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| Em outubro do ano passado a enxurrada arrastou carros e invadiu lojas na Savassi, local que nunca havia enfrentado este tipo de problema |
A montanhosa Belo Horizonte, onde centenas de pessoas já morreram em deslizamentos de terra e encostas em vilas e favelas nos períodos chuvosos, agora se vê diante de problemas antes silenciosos e esporádicos, que invadiram de vez a cidade. Catástrofes antes esperadas para uma vez a cada década, as inundações tornaram-se dramas recorrentes em vários pontos da capital e se avolumaram até tornarem-se o maior desafio a ser enfrentado na época dos temporais. Na sexta-feira, a cidade viveu mais um dia de caos por causa de uma tempestade que alagou casas, lojas e prédios, arrastou carros e deixou um saldo de três mortos. Segundo especialistas, o fenômeno associa-se à mudança do regime de chuvas em BH, nas últimas três décadas, e foi agravado pelo avanço da urbanização e a impermeabilização do solo.
Veja os estragos causados pela chuva da última sexta-feiraCom o asfalto e o concreto alastrando-se pelo chão da capital, as mesmas águas que, em vez de penetrar no solo, correm rapidamente para os cursos d’água devolvem sua força ao entrar nas moradias e no comércio localizados nas várzeas e fundos de vale. Por vezes, elas também jorram para fora dos 200 quilômetros de galerias subterrâneas espalhados pela cidade. A mudança no perfil dos desafios que chegam com a chuva se traduz claramente em números. De acordo com o balanço do Grupo Executivo em Área de Risco (Gear) da Prefeitura de BH, no período chuvoso de 2008/2009, a Coordenação Municipal de Defesa Civil (Comdec) atendeu 210 ocorrências de deslizamento de encostas, enquanto os casos de inundação foram mais que o triplo: 692. Bem diferente do último balanço detalhado do Gear, referente ao período de 2005/2006, que registrava 133 atendimentos de deslizamento de encostas e apenas 87 de inundação.
As últimas mortes por soterramento em BH ocorreram há sete anos, quando nove crianças perderam a vida no Morro das Pedras, aglomerado na Região Oeste da capital, um dos 211 de BH. O perigo foi reduzido com a retirada, pela prefeitura, de milhares de famílias das áreas de risco. Em 1994, diagnóstico da Companhia Urbanizadora de BH (Urbel) acendeu o sinal de alerta para mais de 15 mil edificações, a maioria em encostas. Em 2009, enquanto a cidade crescia de forma geral, esse número caiu para 3.775, sendo 274 em locais sujeitos a alagamentos. “O acidente de encosta é caracterizado por três ou quatro dias de chuvas finas diretas e tradicionalmente causa mais mortes. Já a chuva curta e forte causa inundação, sendo agravada pela existência de um sistema de drenagem subdimensionado”, diagnostica o diretor-presidente da Urbel, Claudius Leite Pereira.
Impermeabilização
E foi exatamente ao longo das margens dos cursos d’água que recebem o resultado desse sistema subdimensionado e de uma cidade impermeabilizada que as mortes dos períodos chuvosos passaram a ocorrer a partir de 2003. Desde então, a fúria das águas matou 16 pessoas, oito delas nas chuvas do ano passado. Difícil esquecer o réveillon 2008/2009, quando o Ribeirão Arrudas desconheceu os limites que lhe impuseram os engenheiros e avançou sobre ruas e avenidas, causando três mortes e tingindo de barro os sonhos e esperanças do ano-novo. Durante a madrugada, foram 109 milímetros de água acumulada, em um temporal que jamais sairá da memória da atendente Elizabeth Nunes de Jesus, de 33 anos. A casa dela fica às margens do Córrego Bonsucesso, afluente do Arrudas, no bairro de mesmo nome, na Região Oeste de BH. Na virada de 2008 para 2009, ela perdeu praticamente tudo. O drama quase se repetiu na última semana de 2009, quando as águas ameaçaram invadir a casa novamente. “A gente não sabe quando vai inundar. Ficamos até fora de casa uns dias. Temos medo, mas agora falaram que vão arrumar o córrego”, diz.
De acordo com o coordenador do Centro de Climatologia Minas Tempo, Ruibran dos Reis, antes da década de 1980 houve somente dois casos na capital de chuvas de mais de 100 milímetros no intervalo de 24 horas. Depois desse período, a ocorrência de temporais tornou-se muito mais recorrente. Apenas em 2009, foram oito chuvas de forte intensidade em um curto período de tempo, mais favoráveis às inundações. “BH tinha um clima úmido e frio. Atualmente, ele é quente e seco. Devido a essa grande quantidade de calor, há uma evaporação muito rápida da água, causando grandes tempestades. O período de retorno dessas chuvas está cada vez mais curto. E, com a urbanização, a tendência é que esses temporais fiquem mais frequentes”, avisa.
O meteorologista ainda enumera outras mudanças: “O período chuvoso também está começando mais cedo, em setembro. Em 2008, tivemos uma chuva de granizo que nunca havia sido observada. Registramos em 2009 ventos e rajadas de 100km/h, o que não acontecia antes. A maior ocorrência dessas chuvas tem uma relação direta com o aumento da temperatura do planeta”. Mas a destruição provocada por elas não encontra justificativa apenas nas mudanças climáticas. “A cidade mudou, cresceu muito e, à medida que cresce, fica mais impermeável. BH ainda tem uma situação peculiar, porque tem declividade muito elevada. As cheias são rápidas e, associadas à urbanização, levam à insuficiência dos canais”, explica o professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Márcio Baptista.
Esta matéria tem: (4) comentários
Autor: Marcos Eugenio Camargos
Impermeabilização do solo aliado à falta de educação das pessoas que jogam lixo indiscriminadamente nas ruas bueiros etc ,resultam em um problema ainda maior nesse período de chuvas. | Denuncie |
Autor: Domingos Savio Barbosa Dias
E o problema aumenta quando temos Vereadores que somente pensam em asfaltar ruas para ganhar nome junto a população, como no caso de varias ruas que cruzam a av. Men de Sá, em Santa Efigenia. | Denuncie |
Autor: Ilka Reis
Já é BH sofrendo com os efeitos das mudanças climáticas. Infelizmente, isto é só o começo. Vamos ter que nos preparar (e bem) para enfrentar chuvas cada vez mais espaçadas e fortes. | Denuncie |
Autor: ThaÃs Pimenta
Acabou de cair (às 9:30 hs do dia 18/01/2010) uma árvore centenária na Rua Pernambuco em frente ao número 922 (quase esquina com Rua Inconfidentes) na Savassi. Foram atingidos 3 carros. A rua encontra-se impedida para passagem de veícvulos. | Denuncie |