Existe uma lógica de proteção pouco conhecida no Brasil: cercar um parque nacional com outra unidade de conservação, para que a área rigorosamente protegida não faça fronteira direta com pasto e mineração. Na Serra do Cipó, em Minas Gerais, esse anel existe e é enorme. É dentro dele que fica Lapinha da Serra, distrito alcançado apenas por estrada de terra, com um lago encaixado entre paredões de quartzito.
O que protege a área ao redor do vilarejo?
Uma unidade federal maior que o próprio parque. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira soma 131.770,84 hectares no bioma Cerrado, criada pelo Decreto nº 98.891, de 26 de janeiro de 1990, com sede na MG-010, no distrito de Serra do Cipó.
A função dessa faixa é técnica. Uma área de proteção ambiental admite propriedade privada e atividade econômica, mas com regras, e por isso funciona como zona de amortecimento: absorve a pressão do entorno antes que ela chegue ao Parque Nacional da Serra do Cipó, de proteção integral. Lapinha da Serra está dentro dessa faixa intermediária, o que explica a coexistência entre pousadas, criação de gado e paisagem preservada.

O que a serra guarda além do vilarejo?
Um conjunto que combina geologia, arqueologia e endemismo. Conforme o portal oficial de turismo de Minas Gerais, o município de Santana do Riacho reúne rios, cânions, paredões, cachoeiras, lagoas e sítios arqueológicos, parte deles dentro do parque nacional, e tem em Lapinha da Serra e Serra do Cipó dois distritos que funcionam como destinos por si só.
A vegetação explica boa parte da fama científica da região. Os campos rupestres, que crescem sobre afloramentos rochosos acima de novecentos metros, concentram uma proporção incomum de espécies endêmicas, plantas que não ocorrem em nenhum outro lugar. É um ambiente de solo pobre e insolação forte, condições que empurraram a flora local para soluções únicas de sobrevivência.

Por que o distrito virou base de travessias?
Pela posição no mapa. De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo e Meio Ambiente de Santana do Riacho, o vilarejo é o ponto de partida da caminhada que termina na Cachoeira do Tabuleiro, a mais alta de Minas Gerais, situada nos parques Estadual Serra do Intendente e Natural Municipal do Tabuleiro.
A travessia atravessa o topo da serra e é percorrida por caminhantes de todo o país, o que fez surgir na vila uma rede de guias, pousadas e serviços de apoio. A mesma fonte registra que o povoado fica a 15 km da sede do município por estrada de terra e a 143 km de Belo Horizonte, distância curta o suficiente para um fim de semana e longa o bastante para manter o lugar fora do turismo de massa.
O que fazer na Lapinha e nos arredores?
A vila é pequena e a maior parte dos atrativos exige caminhada. Confira os pontos que estruturam a visita, conforme as fontes oficiais consultadas:
- Represa da Lapinha da Serra: o lago que contorna o vilarejo, listado entre as atrações do município pelo portal oficial de turismo de Minas Gerais.
- Travessia Lapinha-Tabuleiro: caminhada de vários dias pelo alto da serra até a cachoeira mais alta do estado.
- Pico do Breu: uma das elevações que emolduram a vila, com trilha que pede acompanhamento de guia local.
- Sítio Arqueológico da Lapinha: abrigo rochoso com vestígios de ocupação antiga, citado entre os atrativos do município.
- Cachoeiras do entorno: quedas espalhadas pela região, algumas dentro do parque nacional e outras em propriedades particulares.
- Batuque: manifestação cultural em que moradores tocam sanfona e tambores e dançam em roda, presente nas festas do vilarejo.
O vídeo do canal Por onde andei, com Fernanda Götz, com mais de 187 mil visualizações, apresenta um guia completo sobre Lapinha da Serra, um vilarejo mágico com pouco mais de 600 moradores localizado no município de Santana do Riacho, em Minas Gerais.
Como é o clima na região ao longo do ano?
A altitude do Espinhaço garante noites frias mesmo no verão, e a seca de inverno é uma das mais acentuadas de Minas. Veja abaixo o comportamento médio de cada estação em Santana do Riacho, município ao qual o distrito pertence:
Médias aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, e vale conferir a previsão atualizada no próprio Climatempo, já que chuva forte compromete a estrada de terra de acesso.
Conheça o vilarejo que a serra manteve pequeno
Lapinha da Serra deve o que é a duas condições combinadas: uma estrada de terra que nunca foi asfaltada e um anel de mais de 130 mil hectares protegidos que impediu o crescimento desordenado ao redor. O resultado é um povoado de poucas ruas com um lago na frente, paredões de quartzito atrás e trilhas que levam ao alto do Espinhaço.
Você precisa subir a serra de manhã, contratar um guia local e passar o dia caminhando entre os campos rupestres, onde crescem plantas que não existem em nenhum outro lugar do planeta.

