 | |
| Os 12 Profetas, famosa obra de Aleijadinho, cercada por serras como a da Moeda. Mineração estraga um dos mais notórios cenários de Minas |
Se por um momento os 12 profetas de Aleijadinho, postados há mais dois séculos no adro da Basílica Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, no fim da Serra da Moeda, ganhassem vida e pudessem fazer um pedido, não seria improvável que quisessem ter os seus olhos vendados. As estátuas, parte de um conjunto histórico formado pela igreja e por 12 capelas que reconstituem os passos da Paixão de Cristo na cidade, reconhecido pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, são testemunhas passivas da devastação do meio ambiente e do inchaço descontrolado de um município embaçados pelas nuvens de pó vermelho provenientes da exploração de minério de ferro. Mas eles não estão sozinhos. Se também ganhassem vida, as serras mineiras mostrariam um semblante tão ou mais angustiado do que os profetas de pedra sabão do mestre do barroco brasileiro.
Esburacadas como queijo suíço pela mineração, as serras da Moeda, do Itatiaiuçu, da Piedade, do Rola Moça, do Gandarela e da Ferrugem abrigam cidades encardidas (veja mapa e problemas das serras na página 17) .
Ao contrário da expectativa de melhoria de qualidade de vida, alimentada pelo anúncio de cifras bilionárias de investimentos, a maior parte das cidades que abrigam esse tipo de atividade continua pobre. Entre os 306 municípios mineradores no estado, apenas 40 concentram 80% da arrecadação com a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem). Municípios como Jeceaba, na Região Central, vizinho de Congonhas, recebem R$ 20,58 ao ano a título de royalty do minério. No fim de 2009, um abaixo assinado por 600 habitantes da cidade protestava contra a construção de duas barragens de rejeitos no município. Elas integram o projeto da Ferrous, em Congonhas, para a produção de 15 milhões de toneladas de minério de ferro ao ano.
Em fevereiro, a arrecadação total de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) em Minas Gerais foi de R$ 1,87 bilhão. A mineração ficou em 10º lugar, com R$ 7,2 milhões. A baixa arrecadação é fruto da exportação de minério bruto, que sai direto da mineradora para o porto, sem beneficiamento no estado. No primeiro trimestre, a extração de minério respondeu por 26,71% do total exportado pelo estado. No que diz respeito à criação de empregos, a situação não é muito mais animadora. Levantamento feito pela Fundação João Pinheiro (FJP) a partir de dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostra que em fevereiro deste ano a mineração respondia por 1,09% do total de empregos no estado. O dado não leva em conta os empregos indiretos da cadeia mineral.
Em muitos casos, além disso, a população mal vê a cor do dinheiro porque faltam políticas públicas adequadas e fiscalização na hora de aplicá-las. A expectativa de desenvolvimento rápido tropeça na falta de infra-estrutura básica para receber os investimentos do setor. O resultado são problemas de trânsito semelhantes aos das grandes metrópoles, aumento vultuoso da violência, chegada da prostituição, favelização, doenças, colapso no sistema de saúde, disparada dos preços dos aluguéis, destruição do patrimônio ambiental, histórico e artístico. Para não falar da mudança radical de sua vocação econômica. A situação tende a piorar ainda mais por causa da elevação da demanda pelo minério no mercado global, o que aumenta o apetite de empresas de capital nacional e internacional no segmento.
Em Congonhas, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), única entre as grandes a ter capital exclusivamente nacional, vai investir R$ 9,5 bilhões na ampliação da produção da mina Casa de Pedra – de 16 milhões para 55 milhões de toneladas dentro de cinco anos –, na instalação de uma unidade de transformação do minério de ferro em pelotas de minério (pelotização) e na construção de uma nova siderúrgica. Em 2009, a população estimada da cidade eram de 48 mil habitantes, mas a expectativa é que irá dobrar de volume nos próximos cinco anos em razão dos investimentos anunciados. Estima-se que, hoje, os habitantes flutuantes do município já somam cerca de 15 mil pessoas.
