Descobrir uma outra Lisboa

Conhecer a capital de Portugal vai muito além de visitar roteiros turísticos tradicionais, que, por sinal, são imperdíveis. Mas vale explorar novos recantos

por Zulmira Furbino 23/12/2015 06:07

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Zulmira Furbino/EM/D.A Press
(foto: Zulmira Furbino/EM/D.A Press)
O desejo de viajar para Portugal já havia batido na porta há algum tempo. Foi no momento da decisão de antecipar as férias que bateu uma dúvida. Com o dólar nas alturas, a passagem estaria muito cara, o que nos fez mudar de planos e pensar em trocar o destino, rumo a algumas praias brasileiras. Pensamos em Fernando de Noronha, Recife e Paraíba. No momento de botar as contas no papel, surpresa: a viagem no Brasil sairia quase pelo mesmo preço que a aventura em Portugal. Diante disso, compramos a passagem para Lisboa. O passo seguinte foi decidir pela hospedagem. Uma estada de muitos dias tornaria os preços muito salgados. A opção foi alugar um pequeno apartamento (no site airbnb.com.br) e depois viajar de carro, e sem destino, pelo país, aí sim, com hospedagem em hotéis.

Outro momento de dúvidas foi o que levar em conta na hora de escolher a localização do apartamento em Lisboa. A saída foi consultar amigos que haviam visitado a cidade recentemente. Nossa opção foi o Bairro Alto, um emaranhado de ruas estreitas, repleto de pequenos – e ótimos – bares e restaurantes. Destaque para As Salgadeiras, que serve comida típica portuguesa de altíssima qualidade e foi a melhor relação custo/benefício da viagem. No menu de comidas típicas portuguesas, sugiro o Lombelo de porco preto com migada de batata e alheira e, de sobremesa, o doce conventual acompanhado de um cálice de vinho do Porto. É impossível se arrepender.

Ainda no Bairro Alto, na Praça Luiz de Camões, a Manteigaria Lisboa serve aquele que atualmente é considerado o melhor pastel de nata da cidade. Ali, o sino bate a cada fornada da guloseima (de 15 em 15 minutos). Bem ao lado, fica a Baixa Chiado, onde estão concentrados teatros, como o São Luiz e o Teatro Nacional de São Carlos (a ópera lisboeta), galerias de arte e também bares e restaurantes como o Cantinho do Avillez. O pequeno restaurante é um espaço descontraído. A cozinha, ao mesmo tempo, simples e sofisticada – um dos chefs é brasileiro –, faz a gente querer voltar. Seja feliz diante de uma frigideira de vieiras com batata-doce de Aljezur, aspargos verdes e tomates ou com o Bife tártaro com batatas Nova York e termine a noite saboreando um creme de avelã.

Entre tantas atrações imperdíveis em Lisboa, está um passeio pela Alfama, o mais típico e antigo dos bairros tradicionais da capital portuguesa. O local abriga o Castelo de São Jorge, monumento nacional que integra a zona nobre da cidadela medieval. A fortificação, construída pelos muçulmanos em meados do século 11, era o último reduto de defesa para as elites que viviam na cidadela a partir da qual se formou Lisboa. Pelas muralhas, tem-se uma vista maravilhosa da cidade. A Alfama é um bairro que parece um labirinto, entrecortado por escadinhas que ladeiam as casas e prédios, a maioria dos séculos 18 e 19. Ali, entre roupas dependuradas nos varais do lado de fora da janela, há lojinhas, bares e vielas.

CASAS DE FADO
A região também concentra as melhores casas de fado da cidade. Se você quer uma experiência incomum, sugiro o Senhor Fado de Alfama, um pequeno restaurante que recebe no máximo 22 pessoas por noite. A casa, de decoração simples e caprichada, é comandada pela fadista Ana Marina e pelo violonista Duarte Santos. Os próprios donos preparam o jantar – tradicional cozinha portuguesa, feita com produtos caseiros – e a sensação que se tem é de estar na sala da casa de amigos. Optamos pela cataplana de mariscos, um delicioso prato português feito à base de frutos do mar. Depois da sobremesa, vem a cereja do bolo: um emocionante show do mais autêntico fado português.

Longe do roteiro turístico tradicional, que inclui passagens obrigatórias pelo Mosteiro dos Jerônimos, construído no século 16, Torre de Belém e, claro,um cafezinho com pastel de belém feito na Fábrica dos pastéis de Belém, que produz a iguaria desde 1837, está o museu da Fundação Calouste Gulbenkian. Se você gosta de arte, reserve duas tardes para visitar o local. Gulbenkian era um milionário e mecenas armênio. Colecionador de arte, principalmente europeia e asiática, chegou a reunir mais de 6 mil peças datadas a partir de 2500 a 2700 antes de Cristo. No museu, é possível encontrar desde peças do Egito e da Grécia antigos à pintura primitiva e às impressionistas, a exemplo de Renoir, Rembrant, Manet, Degas, Monet. Isso para não falar de esculturas, cerâmicas do Antigo Egito, cerâmicas orientais, manuscritos e encadernações de livros antigos, artigos sírios de vidro, luxuosas peças do mobiliário francês, tapeçarias turcas, peças de joalheria de René Lalique, moedas gregas, medalhas italianas do Renascimento e porcelanas da China antiga. O interessante nesse museu é que, além de as peças fazerem parte de uma coleção pessoal – de cair o queixo –, elas mostram, paralelamente, a arte e o modo de vida a partir de utensílios antigos.

Outro local que vale a pena visitar é a Casa de Fernando Pessoa, onde o poeta português passou seus últimos 15 anos de vida (1920 a 1935), no bairro lisboeta Campo do Ourique. Ali funciona um centro de cultura e é possível visitar o quarto de Pessoa, com a cômoda original sobre a qual, no chamado “dia triunfal”, ele deu voz aos seus principais heterônimos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Os objetos pessoais do poeta, a exemplo da máquina de escrever, óculos e blocos de anotação, terno, sapato e chapéu completam o acervo que abriga uma sala multimídia e a preciosa biblioteca particular do autor, digitalizada e disponível para consulta on-line. Depois de mergulhar na alma de Fernando Pessoa, aproveite para visitar a Praça do Comércio, a Baixa Pombalina – parte da cidade reconstruída pelo Marquês de Pombal depois do terremoto de 1755. Depois, pare para descansar almoçando no restaurante Martinho da Arcada, frequentado pelo escritor. No fim da tarde, curta o pôr do sol dourado do Rio Tejo.

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