Natural de Coqueiral, pacata cidade do Sul de Minas Gerais, Mauro Quintino, de 58 anos, deixou a cidade-natal, ainda jovem, para ganhar a vida em Belo Horizonte, onde foi faxineiro e cobrador de ônibus nos idos de 1970. Entre um dia e outro de labuta, época em que o valor do contracheque empatava com o dos gastos mensais, ele conheceu um jovem que havia lhe contado sobre um próspero município do Centro-Oeste do estado, a 133 quilômetros da capital. Mal chegou ao lugar e conseguiu emprego numa fábrica de sapatos. “Hoje, sou proprietário de uma”, diz o empresário, que, na melhor época do setor, conta, orgulhoso, que seu empreendimento fabricou cinco mil pares por dia. Assim como Mauro, uma multidão de pessoas chega todos os anos a Nova Serrana, onde a população cresceu 81,5% nos últimos 10 anos: passou de 37,4 mil habitantes, em 2000, para 67,9 mil em 2009.
Veio gente dos quatro cantos do Brasil. Até do exterior, como o português José Augusto Cafeteiro, de 62, que nasceu na Ilha da Madeira e, há quase duas décadas, ganha a vida dirigindo seu táxi no município, cujo nome é uma referência à cidade histórica de Pitangui, chamada pelos mais antigos de Velha Serrana. Mas a maioria dos imigrantes, como o operário que nasceu em Coqueiral e virou patrão em Nova Serrana, foi atrás de uma vaga nas empresas de calçados. Segundo a prefeitura, há cerca de 1,6 mil unidades do setor no município. Juntas, produzem, diariamente, perto de 300 mil pares por dia. Os números estão à vista de qualquer morador ou visitante: vários quarteirões da cidade têm muitas lojas ou fábricas de calçados.
Algumas funcionam nos fundos das casas dos proprietários. A história conta que Nova Serrana, que surgiu como ponto de parada dos retirantes do Nordeste e de boiadeiros que cruzavam o país para vender gados, se especializou em artigos de couro voltados para esta população flutuante. A primeira fábrica de botina abriu as portas em 1940. Vinte anos mais tarde, eram apenas 20 empresas. Porém, no fim da década de 1960, quando foi aberta a BR-262, que corta o município e o liga a capital a Goiás, o setor ganhou grande impulso. Para se ter uma ideia, de acordo com a prefeitura, o número de fábricas na cidade saltou de 48, em 1973, para 400 em 1985.
Mauro conseguiu fazer economia e abrir a própria indústria, na década de 1980. “Devo tudo que tenho à cidade”, agradece o empresário, que mora em Nova Serrana há 35 anos. Lá, ele conheceu, quando jovem, Isabel, mulher que lhe conquistou o coração. O casal teve três filhos: Isamara, de 35, Rodrigo, de 28, e João Mauro, de 23. “Via a cidade crescer. Esta praça, que se chama José Batista de Freitas, era uma rua de terra. A população fez uma campanha para arrecadar fundos para construí-la. Está bem bonita e conservada”, diz o empresário, que, nos momentos de folga, gosta de se sentar nos bancos do lugar e observar, bem em frente, a Igreja de São Sebastião, protetor contra a peste, a fome e a guerra.
Também é de lá que ele pode ver o ponto de táxi em que trabalha o português José Augusto, que chegou ao Brasil, em 1975, para visitar familiares no Rio de Janeiro. Ainda na Cidade Maravilhosa, conseguiu um emprego de encarregado administrativo. Rodou o Brasil com a nova função. Até chegar ao Centro-Oeste de Minas, onde conheceu sua mulher e decidiu fincar moradia em Nova Serrana. “É uma boa cidade, onde há trabalho para todos. Basta procurar”, diz o europeu enquanto abre a porta do carro para mais um passageiro.
Esta matéria tem: (0) comentários