 | |
| Mineração em Morro Vermelho, Caeté |
É entre 6h e 7h da manhã que um dos efeitos danosos do aumento populacional começa a se fazer sentir na cidade. “Nesse horário, é impossível trafegar na Avenida Júlia Kubitschek (a principal de Congonhas). Às 18h, quem chega gasta uma hora para percorrer um trecho de 2 quilômetros que vai do trevo ao centro ”, reclama Gualter Monteiro, dono da imobiliária Imgel e ex-prefeito da cidade por três mandatos. O disparate entre o valor anunciado dos investimentos e seus efeitos negativos para o município podem ser resumidos numa frase do promotor Luciano Badini, coordenador do centro de apoio do meio ambiente do Ministério Público Estadual. “Só a expansão da mina e a construção da planta de pelotização já são suficientes para transformar Congonhas numa nova Cubatão”, sustenta, referindo-se à cidade paulista que era símbolo de poluição.
Na chuva, lama.Na seca, poeiraA caminho de Belo Vale, também na Serra da Moeda, as montanhas estão entrecortadas por uma paisagem lunar devido à exploração do minério. Há cerca de dois anos, um trecho do rodovia 442, que liga a cidade à BR -040, foi assoreado pelos rejeitos de minério da empresa Minas do Itacolomi e a estrada foi interrompida. A construção de um desvio, de terra batida, não devolveu a normalidade ao trecho, por onde carretas e caminhões pesados trafegam incessantemente. Hoje, duas grandes mineradoras atuam na região Vale e CSN. Sem contar as de menor porte, que produzem minério para vender para as gigantes. A 442 é uma rodovia íngreme e cheia de curvas perigosas.
“Quando chove tem lama, quando está seco, tem muita poeira. As carretas de minério trafegam mal enlonadas. Isso quando há lona. E a maior parte dos carros que passam frequentemente por aqui têm os parabrisas trincados pelas pedrinhas de minério”, diz Glória Maia, da Associação do Patrimônio Histórico, Ambiental e Artístico de Belo Vale.
Em Caeté, na Serra do Gandarela, o projeto Apolo, da Vale, mexe com as expectativas da comunidade, principalmente por causa da perspectiva de desenvolvimento econômico. A cidade ficou marcada pela decadência, depois que a antiga Ferro Brasileira fechou as portas na cidade, no início dos anos 1990. Agora, o comércio já registra aumento de vendas como efeito da chegada da companhia. E no setor de serviços, alguns restaurantes comemoram o movimento maior por causa dos empregados das empreiteiras contratadas pela Vale. No restaurante Fogão a Lenha, de três meses para cá o movimento aumentou 40% e o número de pessoas atendidas nas firmas que prestam serviço à companhia aumentou de 300 para 500. Mas esse é só um lado da moeda.
“A empresa está chegando, mas Caeté, como todos os municípios do estado, não tem planejamento urbano ou rural”, diz Ademir Martins Bento, representante do Movimento Artístico, Cultural e Ambiental de Caeté (Macaca). A cidade tem 40 mil habitantes e espera receber cerca de 4 mil trabalhadores indiretos durante a construção da planta da mina. “Isso pressiona os preços da moradia. Além disso, a estrutura de saúde em Caeté andou delicadíssima nos últimos anos. A Santa Casa está fecha não fecha.” De acordo com ele, o poder público municipal aposta na chegada da Vale como uma espécie de salvação. “Mas isso não está escrito no papel”, observa. (ZF)
Esta matéria tem: (14) comentários
Autor: Fernando Vianna
Estão acabanfdo com as montanhas de Minas!!! | Denuncie |
Autor: Bruno Leite
As mineradoras chegam, geram apenas empregos que exigem pouca escolaridade, com baixos salários. Aumenta a violência, gravidez precoce, prostituição infantil e adulta. Depois que a mineração vai embora, as nascentes e a qualidade da água piora. Qual será o futuro das cidades? Veja suicídio em itabira | Denuncie |
Autor: João Osni
