Você já se pegou com a tampa de uma caneta Bic entre os dentes, mastigando-a até que ela ficasse completamente retorcida, rachada e cheia de marcas de mordida? Esse hábito, que muitos consideram um simples tique nervoso, tem uma explicação psicológica e neurobiológica profunda. O ato de morder a tampa de caneta é uma regressão à fase oral, um mecanismo que o cérebro ativa para regular emoções e aliviar tensões cognitivas.
O que é a regressão à fase oral e por que ela acontece na vida adulta?
A regressão à fase oral é um conceito da psicologia psicanalítica que descreve o retorno a padrões de comportamento típicos dos primeiros meses de vida, quando a boca é o principal meio de interação com o mundo. Na infância, sugar, morder e levar objetos à boca são formas de explorar, sentir prazer e encontrar conforto. Embora esse comportamento seja natural na primeira infância, ele pode reaparecer na vida adulta como um mecanismo de regulação emocional em situações de estresse, ansiedade ou tédio.
A boca é uma das zonas mais ricas em terminações nervosas do corpo. Ao morder ou mastigar um objeto, ativamos uma rede de sensações que competem com os sinais de estresse, desviando a atenção do desconforto emocional para uma experiência física familiar e previsível. A tampa da caneta, nesse contexto, torna-se um “objeto transicional” um substituto para o conforto que a sucção ou a mastigação proporcionavam na infância.

Quais são os três pilares que explicam o impulso de morder a tampa da caneta?
O hábito de mastigar a tampa da caneta até destruí-la não é aleatório. Ele se sustenta em três pilares que envolvem a neurobiologia da regulação emocional, a memória sensorial e a canalização da ansiedade.
Os três pilares desse fenômeno são:
Como o cérebro processa o impulso de morder objetos durante a concentração?
Durante atividades que exigem alta concentração, como estudar, escrever ou resolver problemas, o cérebro está em estado de alerta máximo. O córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio lógico e pela tomada de decisão, trabalha intensamente. Esse esforço gera uma tensão que precisa ser dissipada de alguma forma. A mastigação da tampa da caneta é uma válvula de escape para essa tensão.
O movimento repetitivo de morder ativa os gânglios da base, uma região do cérebro envolvida na formação de hábitos e na coordenação de movimentos repetitivos. Ao mesmo tempo, a pressão dos dentes sobre o plástico envia sinais táteis que competem com os sinais de estresse, reduzindo a percepção de desconforto. É uma forma de o corpo “dizer” ao cérebro: “Está tudo bem, continue focado”.
Que outros comportamentos orais funcionam como mecanismos de regulação?
Morder a tampa da caneta é apenas um dos muitos comportamentos orais que os adultos adotam para lidar com o estresse e a ansiedade. Esses hábitos, muitas vezes inconscientes, compartilham a mesma função de regulação emocional.
Os principais comportamentos orais de regulação são:
- Morder a tampa da caneta: mastigar objetos plásticos ou de borracha
- Roer unhas: um dos BFRBs mais comuns, associado à ansiedade
- Morder a bochecha por dentro: uma forma de canalizar a tensão para dentro da boca
- Chupar balas ou chicletes: uma alternativa socialmente aceita que oferece estímulo oral
- Morder lábios: uma microagressão oral que alivia a tensão momentaneamente

Quando o hábito de morder a caneta se torna um problema?
Embora morder a tampa da caneta seja um comportamento comum e geralmente inofensivo, ele pode se tornar um problema quando a compulsão interfere na capacidade de se concentrar, causa danos aos dentes ou à mandíbula, ou quando a pessoa se sente envergonhada pelo hábito. Em casos extremos, o comportamento pode estar associado a transtornos de ansiedade ou a outros BFRBs.
Os principais sinais de que o hábito pode estar se tornando um problema são:
- Morder a caneta com tanta frequência que ela se quebra ou se deforma
- Sensação de que não é possível parar, mesmo quando consciente do hábito
- Dor na mandíbula ou nos dentes devido à pressão constante
- Vergonha ou constrangimento em relação ao hábito em público
- O comportamento ocorre em momentos de estresse intenso, mesmo sem uma caneta por perto
A tabela abaixo resume os principais gatilhos e estratégias para lidar com o hábito de morder a tampa da caneta:
| Gatilho | Reação comum | Estratégia sugerida |
|---|---|---|
| Estresse e ansiedade Tensão emocional | Morder a caneta para aliviar a tensão | Praticar respiração profunda |
| Concentração intensa Esforço cognitivo | Mastigar a caneta para manter o foco | Usar objetos de fidget |
| Tédio Baixa estimulação | Buscar estímulo oral na caneta | Substituir por chiclete sem açúcar |
O que o hábito de morder a caneta revela sobre a nossa relação com a ansiedade?
O ato de morder a tampa da caneta até destruí-la é um lembrete de que o corpo humano busca maneiras criativas de lidar com o desconforto emocional. Ele revela que a ansiedade não é apenas um estado mental, mas uma experiência física que se manifesta em gestos, posturas e hábitos. A regressão à fase oral, nesse contexto, é uma forma de o corpo dizer: “Preciso de conforto, preciso de uma pausa”.
Reconhecer que esse impulso tem raízes profundas na neurobiologia da regulação emocional, na memória sensorial e na busca por controle é o primeiro passo para lidar com ele de forma mais saudável. Em vez de sentir vergonha do hábito, podemos usá-lo como um sinal para verificar como estamos nos sentindo e, se necessário, buscar alternativas que ofereçam o mesmo conforto sem danificar a caneta ou os dentes.
