Mercado interno super-aquecido, aumento do emprego formal, renda em elevação, incorporação da baixa renda ao mercado de consumo, indústria em crescimento, reação rápida e recuperação surpreendente na crise econômica global. As boas novas da economia brasileira, que se traduzem na melhoria da qualidade de vida da população, deveriam ser uma certeza de crescimento e fortalecimento futuro do parque industrial da nação, mas por incrível que pareça isso não é uma garantia.
Ao contrário, a pujança da economia num momento de crise global, que torna o Brasil um território irresistível para o capital estrangeiro, está se transformando numa ameaça à industrialização no país. Segmentos intermediários do parque fabril, como a indústria de equipamentos elétricos, embalagens, plásticos para a construção civil, fundição, autopeças, máquinas e equipamentos, entre outras, estão passando um sufoco por causa da concorrência com competidores externos dentro e fora do país.
“O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Em grande medida, a ameaça à indústria brasileira vem desse descompasso”, diz o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Robson Gonçalves. Parece contraditório, mas não é. Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados no início do mês, que registraram crescimento de 1,2% no segundo trimestre deste ano em comparação com os três meses imediatamente anteriores, mostram uma economia com um vigor muito grande, o que atrai um volume significativo de capital estrangeiro para o país. Com isso, o dólar se desvaloriza em relação ao real e os setores menos competitivos da indústria, principalmente o de bens intermediários, não resistem à concorrência com os produtos importados.
O ingresso de capital internacional especulativo no Brasil, que tende a se beneficiar da alta dos juros básicos na economia, a taxa Selic, é o pano de fundo da questão cambial E já se viu esse filme antes. No primeiro semestre de 2009, segundo dados do Banco Central (BC), o ingresso no país de recursos estrangeiros que não têm o setor produtivo como destino somaram US$ 9 bilhões. Nos seis primeiros meses deste ano, o volume subiu para US$ 29 bilhões, um salto de 222% no período. Já a entrada do capital estrangeiro produtivo – aquele que é efetivamente destinado a investimentos nas fábricas instaladas no país – somou US$ 19 bilhões de janeiro a junho de 2009. Este ano, em igual período, caiu para US$ 6,5 bilhões. A retração foi de 65,7%.
A ameaça de desindustrialização divide opiniões entre os agentes da indústria nacional. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Steinbruch, defende o fechamento do mercado nacional. Robson Gonçalves, da FGV, acredita que uma taxação maior sobre a entrada de capital estrangeiro no Brasil poderia ser uma solução para o problema. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Olavo Machado Júnior, dispara: “Quem fala que não há desindustrialização no Brasil é quem não tem indústria. Isso é conversa fiada de quem não tem conta para pagar no fim do mês”.
Dados compilados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) mostram que, depois de gerar superávits comerciais por cinco anos consecutivos, a indústria começou a acumular déficits em 2008. No primeiro semestre daquele ano, o resultado negativo foi de US$ 997 milhões. No mesmo período de 2009, o déficit ampliou-se para US$ 2,1 bilhões e, entre janeiro e junho deste ano, saltou para US$ 14,3 bilhões, o maior desde 1989. O preocupante é que as exportações brasileiras de produtos manufaturados não retornou ao parão do período pré-crise.
A Toshiba Transmissão e Distribuição do Brasil, fabricante de transformadores e reatores para o sistema elétrico, vive esse problema de perto. “Estamos vendo com alguma frequência o assédio de indianos, chineses e coreanos no setor. O receio é que ocorra no nosso segmento o que já aconteceu com os liquidificadores no Brasil. Você não acha um só aparelho desse tipo que seja fabricado no país. São todos chineses”, diz Robson Alves, presidente da empresa. Ele reclama que as regras para o comércio não são as mesmas entre os diferentes países produtores. Entre 2007 e 2009, a Toshiba exportava de 25% a 35% de sua produção. “Esse número caiu assustadoramente. Hoje não se consegue exportar nem metade do volume exportado em 2009”.
De acordo com ele, a situação foi agravada pela crise global porque faltou demanda e sobraram fábricas na China, na Coréia e Índia. “Esses países começaram a trazer os seus produtos para o Brasil. No curto prazo, o efeito é a queda da receita com a exportação. Mas a médio e longo prazos, algumas empresas vão sair do mercado”.
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