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| A aposentada Francisca Vilaça, que recorria ao rádio e aos palanques para decidir em quem votar, afirma que confiava mais nos candidatos quando eles eram conhecidos na divulgação feita cara a cara |
Rostos estampados em santinhos e cavaletes, nomes berrados por locutores em carros de som, jingles cantados no rádio e na televisão. Se o espaço é ilimitado, melhor ainda. Na internet, a candidatura é repetida à exaustão em blogs, Twitter, Facebook, Orkut, e-mails... “Ufa! Isso até cansa. Quando era jovem, não tinha esta amolação toda, não. A campanha era na base do boca a boca e a gente confiava mais nos candidatos”, diz a aposentada Francisca Vilaça, de 83 anos. A despeito do atual bombardeio de pedidos de votos pelas campanhas, eleitores experientes sentem saudade dos tempos em que eleição era conquistada à base de conversa e de comícios.
Francisca tinha 18 anos quando Getúlio Vargas foi retirado da Presidência, em 1945, depois de 15 anos de ditadura. “Lembro-me bem do clima das eleições posteriores à era Vargas. Como não havia TV e pouca gente tinha rádio, os candidatos investiam em comícios. Eles se vestiam da melhor maneira possível e todo mundo da cidade queria participar do evento. Havia uma polarização entre União Democrática Nacional (UDN), que era antigetulista, e Partido Social Democrático (PSD), que era a favor de Getúlio”, diz. Segundo ela, a rivalidade era tamanha que militantes dos partidos faziam questão de marcar presença no comício adversário, com a intenção de causar confusão.
A aposentada diz que tinha dois tios rivais políticos. “Certa vez, um deles contratou um homem com a ordem de comprar todos os ovos da cidade. Uma semana depois, teve um comício e os ovos já estavam podres. A base aliada do tio dos ovos falava para o povo e o outro só espionava. Deus do céu: quando esse homem foi descoberto, voou gema e clara para todo lado”, lembra Francisca, que, naquela época, morava em Itaúna, na Região Centro-Oeste de Minas. Ela explica que os eleitores escolhiam os candidatos à Presidência por meio de conversas com militantes políticos locais. “Era muita conversa: beltrano é bom, mas fulano é ruim. As mulheres, então, gostavam de se reunir para colocar defeito nos candidatos.”
RÁDIOS ESCASSOS ATÉ NAS CAPITAISMas a falta de outros meios de propagação não era restrita aos grotões do país. O aposentado Aluizio Mendes Campos, de 78, diz que os comícios também eram a principal arma das campanhas políticas nas capitais. “Pouca gente tinha rádio em casa e, por isso, as pessoas se reuniam em praças para escutar os candidatos. Em Belo Horizonte, a Praça da Estação e a da Rodoviária, ambas no Centro, ficavam lotadas. Hoje, os comícios praticamente acabaram. Repare: tirando o Lula, ninguém mais faz comício.”
As confusões nesses eventos são lembradas pelo aposentado João Moreira, de 88. “Vez ou outra saía uma briga. As discussões eram calorosas e tinha candidato que chegava a pagar pessoas para bater em adversários”, comenta. Ele frisa que as promessas de campanha de antigamente continuam atuais. “Diziam que iam garantir saúde, educação e segurança. Ganhava mesmo quem colocava a boca no trombone.”
Já a aposentada Izabel da Fonseca Silva, de 86, se lembra das músicas de campanha dos candidatos. “Isso é antigo. Havia poucos aparelhos de rádio nas cidades, mas os candidatos já circulavam pelas ruas com megafones. Era a maior cantoria dessas ‘músicas chicletes’. Juscelino (Kubitschek), Jânio (Quadros), Tancredo (Neves) tinham seus jingles”, recorda. Um dos mais marcantes, segundo ela, era de Jânio: “Varre, varre, varre vassourinha. Varre a bandalheira, que o povo já está cansado de sofrer dessa maneira”. Mas ela reforça que os candidatos eram escolhidos mesmo no boca a boca. “A boa conversa ganhava voto. Candidatos locais, inclusive, visitavam as casas para pedir voto.”
A cópia dos votos dos pais é destacada pela aposentada Lourdes Ferreira, de 86. “Não tínhamos muitas maneiras de nos informar e, por isso, acabávamos seguindo os votos dos nossos pais e avós. Sinto que isso não ocorra mais. Meus filhos e netos têm acesso à internet, assistem a televisão e compram jornais. Então, já têm sua própria opinião”, explica. Ela diz que, hoje, a família vota em candidatos diferentes. “Dá até uma espécie de discussão. Tem gente que não concorda com meu voto e xinga meu candidato. Mas acho que isso é muito saudável.”
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