Pétalas de fé e arte

Festa da 'Rainha da Amazônia' recebeu os fiéis com uma exposição de mantos de flores naturais criados para homenagear Nossa Senhora de Nazaré, celebrada no último dia 11

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Belém (PA) – Como se fosse um escultor da natureza, Arley Borges, de 36 anos, olha para a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, dá um último ajuste no manto da padroeira da Amazônia e acha que o trabalho pode ficar ainda melhor. Então, delicadamente, toca uma orquídea com a ponta dos dedos, gira, e encerra a obra que atrai pela inspirada combinação de flores e singela beleza dos tons. “Nasci no meio de um jardim, região com grande variedade de espécies, aí a criatividade brota naturalmente”, afirma o florista e arte-educador natural da capital paraense e estudante de design em São Paulo.

 

Elielson Modesto/Divulgação
Florista e arte-educador paraense, Arley Borges ajusta o manto da padroeira e dá o toque final à sua obra (foto: Elielson Modesto/Divulgação )
 

Ao lado de outros profissionais, Arley aceitou o desafio de criar mantos de flores naturais para homenagear Nossa Senhora de Nazaré, que teve seu dia celebrado em 11 deste mês, quando ocorreu a tradicional procissão do Círio, uma das maiores celebrações religiosas do mundo, acompanhada por mais de 2 milhões de católicos. A cidade viveu muitos dias de festa e o resultado foi apresentado durante o Festival Internacional do Chocolate e Cacau Amazônia e Flor Pará 2015, promoção do governo do Pará e parceiros. A nova forma de enfeitar os santos tem tudo para “pegar” em Minas, tanto nos altares domésticos, substituindo os jarrinhos de flores, como nas procissões das padroeiras estado afora.

Os organizadores do evento tiveram a feliz ideia de expor as imagens, em caixas de vidro, logo na entrada do Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, para que dessem as boas-vindas aos visitantes. Funcionou e o povo agradeceu. E para causar mais impacto à cena, foram cobertas de flores apenas peças brancas de gesso, com 30 centímetros de altura, pelas mãos dos floristas da terra Joaquim Santos, Oneno Moraes, Vando Rodrigues e Arley Borges. Olhando-se cuidadosamente cada imagem, a impressão é de que as flores simplesmente “abraçam” a protetora dos paraenses, sem querer brilhar mais do que a devoção do povo.

“Sou católico e também valorizo a espiritualidade. Nossa história está totalmente ligada à fé em Nossa Senhora de Nazaré. Trabalho há 10 anos com flores, mas esta é a primeira vez que faço um manto”, conta Arley, que criou dois para a mostra: um com orquídeas nos tons verde e lilás e outro com folhagens típicas da região. “Tudo é fruto de criatividade e técnica, passei uma tarde inteira dedicado à atividade”, contou o especialista, que também mostrou sua técnica numa oficina sobre arranjos florais. Na base, ele não usa tecidos, mas uma armação de arame e ganchos revestidos para as flores não caírem.

Sempre atento aos detalhes, Arley explica que a ornamentação das imagens sacras pode perfeitamente ser feita em casa, dentro do lema “menos é mais”, pois, se houver leveza, a comunhão de flores e cores, fica mais interessante. “Não estamos fazendo um andor para a santa, devemos estar atentos à dimensão. Tem que ser um resultado delicado, minucioso, minimalista.” Na segunda homenagem, ele escolheu apenas folhas verdes, entre elas, a costela-de-adão.

ENCANTO NO OLHAR Há 22 anos no ramo, o artista floral Vando Nascimento encarou com alegria a proposta dos organizadores, que seguiram uma característica do Círio de Nazaré: a cada ano, um estilista é responsável pela confecção do manto usado na imagem peregrina de Nossa Senhora que sai às ruas de Belém, dentro de uma berlinda (andor de vidro, fechado), no segundo domingo de outubro. “O Círio é muito emocionante, e fazer esse trabalho também”, disse Vando.

As flores costumam murchar em cinco dias, em média, mas Vando acredita que, em Minas, os interessados poderão usar sempre-vivas, que, como o próprio nome diz, têm grande durabilidade, ou flores desidratadas. As peças criadas pelo artista despertaram olhares de encantamento, como o modelo coberto de margaridas e flores-do-campo. No outro, ele escolheu orquídeas dispostas sobre uma base de palha de tururi, palmeira da região amazônica, com efeito de uma renda.

Observando longamente as criações dos conterrâneos, a costureira Maria Luiza Queiroz, de 76, escolheu como preferido o manto de margaridas, com total aprovação da filha, a decoradora Rose Rodrigues. “Lindo e original”, comentou a mãe. As amigas Alcídia Florenzano e Lília Almeida, enfermeira, também gostaram do que viram. “Sou evangélica e admiro a beleza”, disse Alcídia, enquanto Lília, católica, adorou a proposta. “Fazemos a novena, então é ótimo enfeitar o altar”, acrescentou.


Saiba mais
Polos de produção

A cadeia produtiva de flores tropicais, ornamentais e temperadas abrange mais de 200 produtores no Pará, gerando mais de 1 mil empregos diretos. Com incentivo do governo estadual, o setor cresceu: os produtores se profissionalizaram, surgiram novos polos de produção, como os dos municípios de Marabá e Santarém, e houve melhoria na qualidade das flores e plantas ornamentais a partir da introdução de modernas técnicas de pós-colheita e novas tecnologias de produção.

 

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival Internacional do Chocolate e Cacau Amazônia e Flor Pará 2015
 

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