Outro ponto interessante abordado e sugiro uma reportagem ao em/uai como fica a rodovia br 040 nas primeiras chuvas do ano, proximos a essa mineração chegando em congonhas e como os transportadores de minerio que utilizam a rodovia, acabam com a mesma. | Denuncie |
Autor: renzo Barreto
Quanto ao minério, o governo federal mete a mão, uma boa parte vai para Brasília , os impostos aqui são baixos e o governo do estado não investe o dinheiro nos municipios onde é feita a mineração.A vale é sediada no RJ onde la é inoperante , mas por pura vontade do governo federal. | Denuncie |
Autor: renzo Barreto
O descadso da Vale e a imparcialidade da população e do governo de Minas com a mesma é notório, basta olhar o trem de passageiro da mesma , que atua de BH a Vitória , uma vergonha o que a vale faz, com aquele transporte. | Denuncie |
Autor: francys souza
As condicões de trabalho na VALE sao terriveis, falta tudo. Querem que o pessoal da manutencao se lasque. Salario pessimo para técnicos e peao. É um absurdo! Na minha cidade tem muita gente saindo da VALE pata trabaçhar no comercio. É um absurdo, nos roubam e zombam da nossa cara! FORA VALE! ACORDEM | Denuncie |
Autor: francys souza
Parabéns UAI! É um absurdo, essas minerados, principalmente a VALE nos exploram e deixam migalhas! Pagam péssimos salários, os roayties sao irrisórios!Vamos obrar que siderúrugicas sejam construidas em nosso estado. Pelo fim da exportação de minério bruto!Acorda Minas! Respeito a Minas e aos Mineiros | Denuncie |
Autor: João Osni
É triste ver que o conjunto geral de congonhas está indo embora, tem que explorar minério, que explore mas que pelo menos mantenha o contorno natural da serra e que recupere a área, tenho medo que daqui a vinte anos aquela bela serra de Congonhas vire um lugar plano. | Denuncie |
Autor: Joaquim Joaquim Ataydes Monteiro Seabra
Senhores eleitos pelo seu povo. Cidades pagam para conseguirem seu crescimento. A Região do Minério a nais de 50 anos continua pagando e pelo que vejo, ainda está muito longe de colher os frutos. Turismo somente beneficia parte indignifecante da população. A hora é agora, acudam sua população. | Denuncie |
Autor: Paulo Barbosa
Vide a arrecadação de Volta Redonda que se benefícia do minério de ferro de Casa de Pedra e a arrecadação de Congonhas. O Ato Paraopeba necessita urgente de um plano urbanistico estadual para crescer com planejamento. As cidades de Ouro Branco, Congonhas, Jeceaba Cons. Lafaiete não podem mais esperar | Denuncie |
Autor: Paulo Barbosa
Parabéns ao EM pela reportagem.A falta da industrialização do minério, pouco agrega a arrecadação aos municípios. A construção de uma siderúrgica em Congonhas, pode mudar este perfil. Hoje as empresas mineradoras tem como diminuir o impacto ao meio ambiente, basta aplicar a lei.Minério bruto só ,não! | Denuncie |
Autor: Dorinha Dorinhalvarenga
Na verdade a mineração da forma como tem sido feita, tem atendido aos acionistas e nada fica para a população local, quando não são expulsos de suas terras, como no caso das comunidades quilombolas de CMD, Serra da Moeda... É preciso definir outra economia,baseada em alta tecnologia de conhecimento. | Denuncie |
Autor: Robert Antonio de Sousa
Isso é só a primeira parcela da conta, estaremos ricos em cima de muita lama e poeira. Felicidade hoje é quanto tenho no bolso, patrimônio histórico, qualidade de vida e tranquilidade, não enche carteira. Se precisarmos de cultura, meus netos que procurem na internet. | Denuncie |
Autor: Mauro Valle
lUgares tão lindos com um enorme potencial para o turismo sendo destruídos pela ganância de empresários, sou de Cons Lafaiete e fico triste vendo minha região sendo devastada pelas mineradoras pois não existe legislação que as impeça de avançar cada vez mais. | Denuncie |