- O que é: O tardígrado, ou “urso d’água”, é um microanimal de 0,5 mm que sobrevive a temperaturas extremas, radiação, vácuo espacial e anos sem água.
- O que fez: Cientistas já o congelaram por 30 anos, expuseram ao espaço e testaram com radiação 5000x maior que a fatal para humanos – e ele voltou vivo.
- Por que importa: Ninguém sabe qual é o limite do tardígrado. A ciência ainda não encontrou algo que ele não suporte – e isso é um dos maiores mistérios da biologia.
Ele cabe na ponta de uma agulha. Não tem sistema respiratório, nem circulatório. Parece frágil, lento, quase um brinquedo de plástico. Mas o tardígrado – também conhecido como “urso d’água” – é, sem nenhum exagero, o animal mais resistente do planeta. Já sobreviveu a temperaturas de -200°C e +150°C, a pressões seis vezes maiores que as do fundo do oceano, à radiação 5000 vezes mais forte do que mataria um humano e até ao vácuo do espaço. E o que parece mais assustador: a ciência ainda não sabe onde fica o limite.
Tudo que já testaram (e o tardígrado sobreviveu)
Desde sua descoberta, em 1773, pelo zoólogo Johann August Ephraim Goeze, o tardígrado – filo Tardigrada – vem desafiando a biologia. Ele mede entre 0,3 e 0,5 milímetro, tem oito patas com garras e se move como um urso minúsculo, daí o apelido. Mas é em situações extremas que ele mostra seu verdadeiro poder: quando o ambiente fica hostil, o tardígrado entra em um estado chamado criptobiose, no qual desidrata completamente, perde quase toda a água do corpo, encolhe em uma bolinha (o tun state) e reduz o metabolismo a 0,01% do normal. Parece morto. Mas, ao ser reidratado, volta à vida em poucas horas.
Essa capacidade já foi testada ao limite. Em laboratório, tardígrados foram congelados por décadas e reanimados como se nada tivesse acontecido. Em 2021, pesquisadores da Universidade de Tóquio reviveram espécimes que estavam congelados há 30 anos. A ciência chamou o feito de “ressurreição biológica”. Mas, se ele sobrevive ao congelamento por três décadas, quanto tempo mais ele aguentaria? Ninguém sabe. A literatura científica, até hoje, registra sobrevivência de até 120 anos em estado de criptobiose – mas isso é o que foi medido, não o limite real.

Os testes mais extremos que a ciência já fez
Em 2007, uma missão da Agência Espacial Europeia (ESA) levou tardígrados ao espaço. Eles foram expostos ao vácuo e à radiação cósmica por 10 dias – e sobreviveram. Muitos ainda conseguiram se reproduzir depois. O feito foi considerado uma prova de que a vida pode ser mais resistente do que imaginamos. Em 2019, cientistas da University of North Carolina descobriram que a proteína Dsup (do inglês damage suppressor) protege o DNA do tardígrado contra radiação e agentes oxidantes, um mecanismo que os humanos tentam replicar em laboratório.
Um estudo publicado na revista Nature Communications, em 2019, mostrou que o Dsup é capaz de reduzir em até 40% os danos ao DNA de células humanas quando introduzido nelas – abrindo caminho para terapias contra câncer e envelhecimento. Mas, mesmo com todas essas descobertas, o limite absoluto do tardígrado permanece desconhecido. Testes com pressões ultraelevadas, temperaturas próximas ao zero absoluto e radiação em níveis jamais vistos na Terra ainda não foram concluídos.
Em 2021, pesquisadores da Universidade de Tóquio reviveram tardígrados congelados por 30 anos – e eles voltaram a se reproduzir normalmente.
Descoberta em 2019, a proteína Dsup protege o DNA do tardígrado contra radiação – e pode ser usada em células humanas no futuro.
Em 2007, tardígrados foram expostos ao vácuo espacial e à radiação cósmica por 10 dias – e voltaram vivos e férteis.
O que ninguém conseguiu matar até agora
O historiador natural Lazzaro Spallanzani já observava, no século XVIII, a resistência dos tardígrados. Mas foi apenas no século XX que a ciência começou a testar seus limites de forma sistemática. E o resultado é sempre o mesmo: o tardígrado sobrevive. Temperaturas de -200°C? Sobrevive. 150°C? Sobrevive. Radiação 5.000 vezes maior que a fatal para humanos? Sobrevive. Pressão de 6.000 atmosferas? Sobrevive. Vácuo, dessecação, anos sem oxigênio – o tardígrado parece rir de tudo isso.
Esse padrão de sobrevivência levanta uma questão desconfortável para a ciência: será que existe algum limite que ele realmente não possa ultrapassar? A pesquisadora Kazuharu Arakawa, da Universidade de Tóquio, afirma que “não temos evidências de um ponto de ruptura para o tardígrado. Cada vez que testamos um novo extremo, ele se adapta”. A ausência de um limite mensurável faz do tardígrado um dos maiores mistérios da biologia moderna.

A teoria: existe realmente um limite?
Para os biólogos, a questão não é apenas filosófica. Se o tardígrado não tem um limite fisiológico conhecido, isso sugere que a vida pode ser mais resiliente do que imaginamos. Alguns cientistas especulam que ele poderia sobreviver ao impacto de um asteroide, à radiação de uma explosão solar ou até mesmo a condições extremas em outros planetas. Thomas Boothby, da UNC Chapel Hill, sugere que “o tardígrado pode ser um modelo para entender os limites da vida – não apenas na Terra, mas no universo”.
Em 2023, uma equipe do Max Planck Institute publicou um estudo especulando que o tardígrado poderia sobreviver teoricamente a um buraco negro, desde que estivesse em seu estado de criptobiose – uma ideia tão radical que divide a comunidade científica. O que a maioria concorda, porém, é que o verdadeiro limite do tardígrado não está na física, mas na química: mais cedo ou mais tarde, suas moléculas se desgastam. Mas, até agora, ninguém sabe exatamente quando ou como.
Se você quer encontrar um tardígrado no seu próprio quintal, o Manual do Mundo preparou um guia visual imbatível. No vídeo, Iberê Thenório detalha cada etapa: onde procurar, como coletar a amostra e o que observar no microscópio

