A quase 5 mil metros de profundidade, onde a pressão hidrostática chega a 470 atmosferas — força suficiente para esmagar uma lataria convencional em segundos —, os recipientes perderam a integridade física original. Sensores e braços robóticos registraram fissuras expostas, tampas destacadas pela ferrugem e o vazamento do betume que deveria aprisionar compostos radioativos por gerações.
Como a água salgada e a pressão abissal corroeram os tambores de aço no fundo do oceano?
O desgaste desses invólucros resulta de uma sequência implacável de processos mecânicos e eletroquímicos. Os tambores industriais de 200 litros, fabricados em chapas de aço-carbono comum, sofreram tensões extremas assim que afundaram, amassando áreas com bolsões de ar internos e enfraquecendo as soldas perimétricas.
Uma vez assentados no solo oceânico, a salinidade constante da água funcionou como eletrólito em um processo severo de corrosão por pite. Os íons cloreto atacaram as moléculas de ferro de forma pontual, perfurando a chapa metálica de fora para dentro e transformando a barreira externa em placas porosas de óxido férrico.

Por que governos europeus despejaram 200 mil barris de lixo atômico no Atlântico entre 1950 e 1983?
Entre o final da década de 1940 e os primeiros anos da década de 1980, as diretrizes internacionais consideravam os abismos marinhos valas de escarte naturais. Arquivos históricos catalogados pelo CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França) detalham que nações como Reino Unido, França, Bélgica, Suíça, Alemanha e Países Baixos despejaram sua produção residual sob supervisão da Agência de Energia Nuclear (NEA).
O inventário despejado abrangeu cerca de 150 mil toneladas métricas brutas de resíduos, com uma atividade radiológica total estimada em 36 petabecquerels. As operações concentraram-se principalmente no fosso abissal do Atlântico Nordeste, a cerca de 600 quilômetros a oeste da costa francesa, em áreas tidas como distantes de rotas pesqueiras superficiais.
Como os radionuclídeos em fuga interagem com as anêmonas e peixes da planície abissal?
Longe de ser uma planície inanimada, o sítio de descarte abriga comunidades bentônicas adaptadas ao frio e à escuridão extrema. As carcaças oxidadas dos barris tornaram-se substratos rígidos onde se fixaram dezenas de anêmonas-do-mar, esponjas de vidro e vermes poliquetas, criando recifes artificiais contaminados.
À medida que o invólucro racha, elementos químicos como o césio-137 e o estrôncio-90 passam para a coluna aquática de contato, sendo absorvidos por animais filtradores. Em contrapartida, actinídeos mais pesados, como fragmentos de plutônio-239 e amerício-241, fixam-se com firmeza nas partículas de argila do leito oceânico.
Espécies detritívoras como crustáceos anfípodes e peixes da família Macrouridae escavam continuamente o lodo contaminado à procura de detritos alimentares. Embora as taxas de radiação detectadas até o momento não indiquem anomalias letais agudas, a presença de isótopos atômicos nos tecidos desses espécimes confirma a transferência de contaminantes para as redes alimentares de profundidade.
| Indicador oceanográfico e nuclear | Registro documentado em expedições |
|---|---|
| 📦 Volume de recipientes descartados | Mais de 200.000 tambores de 200 litros (cerca de 150.000 toneladas brutas) |
| 📍 Profundidade dos sítios do Atlântico | Entre 4.700 e 5.000 metros na planície abissal do Atlântico Nordeste |
| ☢️ Atividade radiológica inicial estimada | Aproximadamente 36 petabecquerels (36 × 10¹⁵ bequeréis) acumulados |
| ⏳ Durabilidade calculada pelos projetos | Projetada para cerca de 25 anos; recipientes já passam de 40 a 70 anos submersos |
| 🔬 Radionuclídeos identificados em campo | Césio-137, cobalto-60 e isótopos de plutônio em sedimentos e água de contato |
O que as filmagens submarinas revelam sobre as fraturas nos tambores atômicos submersos?
Os registros visuais gravados por veículos de grande profundidade evidenciam o desgaste do metal sob as forças contínuas do oceano abissal. As lentes mostram tambores comprimidos pela pressão como latas de alumínio vazias, enquanto outros tiveram suas tampas arrancadas, revelando blocos pretos de betume fraturado rodeados por halos escurecidos de sedimento [00:01:54].
Mapeamentos de fotogrametria tridimensional mostram que as posições dos barris desenham trilhas retilíneas no leito lodoso, acompanhando a rota que os navios mercantes percorriam enquanto a tripulação rolava a carga pela borda [00:01:38]. Vários recipientes romperam-se já no choque inicial com o fundo rochoso após despencarem em queda livre por mais de quatro quilômetros.
Abaixo, um vídeo do Sabine Hossenfelder (YouTube) que aprofunda o tema:
Quais dados a expedição científica NODSSUM coletou com o submarino Nautile a quase 5 km de profundidade?
O monitoramento sistemático dessas zonas de despejo foi reaberto com a missão francesa do consórcio NODSSUM, coordenada pelo geólogo marinho Javier Escartín e pelo físico nuclear Patrick Chardon. Apoiada pelo navio oceanográfico Pourquoi pas ?, a equipe conduziu dezenas de incursões tripuladas a bordo do submersível Nautile e utilizou o robô autônomo Ulyx.
Os levantamentos com sonares multifeixe registraram 3.355 tambores individuais mapeados em um único setor de 163 quilômetros quadrados. Utilizando braços articulados, os pesquisadores recolheram 5 mil litros de água e 345 amostras de sedimento a centímetros das carcaças danificadas, além de capturar 34 exemplares de fauna bentônica para averiguação laboratorial.

Por que içar os barris deteriorados representaria um perigo ambiental maior do que deixá-los no leito marinho?
Apesar da comprovação dos vazamentos, a remoção física dos cilindros atômicos é desaconselhada por oceanógrafos e engenheiros de salvatagem submarina. Após mais de 50 anos de oxidação profunda, as estruturas de aço estão fragilizadas a ponto de se esfarelarem sob a força mecânica de qualquer guincho ou cabo de içamento.
Se dezenas de recipientes rompessem durante a ascensão pela coluna d’água, haveria liberação súbita e concentrada de radionuclídeos nas camadas epipelágicas e mesopelágicas. Nessas faixas superiores, correntes marinhas velozes dispersariam o material por rotas migratórias de espécies de pesca comercial, transformando um foco estático de fundo em contaminação hídrica dispersa.
📖 Leia também: Cientistas descobrem vida inédita no fundo oceano e o alerta preocupa especialistas do mundo todoEnquanto os tambores submersos continuam seu processo de oxidação a quase 5 quilômetros da superfície, amostras de água e lodo chegam aos centros analíticos europeus em recipientes blindados para traçar o destino final do lixo nuclear esquecido no Atlântico.
