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Presépios - A divina arte de recriar o Natal Na capital e no interior, mineiros mantêm tradição e montam cenário do nascimento de Jesus com um toque original que mistura peças religiosas a objetos marcantes da história familiar

Gustavo Werneck - Estado de Minas

Publicação: 20/12/2009 09:34 Atualização: 20/12/2009 12:36

Depois de quase dois meses de trabalho, Enilde Nunes de Miranda, do Bairro Boa Vista, Região Leste de BH, concluiu obra-prima com mais de 400 peças, entre figuras bíblicas e lembranças da infância - (Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press)
Depois de quase dois meses de trabalho, Enilde Nunes de Miranda, do Bairro Boa Vista, Região Leste de BH, concluiu obra-prima com mais de 400 peças, entre figuras bíblicas e lembranças da infância
 

Num canto, sobre a serragem tingida de verde, ficam a igreja, a antiga venda, a praça e pequenas casas que homenageiam a cidade natal. Perto dali, um trem de ferro, parado no tempo e no espaço, parece esperar passageiros que, sem pressa, caminham com carneiros nos ombros, baús coloridos nas mãos ou se deslocam montados em camelos ou burrinhos. O cenário, com mais de 400 peças reunidas ao longo de seis décadas, vai se completando com anjos, pastores, bichos, plantas e uma fogueira para atingir o ponto fulgurante na gruta que traz as imagens de Maria e José. Olhando cada detalhe do trabalho de quase dois meses, a professora aposentada Enilde Nunes de Miranda, de 73 anos, moradora do Bairro Boa Vista, na Região Leste de Belo Horizonte, dá por encerrada a montagem do presépio, onde só falta o Menino Jesus, que será colocado na manjedoura à meia-noite de quinta-feira. A divina arte de recontar a história sagrada se mantém na capital e no interior de Minas, com grande participação das famílias, visitação constante e um toque pessoal que eleva o encantamento.

Ao mesmo tempo em que fortalece a tradição do Natal, Enilde, natural de Monjolos, na Região Central de Minas, reconstitui momentos de sua vida. Sorridente, a professora, orgulhosa de ter passado 42 anos em sala de aula, aponta a miniatura em cerâmica da Casa Nunes, com a data de 1926 na fachada, e a moradia de antigos empregados de uma estrada, o que reaviva as lembranças da infância. Em seguida, mostra, nos caminhos de areia e pedras brancas que levam a Belém, presentes de amigos e parentes, como a escultura de um menino de Moçambique equilibrando duas latas d’água e o ferrorama dado pela neta Camila, de 16; bois e vacas vindos do Amapá; e panos que recobrem as montanhas e foram escurecidos à base de carvão misturado com grude há mais de 30 anos.

“O presépio é universal. Os amigos viajam, trazem uma lembrança e eu procuro um lugar para ela. Tenho até um monjolo para recordar a minha terra. O fundamental é a oração, a oportunidade que temos de rezar juntos e celebrar o nascimento de Cristo”, acredita a ex-professora, ao lado do marido Ismar, de 73, e da neta Áurea, de 12. Ainda criança, aos 9, Enilde aprendeu a compor o cenário sagrado com a mãe, Augusta, e não parou mais. E, hoje, quem vê a sala da residência quase totalmente ocupada com as figuras, tecidos brilhantes e pisca-pisca no céu de madeira não deixa de imaginar como tudo se materializa. O primeiro passo, explica, é fazer um desenho no papel e chamar o serralheiro para fazer a estrutura de ferro. “O curioso é que o presépio de um ano nunca fica igual ao do Natal seguinte.”

GERAÇÕES

A montagem do presépio é um ritual, com fiéis seguidores em Santa Luzia, na Grande BH, onde existe até um circuito de visitação. O professor de história Marco Aurélio Fonseca, de 34, morador do Centro Histórico, preserva o costume e usa peças que atravessam gerações. “Muitas vieram dos meus bisavós paternos e maternos, guardo com o maior carinho e respeito. Temos aqui em casa um cavalinho de celulóide, anjos de biscuit, carneirinhos de latão, os reis magos de porcelana e outras peças centenárias, a exemplo de São José de Botas, Nossa Senhora de mãos postas e Jesus segurando o globo terrestre. Os amigos, quando viajam, sempre trazem presentes específicos para o presépio”, diz Marco Aurélio, ao lado dos pais, Marco Antônio e Regina, parceiros do começo ao fim nessa viagem que vai até o Dia de Reis, em 6 de janeiro, quando o acervo, embalado em papel de seda, volta para dentro de velhas latas de bacalhau e biscoito.

Este ano, o presépio da casa do Largo do Bonfim ganhou um painel pintado pelo tio Francisco Lucindo da Fonseca Neto, com a paisagem de Belém. “O Menino Jesus merece o melhor ”, diz Marco Aurélio, ao arrematar as montanhas verdes revestidas de pedrinhas e cacos de vidro. Para ele, é um prazer se dedicar alguns dias ao ofício cujo pioneiro foi São Francisco de Assis, no século 13. “Cada pessoa tem a sua interpretação do cenário. O nosso tem até soldadinhos de chumbo, que eram da minha bisavó Idalina. É uma parte da nossa vida, da memória familiar”, diz o professor, que confessa um segredo da elaboração. “A gente fica horas pensando na arquitetura do conjunto. Se não dá certo, desmancha e faz de novo. Este ano, graças a Deus, só precisei desmanchar uma vez”.

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