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Início Cidades

Onde a água empurra o corpo para cima: o vilarejo do Tocantins cercado por fervedouros cristalinos e dunas alaranjadas no coração do Jalapão

Por Vitor Bruno
24/05/2026
Em Cidades
Onde a água empurra o corpo para cima: o vilarejo do Tocantins cercado por fervedouros cristalinos e dunas alaranjadas no coração do Jalapão

Onde a água empurra o corpo para cima: o vilarejo do Tocantins cercado por fervedouros cristalinos e dunas alaranjadas no coração do Jalapão // IMAGEM ILUSTRATIVA

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O som do silêncio recebe quem chega ao leste do Tocantins, depois de 165 km de estrada de terra. Mateiros guarda mais de 20 nascentes onde nenhum corpo afunda, dunas que mudam de cor com a hora do sol e um cerrado intacto na escala de quem nunca viu. É a porta de entrada do Jalapão, região que ocupa 34 mil km² e virou sinônimo de natureza bruta no centro do Brasil.

Por que ninguém consegue afundar nos fervedouros

A explicação tem nome técnico, ressurgência. A água brota do lençol freático com pressão tão intensa que atravessa uma camada de areia fina no fundo do poço e empurra qualquer corpo para a superfície. Não importa o peso do banhista, a força do fluxo vinda do solo impede a flutuação de ser quebrada.

O fenômeno se concentra na região entre Mateiros e São Félix do Tocantins, alimentado pelo Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país. Apesar do nome sugerir calor, a água é fria e cristalina, com temperatura que costuma surpreender no primeiro mergulho.

Cada nascente tem cor, profundidade e força de flutuação diferentes. Os mais procurados ficam cercados por buritis e vegetação nativa, com infraestrutura simples e limite de tempo dentro d’água para garantir que todo mundo entre.

O vilarejo cercado por fervedouros de águas cristalinas que ninguém consegue afundar e dunas alaranjadas que virou cenário de novela e sonho dos brasileiros
Jalapão desafia a lógica no coração do Brasil // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

As dunas que parecem deserto no meio do cerrado

A poucos quilômetros do centro de Mateiros, o cenário muda. Areia fina, alaranjada, em pilhas que chegam a 40 metros de altura e desenham o que muitos chamam de Deserto do Jalapão. O cenário se formou ao longo de milhares de anos pela erosão das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo, esculpidas pelo vento.

O melhor horário para subir é o fim da tarde. A luz baixa do sol incendeia a areia, transforma o dourado em cobre e enquadra o pôr do sol com o cerrado ao fundo. Conforme o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), o Parque Estadual do Jalapão foi criado em 12 de janeiro de 2001 pela Lei Estadual 1.203 e ocupa mais de 158 mil hectares concentrados no município. A sede administrativa do parque fica no centro de Mateiros.

A visita às dunas exige guia local credenciado e agendamento, conforme o portal oficial do Jalapão, mantido pelo Governo do Tocantins. Não há banho, bebida ou pernoite no local.

O vilarejo cercado por fervedouros de águas cristalinas que ninguém consegue afundar e dunas alaranjadas que virou cenário de novela e sonho dos brasileiros
Mateiros, Jalapão // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Leia também: A 2ª maior cidade de Minas é também a 3ª melhor do Brasil em qualidade de vida entre os grandes municípios

Cachoeiras, cânions e a capital do capim dourado

Fora dos fervedouros e das dunas, o roteiro reserva alguns dos cenários mais fotografados do Brasil. Os atrativos principais saem em poucos dias de carro 4×4, sempre acompanhados de guia.

  • Cachoeira da Formiga: poço de águas verde-esmeralda com fundo de areia, trilha curta e acessível. Uma das imagens mais reproduzidas da região.
  • Cachoeira da Velha: a maior do parque, com 100 metros de largura e 15 metros de queda no Rio Novo. Banho proibido pela força da água, mas rafting leva até os pés do véu.
  • Pedra Furada: formação de arenito esculpida pelo vento com frestas que filtram a luz no fim da tarde, em Ponte Alta do Tocantins.
  • Cânion Sussuapara: fenda estreita com cerca de 25 metros de profundidade, paredes cobertas de samambaias e uma pequena cachoeira ao fundo.
  • Comunidade Mumbuca: povoado quilombola a 35 km de Mateiros, berço do artesanato de capim dourado, com visita guiada às artesãs.

Mateiros foi oficialmente declarada Capital Nacional do Capim Dourado pela Lei 15.050/2024, publicada no Diário Oficial da União em 23 de dezembro daquele ano, segundo o Senado Federal. A colheita do Syngonanthus nitens, planta endêmica do Jalapão, só pode acontecer entre 20 de setembro e 20 de novembro, sob fiscalização do Naturatins.

Quem deseja desbravar fervedouros, dunas e rios de águas cristalinas no coração do Tocantins, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viajantes de Estação em Estação • S2Station, que conta com mais de 55 mil visualizações, onde Igor e Lilian mostram um roteiro completo de 5 dias pelo Jalapão:

Qual a melhor época para encarar o Jalapão?

A escolha do mês define o tipo de viagem. A tabela resume o que esperar em cada estação.

☀️ Seca
Maio a Setembro 18°C a 34°C
A melhor e mais cobiçada janela! Com as estradas firmes e sem chuvas, o cenário fica perfeito para explorar os fervedouros, dunas e fazer belas trilhas.
⭐ MELHOR ÉPOCA
🌾 Colheita
Setembro a Novembro 22°C a 38°C
O calor se intensifica e as vias continuam firmes. É o momento único de vivenciar a tradicional e famosa Festa do Capim Dourado no povoado do Mumbuca.
⭐ EVENTO FAMOSO
🌧️ Início da Chuva
Dezembro 22°C a 35°C
A umidade retorna e as estradas exigem atenção. A grande vantagem desse mês é contemplar as belas cachoeiras da região com muito mais volume d’água.
⚠️ EXIGE ATENÇÃO
❌ Cheia
Janeiro a Abril 22°C a 32°C
O período com o maior índice chuvoso do Jalapão. Com acessos e estradas difíceis, essa é a época que se recomenda melhor evitar pela forte lama.
❌ ÉPOCA A EVITAR

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo de Mateiros. Condições podem variar.

Por que o Jalapão entra na lista de qualquer viajante

Poucos destinos no Brasil entregam dunas no meio do cerrado, nascentes onde ninguém afunda e comunidades que transformam capim em ouro no mesmo roteiro. Mateiros recompensa cada hora de estrada com paisagens que não se repetem em nenhum outro canto do país.

Você precisa enfrentar os 300 km de Palmas até Mateiros e flutuar sem esforço em pelo menos um fervedouro para entender por que o Jalapão virou parada obrigatória de quem ama natureza.

Tags: CidadesJalapãomateirosTocantins
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