Camboja: onde o sagrado e o poder se entrelaçam

A genial obra de uma civilização foi lentamente sepultada pela floresta. Mas nunca abandonada, uma vez que ali permaneceram os budistas, força religiosa preponderante a partir do século 14

por Bertha Maakaroun 22/11/2016 07:12

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Bertha Maarakoun/EM/D.A PRESS
(foto: Bertha Maarakoun/EM/D.A PRESS)

Angkor Wat ou “Cidade que é um Templo”, no Camboja, ergue-se em meio à densa floresta. Reverencia quase 600 anos da ascensão e glória do Império Khmer, fundado no século 9. O espetacular complexo, que um dia foi o centro político e religioso de uma civilização, mostra a face ao sol poente, o ocaso. Estaria destinado a ser a tumba de seu idealizador, o rei Suryavarman II (1113-1150)? Ou sua implantação se explicaria por estar dedicado a Vishnu, deus hindu responsável pela proteção do universo, associado ao quadrante Oeste?


A arquitetura khmer legou ao mundo a arte de construir templos. Nesse império, o sagrado e o poder se entrelaçaram numa forma teocrática de governo. Angkor Wat, templo principal e sede do palácio real, declarado Patrimônio da Humanidade, é demonstração disso.
A planta do complexo, como em geral os templos do período Khmer, representa o desenho sagrado de uma mandala. Traduz a simbiótica relação entre o microcosmo terrestre – o complexo de templos – e o macrocosmo dos céus, – o Monte Meru –, centro do universo e a morada mítica dos deuses hindus. O povo khmer acreditava ser a harmonia desta relação fundamental à prosperidade do reino.

Tudo é grandioso em Angkor Wat. Uma área retangular de 200 hectares abriga o complexo, no qual se inclui um lago perimetral de 3,6 quilômetros e 190 metros de largura, evocação ao oceano cósmico. Essas águas abraçam um muro, que representa as extremidades do mundo. Pela entrada Oeste, a principal, espetaculares najas acompanham a caminhada do visitante e ladeiam duas passarelas que, sobre o lago, levam ao monumental pórtico de entrada. Ali, três portais indicavam, naquela sociedade de castas, qual deveria ser utilizado: sacerdotes, funcionários, pessoas do povo e animais…

Em meio à passarela de 350 metros que abre passagem até a área central do complexo, um lago interno espelha a imagem invertida dos templos posicionados na plataforma sagrada de Angkor Wat. De base piramidal, “pois o quadrado é a forma perfeita”, quatro templos (prasats) e as respectivas torres de cume em forma de botão de lótus, referência ao Monte Meru, indicam, em terraços de alturas decrescentes, os pontos cardeais. Quilômetros de galerias circundam a base do complexo. Nestas, em baixo-relevo e em sentido anti-horário, é narrado um mundo mitológico que desvenda bailarinas celestiais – as apsaras – e guardiãs – as devatas.

A partir do século 15, o poder Khmer entrou em decadência. A genial obra de uma civilização foi lentamente sepultada pela floresta. Mas nunca abandonada, uma vez que ali permaneceram os budistas, força religiosa preponderante a partir do século 14 do já então débil reino Khmer. Foi em 1860 que o complexo de Angkor Wat chamou a atenção e se popularizou no Ocidente, por meio da apaixonada descrição do naturalista e explorador francês Henri Mouhot: “Um desses templos é rival ao de Salomão. Erigido por algum antigo Michelangelo, poderia ocupar um honorável lugar entre os nossos edifícios mais belos. É maior do que qualquer dos nossos legados de Grécia e Roma, e apresenta um triste contraste com o estado de barbárie em que agora se encontra sumida a nação.”

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