Sim, nós temos champanhe na Serra Gaúcha

Chileno descobre na região as condições ideais para a produção de espumantes de altíssima qualidade. Cave Geisse produz rótulo que virou conceito

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Bertha Maakaroun/EM/D.A Press
Espumantes da Cave Geisse ganham a crítica internacional e se equiparam em qualidade ao Champagne produzido na França. O solo e o microclima dão a algumas áreas de Pinto Bandeira condições únicas no mundo para produzir a bebida (foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A Press )

Em atalhos por vinhedos, o quatro por quatro ameaça roçar as espaldeiras carregadas de chardonnay e pinot noir. Sobe e desce serras do terreno basáltico de origem vulcânica, repetindo o trajeto onde, há mais de 100 anos, imigrantes italianos abriram picadas nas matas nativas. Uma cachoeira se anuncia. Cai suave engrossando o curso d’água mata adentro. Dependurado sobre a queda, um deque, uma cadeira, muitas borboletas e o espumante. Você vai degustar um dos produtos Geisse no próprio terroir, vinícola onde é produzido o Cave Geisse, apontado no ano passado pela crítica internacional Jancis Robinson como o grande destaque para espumantes produzidos fora da região francesa de Champagne.

Mas essa é a história não de um italiano. É de um outro pioneiro: o chileno Mario Geisse, que chegou ao Brasil pelas mãos da Chandon nos anos 70, e hoje, numa região única no mundo para a confecção de espumantes, alcançou expertise e altíssima qualidade. Para além da espetacular bebida, busca-se também um conceito: uma produção autossustentável, em  respeito à natureza e ao terroir, dirigido para a produção de uvas específicas para um solo composto por camadas de argila e rochas em decomposição, que dão a mineralidade e características especiais aos espumantes. Mais do que isso, os espumantes brasileiros de alta qualidade, com baixa adição de açúcar e produzidos pelo método tradicional em sua forma nature ou brut, tornaram-se o curinga da enogastronomia. A bebida fresca e elegante entrou de vez nos roteiros dos melhores restaurantes do país, acompanhando cardápios ecléticos, que vão de frutos do mar a carnes vermelhas com molhos leves.

Também em Pinto Bandeira, a Vinícola Don Giovanni oferece uma imersão na cultura da uva: num casarão dos anos 30, decorado com móveis antigos, uma charmosa pousada de mesmo nome, com oito quartos e um chalé em meio aos vinhedos, dá ao visitante a oportunidade de acompanhar o sol se perder no horizonte dos parreirais. Na churrasqueira da pousada, cada um tem a opção de se tornar o próprio chef, degustando os excelentes espumantes produzidos pelo método champenoise.
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Rinaldo Dal Pizzol, presidente da vinícola que leva o nome da família, abre a enoteca aos visitantes, que ainda têm a chance de conhecer a terceira maior coleção privada do mundo, com 400 variedades de uvas (foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A Press )

Quando os prazeres da mesa estão disponíveis para consumo no próprio terroir em que os vinhos e espumantes são produzidos, a enogastronomia ganha toques adicionais de sofisticação. É assim que também na Vinícola Dal Pizzol  entra-se num mundo encantado de Dionísio, que se prolonga há 13 gerações, atualmente sob o comando dos irmãos Rinaldo Dal Pizzol e Antonio Dal Pizzol. Além de conhecer o Ecomuseu do Vinho – que abriga a terceira maior coleção privada do mundo, em campo aberto, com cerca de 400 variedades de uvas, de 30 países –, lindas paisagens se revelam ao se percorrer a propriedade. “Setenta por cento do que se vivencia com o vinho está fora da taça. São emoções, cultura e memórias”, considera a enóloga Simara Troian, que aplica aos visitantes uma degustação às cegas, estimulando leigos a desenvolver o paladar e o olfato. A parada final do passeio é no Ristorante Enoteca Dal Pizzol: um lago onde cisnes negros desfilam é parte do cenário, que se completa com a farta mesa, em que cada prato é delicadamente harmonizado com elaborados vinhos de alta qualidade.

