A oliveira é uma planta do Mediterrâneo e precisa de frio para florescer. Por isso, durante décadas se acreditou que o Brasil não teria condições de produzir azeite. A exceção apareceu num ponto alto da Serra da Mantiqueira: Maria da Fé, no sul de Minas Gerais, onde as geadas são rotina e as azeitonas amadurecem como amadureceriam na Europa.
Por que a oliveira vingou justamente nesta cidade?
Por uma combinação de altitude e saudade. Segundo a Secretaria de Turismo de Maria da Fé, a introdução da oliveira no município aconteceu em 1935, quando Emídio Ferreira dos Santos chegou de Portugal para administrar a Fazenda Pomária e, ao perceber a semelhança do clima, pediu à esposa que trouxesse mudas de oliveira, macieira, nogueira e carvalho.
A lógica agronômica confirma a intuição do imigrante. Conforme a Agência Minas, a olivicultura depende de frio para que a planta produza flores e, em consequência, azeitonas, condição normalmente associada a latitudes entre 30 e 40 graus. Como o município está acima dos mil metros, a altitude compensa a latitude tropical e entrega ao olival as horas de frio que ele exige.

Como saiu daqui o primeiro azeite extravirgem do país?
De um campo de pesquisa público. De acordo com a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), a primeira extração de azeite extravirgem do Brasil foi realizada no Campo Experimental da empresa em Maria da Fé, resultado de um trabalho que começou décadas antes.
A cronologia mostra o tamanho da paciência científica envolvida. As primeiras mudas chegaram em 1935 e, já na década de 1940, servidores ligados ao governo mineiro começaram a estudar a cultura. A Epamig se instalou no município em 1975 e passou a conduzir as pesquisas sobre a viabilidade do plantio no sul do estado. Foram mais de trinta anos de seleção de cultivares, ajuste de poda e manejo até chegar ao primeiro azeite nacional, em 2008.
O que faz da cidade a mais fria do estado?
A posição no alto de um vale da Mantiqueira. Conforme a Prefeitura de Maria da Fé, o município fica a mais de 1.200 metros de altitude e é nacionalmente conhecido por ser a cidade mais fria de Minas Gerais, com temperaturas extremamente baixas para a região no inverno.
O frio muda a paisagem e o calendário local. A mesma fonte destaca a quantidade de cerejeiras que florescem nessa época, cena mais associada ao Japão do que ao interior mineiro, e a estrutura de pousadas se organizou em torno da estação. A cada inverno, o município vira destino de quem procura exatamente o que o resto do país tenta evitar.

O que fazer na cidade além dos olivais?
O roteiro combina experiência rural, gastronomia e paisagem de montanha, tudo em distâncias curtas. Confira os pontos que estruturam a visita:
- Campo Experimental da Epamig: o local da primeira extração de azeite extravirgem do país, reconhecido como pioneiro em pesquisa com olivicultura, conforme a Secretaria de Turismo de Maria da Fé.
- Olivais e lagares: propriedades da região abrem para visita, colheita acompanhada e degustação de azeite recém-produzido.
- Cerejeiras em flor: floração de inverno que colore a cidade e virou atração por si só.
- Araucárias: remanescentes de mata de altitude, espécie típica das partes mais frias do país.
- Artesanato local: produção tradicional que sustenta parte da economia junto com a agricultura e o turismo.
- Serra da Mantiqueira: mirantes e estradas rurais com vista para o mar de morros que cerca o município.
O vídeo do canal Câmera na viagem, com mais de 30 mil visualizações, apresenta um passeio por Maria da Fé, conhecida como a cidade das oliveiras e a cidade mais fria de Minas Gerais, localizada na Serra da Mantiqueira.
Como é o clima em Maria da Fé ao longo do ano?
A altitude produz um dos invernos mais rigorosos do Sudeste, com geada frequente e madrugadas próximas de zero. O verão é chuvoso e ameno, sem o calor típico dos vales mineiros. Veja abaixo o comportamento médio de cada estação na cidade:
Médias aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, que interferem inclusive nas horas de frio necessárias à florada das oliveiras, e vale conferir a previsão atualizada no próprio Climatempo.
Conheça a cidade onde o azeite brasileiro começou
Maria da Fé transformou uma desvantagem climática em vocação econômica. O mesmo frio que congela a paisagem e faz a cidade ser lembrada como a mais gelada de Minas é o que permitiu à oliveira florescer num país tropical, e o que colocou um campo experimental do interior mineiro na origem de toda a produção nacional de azeite.

