No semiárido do Piauí, a 530 km de Teresina, uma cidade de pouco mais de 35 mil habitantes guarda o maior conjunto de sítios pré-históricos da América. São Raimundo Nonato é a porta de entrada do Parque Nacional da Serra da Capivara, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1991, onde pinturas rupestres de pelo menos 25 mil anos cobrem paredões de arenito em meio à caatinga e colocam o nordeste brasileiro no centro de um dos maiores debates científicos sobre o povoamento das Américas.
O que está na parede da Pedra Furada muda a história do continente
Em 1963, a arqueóloga Niède Guidon viu pela primeira vez, numa exposição no Museu Paulista da USP, fotografias de pinturas rupestres encontradas por um prefeito de Petrolina num abrigo no interior do Piauí. Dez anos depois, depois de um exílio forçado pela ditadura militar, ela chegou a São Raimundo Nonato com uma equipe franco-brasileira e começou a escavar. O que encontrou sacudiu a arqueologia mundial.
No Boqueirão da Pedra Furada, Guidon identificou vestígios de fogueiras datados por carbono-14 em décadas de trabalho contínuo. Sessenta e três datações estabeleceram uma coluna que vai de aproximadamente 59.000 a 5.000 anos AP (antes do presente). Em 1986, ela publicou na revista Nature um artigo propondo que a presença humana nas Américas seria muito anterior aos 12 mil anos da então dominante Teoria de Clóvis, que limitava a chegada do ser humano à travessia do Estreito de Bering. Essa tese permanece debatida na comunidade científica, mas ganha consistência a cada avanço nos campos da genética, da bioquímica e das técnicas de datação. A UNESCO reconhece as pinturas como tendo “mais de 25 mil anos” e as classifica como “testemunho excepcional de uma das ocupações humanas mais antigas da América Latina”. Guidon faleceu em 4 de junho de 2025, deixando um legado que o governo do Piauí reconheceu com três dias de luto oficial.

O Parque Nacional Serra da Capivara: dados e escala
O Parque Nacional Serra da Capivara foi criado em 5 de junho de 1979, pelo Decreto Federal nº 83.548, para proteger um dos mais importantes patrimônios pré-históricos do planeta. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1993 e Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1991, o parque tem 129.140 hectares e 214 km de perímetro, abrangendo partes dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias.
São mais de 1.300 sítios arqueológicos cadastrados, dos quais mais de 600 contêm pinturas rupestres e cerca de 183 estão abertos à visitação, conforme o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A gestão é compartilhada entre o ICMBio e a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), organização científica sem fins lucrativos criada por Niède Guidon. O acesso ao parque é gratuito; a contratação de um condutor local credenciado é obrigatória.

O que ver e como se orientar no parque
As formações rochosas e os paredões areníticos da caatinga formam um cenário que já seria extraordinário sem as pinturas. Com elas, a experiência é única no planeta.
- Boqueirão da Pedra Furada: o sítio mais famoso do parque. Paredão de 11 metros de altura com mais de 1.100 pinturas rupestres e a estratigrafia que fundamentou as pesquisas de Niède Guidon. Visitação diurna e noturna disponível, com passarela e iluminação especial à noite.
- Desfiladeiro da Capivara: cânion com pinturas nas duas paredes e formações rochosas de grande beleza cênica. Trilha de dificuldade moderada.
- Baixão das Andorinhas: abrigo rochoso com pinturas e grande colônia de andorinhas que habitam as frestas. A 20 km do centro de São Raimundo Nonato, com infraestrutura de estacionamento e lanchonete.
- Serra Branca: área com concentração de pinturas e paisagem aberta de chapada, no setor mais preservado do parque.
- Museu da Natureza: inaugurado em dezembro de 2018 a 1 km da entrada principal, com apoio do BNDES. É o primeiro edifício circular em espiral totalmente em estrutura metálica do Brasil, com 12 ambientes em rampa helicoidal que percorrem a história natural da Terra. Aberto de quarta a domingo, das 13h às 18h.
- Museu do Homem Americano (FUMDHAM): dentro da sede da fundação em São Raimundo Nonato. Concentra achados arqueológicos, exposição de escavações e o histórico das pesquisas de Guidon e sua equipe.
Quem quer conhecer São Raimundo Nonato, no Piauí, vai curtir este vídeo do canal Viajando no Saber, que conta com mais de 11 mil visualizações e apresenta um guia pela cidade, conhecida como o “berço do homem americano” devido à sua proximidade com o Parque Nacional da Serra da Capivara, destacando pontos históricos, monumentos e dicas de hospedagem na região.
São Raimundo Nonato além do parque
A cidade de São Raimundo Nonato cresceu ao redor do parque e hoje oferece infraestrutura para atender o turismo científico e de aventura. Três instituições de ensino superior funcionam no município: a Universidade Estadual do Piauí, o Instituto Federal de Educação do Piauí e a Universidade Federal do Vale do São Francisco, o que dá à cidade um perfil acadêmico incomum para uma capital regional tão isolada. O cotidiano no semiárido é marcado pelo calor intenso, pela caatinga ao redor e pela consciência de viver ao lado de um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo.
A gastronomia segue a tradição sertaneja: carne-de-sol com baião de dois, feijão verde, buchada de bode e rapadura nas feiras. O artesanato em cerâmica da comunidade rural Barrinho, em Coronel José Dias, produzido por ex-caçadores que encontraram na arte uma nova fonte de renda, é parte do legado social construído ao redor do parque.
Como é o clima em São Raimundo Nonato?
Clima semiárido com duas estações bem definidas: uma seca prolongada e uma chuvosa curta. O calor é intenso o ano inteiro, com picos acima de 35°C durante a estiagem.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a São Raimundo Nonato
De Teresina, são 530 km pela BR-316, BR-343 e PI-140, em aproximadamente 7 horas de carro. De Petrolina (PE), são cerca de 300 km pela BR-407. A cidade tem um aeroporto local com voos regionais de frequência variável. As empresas Transpiaui e Princesa do Sul operam linhas de ônibus entre Teresina e São Raimundo Nonato. Um carro é essencial para chegar às entradas do parque, pois não há transporte coletivo entre a cidade e as guaritas.
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São Raimundo Nonato é onde a pré-história do continente tem endereço
Em nenhum outro lugar das Américas é possível caminhar diante de mais de mil registros da humanidade pré-histórica, com pinturas que mostram capivaras, cenas de caça, rituais e figuras humanas em ação cotidiana, tudo preservado na caatinga piauiense há dezenas de milhares de anos.
Você precisa ir a São Raimundo Nonato de noite, quando as passarelas do Boqueirão da Pedra Furada são iluminadas e as pinturas ressurgem na pedra como ressurgiram para quem as fez, ao redor de uma fogueira, muito antes de existir qualquer fronteira neste continente.