Primeira vinícola brasileira a empregar a mão de obra feminina e também a exportar, a sede da centenária Peterlongo é um castelo no município de Garibaldi, também integrante do Vale dos Vinhedos. Desde 1913 escreveu parte da história da produção dos espumantes no país, aliás, com direito legal a chamá-los de “champanhe”. É de propriedade do empresário Luiz Carlos Sella, que na década de 90 adquiriu e salvou a vinícola, então à beira da bancarrota. Dos 4,5 milhões de garrafas colocados no mercado no ano passado, 25 mil são pelo método tradicional e têm alta qualidade. Um dos ícones é o Elegance, nature, que desfila a expertise da marca e ganha especial sabor quando degustado em piquenique nos vinhedos do castelo, onde o visitante é convidado, no período da colheita, a degustar as uvas nas parreiras. Cheio de planos e apaixonado pela cultura do vinho, Sella dá início a uma nova história para a Peterlongo, com projetos ousados para novos produtos voltados para um público cada vez mais exigente.
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A sede da centenária Peterlongo é um castelo no município de Garibaldi, também integrante do Vale dos Vinhedos (foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A Press )

Como é feito o espumante pelo método tradicional (champenoise)


1) A uva é colhida e levada para a câmara fria, evitando perda aromática
e a pré-fermentação
2) Da câmara fria, a uva vai para a mesa de seleção
3) Após a prensagem automatizada, o suco (mosto) é enviado aos tonéis de aço, em dutos específicos para cada tipo de uva. Neles, é elaborado a partir do mosto o vinho-base, que ainda sofrerá a segunda fermentação nas garrafas
4) Engarrafamento
5) Fermentação na garrafa a temperaturas controladas entre 12 e 13 graus nas caves de fermentação. Durante esse processo, que leva entre quatro e seis meses, as garrafas são deitadas na horizontal. As leveduras vão se alimentar do açúcar e transformá-lo em álcool, liberando gás carbônico, o que dá origem à perlage do espumante. Isso vai se dar de forma lenta e homogênea
4) Após a fermentação, as leveduras morrem e entram em processo de autólise, liberando proteínas, sais minerais, matéria nitrogenada, aminoácidos, o que levará a toda sofisticação e complexidade do espumante. As garrafas ficam em repouso por período que pode se estender de meses a anos, dependendo da vinícola e da sofisticação do produto
5) Remuage em pupitre ou giropalete é o processo de limpeza do líquido nas garrafas, que são giradas em geral durante 20 dias. Quando girada, a garrafa vai sendo progressivamente inclinada até a posição vertical, de modo a empurrar as leveduras para o bico. No opérculo (tampa de plástico), fica sedimentada toda a levedura morta
6) No processo de dégorgement, o bico das garrafas é congelado, formando um tampão de gelo que aprisiona as leveduras. Quando a garrafa é aberta esse tampão é expulso pela pressão do gás carbônico
7) É colocada a rolha e a gaiola
da garrafa.

Entenda a produção de espumantes no Brasil

» A qualidade da uva é o grande diferencial no processo vitivinícola. Certas localidades da Serra Gaúcha, particularmente no município de Pinto Bandeira, reúnem condições únicas no mundo para a produção de uvas para espumantes: microclima favorável, a região alta, com boa exposição solar e o solo de basalto fragmentado pelo tempo, possibilitando boa drenagem. Em decorrência dessas condições, as uvas alcançam o amadurecimento completo da casca, semente e polpa, com excelente acidez e baixo teor de açúcar, o que é essencial para o espumante de alta qualidade.

Principais características do espumante brasileiro

» O champanhe e o espumante brasileiro apresentam estilos diferentes. Os espumantes de vinícolas altamente especializadas produzidos no Sul do Brasil pelo método tradicional (champenoise) com as uvas chardonnay e pinot noir se rivalizam em qualidade com o francês. A bebida produzida no Brasil é mais fresca, equilibrada em acidez e em estrutura, com níveis de açúcar mais baixos, o que a torna muito mais fácil de beber e de harmonizar
com qualquer prato do que o champanhe francês.


Onde comer
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Jantar harmonizado no restaurante do Hotel Cascurta, em Garibaldi: sensação de aromas e prazeres (foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A Press )

Casa DiPaolo – especialidade: galetos
BR Km 6 – RST-470, 221 – Bela Vista, Garibaldi
Contato: (54) 3463-8505

Caldeira Restaurante – especialidade: ossobuco com polenta cremosa
Rua Antônio Ducatti, 138, Bento Gonçalves
Contato: (54) 3701-0272

Restaurante Casacurta – menu completo, harmonizado pelo chef
Rua Luiz Rogério Casacurta, 510, Garibaldi
Contato: (54) 3462-2166

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