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Aposentado mais velho de BH defende sistema previdenciário

Sandra Kiefer - Estado de Minas

Publicação: 27/01/2010 06:31 Atualização: 27/01/2010 06:52

"Sou quase analfabeto, mas todos os meus filhos se formaram em curso superior" - Lourenço Marcenario Boss
Aos 107 anos, Lourenço Marcenario Bossi recebeu na terça-feira a visita de outra anciã, a Previdência Social, apenas 20 anos mais nova. Para o seu conforto, o título de aposentado mais antigo da capital foi entregue em sua casa, no Bairro Cidade Nova. A placa comemorativa chegou nas mãos da gerente executiva do INSS em Belo Horizonte, Alba Valéria de Assis, como parte das comemorações da Semana da Previdência. Galante como ele só, Bossi enche a previdência de elogios. “Não se pode dizer que a Previdência é muito boa, mas ruim também não é, pois tem de acudir os aposentados do país inteiro”, defende o filho de italianos.

Nascido em 1902, Bossi tem muita história de verdade para contar. Por duas vezes, o aposentado assistiu à passagem do cometa Halley pela Terra. Na primeira, tinha apenas 8 anos. “Se não estou enganado, a primeira foi em 27 de maio de 1910”, explica ele, rodeado por cinco dos 11 filhos que vieram acompanhar a cerimônia caseira. Também os funcionários do INSS não se cansam de ouvir suas memórias. “Minha irmã mais velha, Nina Rosa (mãe do jornalista Plínio Barreto), obrigou a meninada a levantar da cama. Era o cometa. A cauda brilhante cobria o céu todo”, diz. Da segunda vez, foi uma decepção. Quase ninguém viu o ponto brilhante no céu, menor que uma estrela.

A satisfação demonstrada por Bossi com a homenagem do INSS não poderia ser diferente. Filho de imigrantes que ajudaram a construir o país, é a primeira honraria recebida pelo centenário. O pai italiano, Antonio Ludovico Bossi, era pedreiro e veio para o Brasil para trabalhar nas estradas de ferro. “Na estrada que liga BH à Serra do Cipó, sabe os parapeitos de cimento, onde as pessoas param para tirar fotos da paisagem? Foram erguidos pelo meu pai como auxiliar e pelo meu avô, que era mestre de obras”, revela o filho Murilo Viana Bossi, 68 anos, advogado aposentado. Segundo ele, o pai trabalhou também na construção de Brasília.

Bossi se aposentou em 1977, como empregador rural, mas começou recolhendo a contribuição pelo antigo IAPI, como industrial trabalhando com a indústria de manteiga, queijos e doces em Jabuticatubas. Chegou a morar em 19 cidades mineiras, atuando em diversos ofícios para criar os 11 filhos, até se estabelecer no município de Carlos Chagas, onde criou raízes. Comprou uma pequena fazenda, onde plantava café e criava gado. Mais tarde, mudou-se para outra fazenda em Itamaraju, na Bahia. O casal teve as três últimas filhas até vir em definitivo morar em BH. A mulher, Ignez, morreu aos 81 anos.

“Sou quase analfabeto (estudou até o quarto ano primário, como se dizia antigamente), mas todos os meus filhos se formaram em curso superior”, conta ele que, ao mesmo tempo, começa a declamar, de cor, uma poesia de Augusto dos Anjos. Os versos que faltam na memória são lembrados por qualquer um dos filhos, que já ouviram falar tantas vezes, em família, sobre poesia. “Ele sempre se preocupou com cultura. Reunia a família e abria a antologia poética ”, diz Verônica Bossi Cândido, 58 anos, bancária aposentada.

Muito otimismo com o Brasil


“O presidente Lula também é quase analfabeto mas o Brasil está ficando adiantado. A procriação começou a cair, o câmbio está bom e o Norte e o Nordeste estão desenvolvendo. Acho que, em 10 anos, o Brasil vai passar os Estados Unidos”, aposta ele, que lê diariamente o Estado de Minas. Quando o filho Murilo discorda do pai, lembrando da potência da China, Bossi retruca: “Mesmo que a China passe o Brasil agora, o Brasil ainda será melhor, porque não tem inimizades”. Bossi só requereu a cidadania italiana recentemente, por insistência dos netos, que querem estudar fora. “Eu tinha vontade de conhecer a Itália, mas faltou dinheiro. Há 20 anos, 30 anos, não era fácil como é hoje viajar para fora”, comenta ele, que tem 34 netos, 23 bisnetos e está a ponto de ganhar um tataraneto de cidadania inglesa.

“Em vez de placa comemorativa, vovô deveria receber um aumento na aposentadoria”, critica o neto Henrique, de 20 anos, estudante de jornalismo. Ele e a mãe, Lívia, moram com o avô, que recebe o benefício de apenas o salário mínimo. A renda é complementada pela Forluz, fundo de pensão dos empregados da Cemig (a filha Raquel contribuía como funcionária da estatal). Ao morrer de câncer, em 2003, deixou o pai como beneficiário da aposentadoria em torno de R$ 3 mil, incluindo também no contrato o atendimento do plano de saúde. Além disso, os três moram no apartamento já quitado pela filha.

“A gente costuma brincar que o valor do INSS não dá nem para a feira”, diz Inês, que viajou mais de 600 quilômetros para acompanhar a solenidade. Ela trouxe doce de leite, sequilhos e mel, fabricados por ela na fazenda. Bossi não depende do valor da aposentadoria do INSS, que recebe há 33 anos. Só com o pagamento das auxiliares, os gastos alcançam 2,5 mil. A doméstica ganha R$ 700, mais a passagem de R$ 230 mensais. A enfermeira que dorme à noite recebe um salário mínimo mais o mesmo valor de passagem e, no fim de semana, a folguista recebe R$ 80 incluindo a passagem. “Nossa sorte é que o papai não tem nenhum problema de saúde. A pressão é 12 por 8, o colesterol é normal e até os 102 anos, ele caminhava diariamente. Parou porque levou um tombo e fraturou três vértebras, mas se recusava a usar o andador”, afirma a filha Lívia, lembrando que ele usa marcapasso há 12 anos. Não toma, porém, qualquer remédio para pressão alta ou para ajudar as batidas do coração.

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