUM coletou com o submarino Nautile a quase 5 km de profundidade?

O monitoramento sistemático dessas zonas de despejo foi reaberto com a missão francesa do consórcio NODSSUM, coordenada pelo geólogo marinho Javier Escartín e pelo físico nuclear Patrick Chardon. Apoiada pelo navio oceanográfico Pourquoi pas ?, a equipe conduziu dezenas de incursões tripuladas a bordo do submersível Nautile e utilizou o robô autônomo Ulyx.

Os levantamentos com sonares multifeixe registraram 3.355 tambores individuais mapeados em um único setor de 163 quilômetros quadrados. Utilizando braços articulados, os pesquisadores recolheram 5 mil litros de água e 345 amostras de sedimento a centímetros das carcaças danificadas, além de capturar 34 exemplares de fauna bentônica para averiguação laboratorial.

Cientista em sala de comando de navio de pesquisa analisando dados de sonar e imagens de submersível em monitores digitais
Pesquisador monitora os dados de telemetria e imagens em tempo real de robô submarino operando a 4.700 metros de profundidade — Créditos: Imagem gerada por IA

Por que içar os barris deteriorados representaria um perigo ambiental maior do que deixá-los no leito marinho?

Apesar da comprovação dos vazamentos, a remoção física dos cilindros atômicos é desaconselhada por oceanógrafos e engenheiros de salvatagem submarina. Após mais de 50 anos de oxidação profunda, as estruturas de aço estão fragilizadas a ponto de se esfarelarem sob a força mecânica de qualquer guincho ou cabo de içamento.

Se dezenas de recipientes rompessem durante a ascensão pela coluna d’água, haveria liberação súbita e concentrada de radionuclídeos nas camadas epipelágicas e mesopelágicas. Nessas faixas superiores, correntes marinhas velozes dispersariam o material por rotas migratórias de espécies de pesca comercial, transformando um foco estático de fundo em contaminação hídrica dispersa.

📖 Leia também: Cientistas descobrem vida inédita no fundo oceano e o alerta preocupa especialistas do mundo todo

Enquanto os tambores submersos continuam seu processo de oxidação a quase 5 quilômetros da superfície, amostras de água e lodo chegam aos centros analíticos europeus em recipientes blindados para traçar o destino final do lixo nuclear esquecido no Atlântico.

Tags: contaminação marinhalixo nuclear
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